interior

Eu vagava pela casa arrumando as prateleiras, as gavetas, dobrando roupas. A vida resumia-se a isso, agora. O fogão era um grande amigo, passávamos horas e horas conversando, trocando intimidades e receitas. A pia era uma inimiga fofoqueira, nem eu ainda conseguia gostar dela, apesar da convivência forçada (ou talvez por isso mesmo), nem ela simpatizava comigo, meio louca, aprontava umas de vez em quando. O telefone tocava, volta e meia, se não era eu respondendo que ele não estava, era minha mãe, sem fé que eu estivesse bem. O jardim ficava largado, nunca consegui gostar de colocar as mãos na terra e o frio que aqui faz deixam-no como um quadro triste daqueles que alguma tia pinta e colocamos na parede quando ganhamos em algum aniversário. Ali da janela fico olhando para ele, entre uma vassoura e a máquina de lavar roupa, por alguns minutos. Só alguns… parar lembra que ainda posso pensar. No final do dia sinto-me exausta, com a janta pronta e a mesa arrumada, como se eu tivesse corrido uma maratona, ou quebrado pedras o dia inteiro. Não lembro mais porque vou deitar na cama de casal fria e dura. Ouço a TV e os comentários dele, faço que “sim” ou que “não” com a cabeça algumas vezes, sorrio quando ele diz que me ama. Durmo cedo, com as galinhas como dizia minha avó. O frio dentro de casa fica mais suportável com o aquecedor elétrico que ele trouxe semana passada, mas durmo sempre com três blusas e três calças. Sinto um nó no estômago quando sinto minha pele gelada, ou a dele. Pele gelada me lembra os mortos. Nem neles penso mais. Meu cabelo está pela cintura, sempre amarrado num coque ou coisa assim. Os shampoos que vendem aqui são muito caros e de poucas opções. Me diziam, antes de me mudar, que a vida na capital era cara. Mal sabem eles que aqui, longe de tudo, nada é barato. E pouco se tem a comprar. Nem isso faço, compras. Não saio mais de casa, ele até tentou me incentivar a fazer amizades aqui pela vizinhança. Mas essas velhas mal arrumadas, feias e gordas me olham com malícia e inveja. Não suportaria nem falar com elas. Enquanto o fogão assa e a máquina trabalha fico sentada no sofá, debaixo da manta, folheando uma revista qualquer que ele sempre traz da rua. Quando ouço a máquina parar já levanto, com um certa alegria e resignação, para estender as roupas. Às vezes, acho que lavo demais as roupas. E que não tenho comido muito bem, já perdi muitos quilos, tem dias que nem almoço, só a janta para ele, que é sagrada. Encontrei um espanador esses dias, numa caixa da mudança, fico com ele o dia inteiro na cintura. Poeira não tem mais em canto algum. Quando chove quase entristeço, bate uma vontade de chorar por horas a fio, até secar os olhos… os pássaros se abrigam no telhado e nas árvores do quintal. Só ouço os passinhos deles pelo forro e imagino como devem lutar pelas suas vidas e de seus filhotes neste frio. A máquina de lavar roupa parou novamente. O devaneio se foi.

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Um comentário em “interior

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  1. O mesmo estilo…”Deitar com as galinhas”..meu Pai dizia tb…Fico desejando a próxima crónica (e farei compilação). Engraçado o mundo…O Inverno aí tão perto, o Verão aqui ao lado…

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