O suicida, no supermercado

Os motivos que ele tinha para ser um suicida em potencial eu não sabia. Acho que nunca saberei, pois os motivos de um suicida serão sempre obscuros, indizíveis, inescrutáveis para nós. Era uma sexta-feira à noite, agosto, um inverno incerto, com calor de primavera pela tarde e temperaturas de lareira à noite. Um movimento daqueles nos corredores do supermercado, casais que preparam as luxúrias para o fim de semana, crianças grudentas e fedidas saindo da escola sendo carregadas pelos pais carrancudos, estudantes, muitos universitários que moram longe de casa correm comprar a bebida nossa de todo porre, as comidas congeladas nossas de toda pré-balada. Ele é uma figura típica local, idade dos cabelos brancos e muitos pêlos, bermudão de velho que esqueceu de renovar a idade do guarda-roupa, moletom que já viu tantos sóis que esqueceu a sua cor. Um carrinho de supermercado gigante pairando incerto pelos corredores apertados e entulhados de pessoas. O caminho parecia ter sido traçado numa ordem lógica. Pães Oito garrafas de vinho. Tinto. Cabernet sauvignon pra qualquer hora, tão comum quanto água. Mas água não tem tinto. A qualidade indiscutível. Queijos. Provolone, gouda, mussarela, parmesão. Queijos firmes, adocicados, defumados. Boa combinação. Aqui, o mais destoante de tudo… ou não: cerveja. Cerveja? Para muitos ali era a compra básica, cerveja e cerveja, ou cerveja e carne. Mas para ele? O que a cerveja faria com os vinhos, o pão e os queijos? Ali parada na fila olhando para o carrinho dele eu descobri: ele era um suicida. Aquelas doze latas de cerveja diziam isso. Não haveria alguém que tivesse pegado os itens anteriores e chegado ao crime, ao avesso, de pegar aquelas latas. Aquilo o indicava. Aquilo o anunciava. Aquilo assinava sua carta derradeira. Eu, olhando aquelas latas, voltava os olhos para as garrafas (eu mesma com duas garrafas de vinho, rosé e branco, ambos suaves, nem eu mesma sabia porque, talvez para não pensar em questões tão duras quanto às do meu vizinho de fila), via o pão… saboreava as lembranças do gouda. E lá estavam elas, as latas. O barulho dentro do supermercado era tão irritante que o mp3 me ensurdecia. Uma fila parada com um cara e cinco pacotes gigantes de pães (pelo jeito estava barato, não?), uma mulher daquelas que já passou da idade pra tudo e é “intelectual” conversando com um projeto de homem que quer mostrar nas roupas, cabelos, postura que é intelectual, entre eles não pode haver sexo, minha imaginação não permite, mas há um sanduíche natural – só o que poderia haver, tudo que eles são, dizem e pensam se traduz naquele pão murcho e colorido de cenoura. Aquele suicida ali, eu ainda não havia entendido. Mas, volto os olhos para o carrinho dele, penso que não entendo aquilo. E… lá está! Lá está a prova definitiva! A minha estranha desconfiança se confirmava com aquilo, aqueles dois pacotinhos por baixo dos queijos que eu não havia percebido… lá estão as navalhas! Navalhas! Agora tudo se encaixava, tudo ficava claro. As latas de cerveja eram o indício. E ali estava a prova. Meu coração deu um salto. Meus gestos travados. Minha cabeça inconstante olhava para os lados. Eu não podia fazer nada. Diante de uma decisão nada pode ser feito. Virei os olhos, aguardei minha vez, paguei meus vinhos e segui para casa. Seria uma noite difícil.

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