As melhores coisas da vida

Ser adolescente é difícil. É tanta coisa que acontece conosco e com os outros. Mas fica ainda mais difícil quando temos que encarar os problemas e dramas de adultos. “As melhores coisas do mundo” não é uma lista em forma de filme com tudo aquilo de bom que existe no mundo. Ele é um filme que entra na vida de dois adolescentes, irmãos, Pedro e Mano. Eles vivem um cotidiano comum para a maioria dos adolescentes entre primeiras descobertas, paixões, brigas, bebidas. Pedro é contido e intenso, Mano é bobo e inseguro. Carol é a menina que não faz parte do todo, a ovelha negra porque não é vaidosa nem anda só com as meninas. Os estereótipos ali desenhados em adolescentes são perfis de muitos estereótipos adultos. No colégio, a vida vai entre garotos conquistadores que fazem uma lista das meninas que já “pegaram” e quais já perderam a virgindade com eles num arquivo com fotos no computador, “nossos pais nunca tiveram isso, cara” é o comentário triunfante, e meninas loiras mais desenvolvidas para a sua idade que “dão pra todo mundo” e arrasam corações. Porém, além do óbvio há personalidades fortes como a menina que se veste diferente e toca bateria, e por isso é tachada de “sapatão”. Pedro assume para si uma maturidade que não é própria da sua idade. Ele tem um namoro de longa data e quando perguntado por seu irmão como foi sua primeira vez ele diz que “gozou antes”, mas que depois “rolou legal”. Foi com a namorada num hotel duvidoso no centro da cidade “não tão vagabundo quanto os outros e mais limpo”. Pedro é um rapaz introspectivo que vive às voltas com a paixão pela fotografia e pela escrita, tem um blog no qual escreve poesias e angústias. Mano só quer perder a virgindade, ou pelo menos o personagem assim se apresenta no começo.

 

 

No entanto, o filme assume ares de gente grande quando o pai deles sai de casa porque está namorando um outro homem. Se o pai sair de casa abala os meninos, descobrir o motivo vai mudar um (Mano) e exarcebar a maturidade precoce do outro (Pedro). “Descobrir que sua família não existe é uma bosta”, desabafa Mano.

 

Mano é o tipo de garoto que anda em bando e zomba de todos. Ao se deparar com a situação do pai, logo percebe que poderá virar motivo de zombaria. Ele pede até para o pai não ir mais buscá-los no colégio. Mano começa a perceber que zombar da menina que se veste diferente não é tão simples quanto pareceu ao fazer uma caricatura dela. Carol, por outro lado, apesar de ouvir do professor de Física que não pertence ao “rebanho”, mostra-se frágil diante de um garoto como as meninas mais bobas do rebanho. Aliás, o professor de Física é a paixão de Carol – homem mais velho, que a entende e a elogia. Essa paixonite pelo professor é que vai desencadear mais um drama adulto na vida dessas quase crianças. Ao beijar o professor ela não espera que todo o colégio fique sabendo. A notícia se espalha e ela culpa Mano, pois só havia contado a ele. Injustiça, então, torna-se o prato do dia. Mano vê que ser injusto é muito fácil. Se ele antes era injusto, agora são com ele.

 

Pedro não percebe, com os silêncios e ausência de sorrisos, que seu namoro vai mal. É como se Pedro levasse aquilo tudo tão a sério que não há opções como terminar o relacionamento. Mas é bem isso que acontece. Ela diz que estão juntos desde os 15 anos, é muito tempo. Se há outro? Não. Mas há um “outro” que a diverte. Pedro perde o chão e compra um terreno em Marte.

 

Os pais deles resolvem ajudar Pedro mandando-o ao psicólogo. “Terceirizar a afetividade” como critica o namorado do pai quando sabe da atitude deles. Pedro vive no seu mundo pedindo ajuda para quem quiser ler no seu blog, pois dentro de casa se vislumbra apenas uma violência contida nos seus gestos e palavras.

 

Os adolescentes, então, experimentam definitivamente porque esta fase é chamada de “transição”. Não é só mais rir do colega diferente nem dizer se a aula é chata ou não. O seu pai é gay, seu único e grande amor não é mais feliz ao seu lado. Amigos traem, as verdades e os segredos são poderosos.

 

Os últimos filmes brasileiros sobre adolescentes me surpreenderam. Ao lado de “As melhores coisas da vida”, de Laís Bodanzky, está “Antes que o mundo acabe”, de Ana Luiza Azevedo. Ser adolescente não é uma bobagem, é muito mais doloroso e perigoso do que os pais costumam acreditar. No caso de Mano e Pedro, o que o primeiro tinha de inseguro e o que o segundo tinha de maturidade precoce vai ser invertido. Pedro corre atrás de sua amada, não aceita o fim, aceita até dividí-la com o “outro”. Mano decide fazer parte de uma chapa pela eleição no colégio na qual é levantada a bandeira da diferença, corre atrás de fazer um abaixo-assinado pela volta do professor de Física, quer reparar danos. Mano apanha de uns colegas que descobriram que seu pai é gay. Seu melhor amigo é que espalhou a história do beijo do professor para afastá-lo de Carol. Esse melhor amigo diz que “ele ficou diferente desde quando o pai começou a dar a bunda”.

 

Mano assume as responsabilidades na hora que elas se apresentam. Pedro já não se encontra mais. A solução final drástica de Pedro para a sua dor é mais dolorosa para os outros do que para ele, ele já se decidiu, afinal. “O suicídio é a grande questão filosófica”, ele cita Camus. O distanciamento dele em relação a todos é tão contraditório pois ele se despede no seu blog (que é público). Mas só o namorado do pai, o qual ele ignora, é que lê sua aflição.

 

A partir de um momento, tudo parece caminhar para este desfecho: os irmãos assumem seus papéis, transitam na transição da insegurança para a maturidade precoce. Para alguns, esta transição se faz leve e natural. Para muitos adolescentes não, porque eles se vêem no meio de um turbilhão que não lhes diz respeito, que eles não querem, mas tudo está ali na sua frente e eles precisam tomar uma atitude.

 

Decidir sobre a própria vida é a atitude mais madura que se pode esperar de uma pessoa. Não é à toa que a maioridade penal é aos dezoito anos. Não é nessa época que muitos devem escolher qual curso fazer na universidade? De um dia para o outro você terá que decidir sobre a sua vida. Contudo, falta a atenção dos outros sobre você para compreender suas escolhas. Parece-me, sempre, que nenhuma dessas escolhas é sem pé nem cabeça. Como espectadores oniscientes do filme, nós compreendemos perfeitamente as atitudes de Mano e Pedro e até antecipamos algumas delas. Na vida, porém, não somos tão oniscientes, nem espectadores. Mano pode ser seu irmão, Pedro pode ser o meu irmão.

 

Nessas escolhas e nas brincadeiras sérias do colégio é que se definem caráteres. Aqueles meninos serão homens, aquelas meninas, mulheres. Alguns só decidirão realmente sobre a suas vidas tardiamente, outros nunca. Mano e Pedro moldam o seu caráter em instantes de decisões, de decepções e de arrependimentos.

 

O filme acompanha isso falando a língua desses adolescentes que serão seus espectadores: Pedro tem um blog, o pai assume um relacionamento homossexual, uma menina do colégio é blogueira de fofocas, as fofocas se espalham pelo celular de todos, há violões e baterias. Na minha época não era assim, não tínhamos blogs, homossexualismo era mais tabu que hoje, não tínhamos celular. Fora a linguagem deles, o drama, os conflitos eram os mesmos. As decisões de gente grande, também. E assim ele fala para todas as gerações, para todas as idades. Há quem sinta-se nostálgico, outro há de se sentir triste, algum achará divertido.

 

Ao final, Pedro revela que sentia-se “uma bomba prestes a explodir” e que acaba realmente explodindo. E qual adolescente nunca se sentiu assim? Boom!

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