Muamba na Mostra Premium de Joinville

Em julho vi um anúncio de uma tal Mostra Premium patrocinada pela Petrobrás (sempre ela) que exibiria filmes e curtas nacionais gratuitamente em Joinville, no Shopping Müeller. Consultando a programação vi que os horários dos dois longas catarinenses que seriam exibidos não era convidativo: 10h. Os longas escolhidos foram os mais recentes, Muamba, de Chico Faganello e A Antropóloga, de Zeca Pires. Os curtas nacionais seriam exibidos em horário mais interessante, 19h, sábado e domingo. Pensei em ir assistir aos longas catarinenses, apesar do horário ingrato. Porém, me confundi e achei que o da sexta-feira seria o A Antropóloga, que na verdade seria exibido na segunda-feira. Com muito custo consegui chegar ao Müeller às 10h e lá estavam salgadinhos (eu sempre me pergunto como as pessoas conseguem comer fritura de manhã!) e as figurinhas de praxe do audiovisual catarinense. Fui a primeira a entrar na sala vazia e o filme começou atrasado.

 

Não recordo agora o nome do responsável pela Mostra. Ele foi lá no microfone, anunciou o filme (chamando o diretor errado), vi meu engano de ter trocado o dia dos filmes e tentei me resignar a assistir Muamba. Eu realmente não tinha interesse em assistir este filme, tanto que ele foi exibido no FAM ali pertinho de casa e eu não fui.

 

Em relação à Mostra tenho dois comentários: o horário dos longas foi muito infeliz, e a quase inexistência de platéia confirmou isso; o outro comentário é sobre a época da Mostra, julho, durante o Festival de Dança. A cidade fica realmente muito voltada à dança e eventos paralelos não terão nenhum destaque, talvez alguma época ou lugar onde possa ser melhor aproveitado pelo público seja mais interessante. Sei das implicações para organizar um evento como esse, mas precisamos desses eventos que levem as obras ao público.

Em relação a isso tive um infeliz momento com um que se diz jornalista aqui da cidade, Osny Martins, que na verdade tem um programa de variedades na rádio. Ele comentou no twitter que um vereador propunha propaganda pública nas salas de cinema. Eu respondi dizendo que mais valia eles proporem obrigatoriedade de exibição gratuita de obras como curtas metragens produzidos aqui – até porque Joinville começa a correr atrás do tempo perdido nesta área. E questionei a colocação dele de que “povão” assiste TV e “povão” não vai às salas de cinema. Bem, primeiramente devo colocar que o tal “jornalista” confunde “sala de cinema” com “cinema”, mas, enfim, ele não deve conhecer muita coisa. Em segundo lugar, um elitista como ele citar “povão” é vigorosamente discriminatório. Eu afirmei, e afirmo, que “povão” no modo discriminatório, assiste tanto TV quanto cinema. Infelizmente o dito jornalista não tem educação nem parece sair da sua arrogância antes de enviar mensagens privadas de desacato e agressão ao profissionalismo de pessoas que ele sequer conhece! Pois bem, eu discuto e sei que há outros lados, pessoas assim baixas não conseguem esta proeza.

Contudo, com mais algumas palavras dele percebi que “povão” pra ele é só “número”. Ele fez alguma relação de que, em número, a quantidade de pessoas que vai às salas de cinema na cidade de Joinville é menor do que a que assiste TV num dia. Bem, não lido com números. Outra questão é o “consumo” do cinema que não se restringe de modo algum às salas de cinema. Porém, discutir com um arrogante ignorante sobre o assunto tratado é em vão e ele, como um coelho assustado, fugiu do assunto. Realmente, o público dele é quem corre atrás de sorteio de torta e notícias sobre ibope da A Fazenda. Sobre cinema ele precisa ficar bem calado.

 

Voltando à Mostra, a iniciativa é louvável. Pois, como vemos, cinema ainda é elitizado pela elite! Ainda acham que ir assistir um filme é mais nobre do que ver a novela das 21h. Ainda há quem pense que o mundo é o seu umbigo e diga que “cinema é caro, eu só assisto o que “baixo””. Ó, santa ignorância! Fiz meu juramento de libertar da ignorância e faço questão de renegá-lo ao me deparar com seres como esses.

 

Minha decepção maior foi acabar assistindo Muamba, do Chico Faganello. Ele, aliás, estava lá e fez um breve discurso antes do filme. Lembro de duas coisas que ele disse: sobre a dificuldade de produção na época de 2008 durante as grandes enxurradas que o Estado sofreu (lembro bem, gravei um curta nesta época) – recordando sempre o Paredes numa aula da primeira fase: cinema é a arte de resolver problemas – e que a qualidade técnica dos profissionais envolvidos que eram aqui do Estado era excelente. Sobre a primeira, penso que nada justifica pois o que o Paredes disse é correto. Sobre a segunda, fiquei matutando que é verdade. Temos muito bons técnicos aqui no Estado. Porém, técnica nenhuma superará, na obra, a criatividade. E é aí que situa-se a minha implicação.

 

Sobre o filme? Cheguei a pensar em não escrever nada sobre o filme porque confesso que há pouco (ou nada mesmo) a ser dito. Sabe quando você assiste um filme tão ruim, mas tão dolorosamente ruim, que não consegue parar de falar dele? Pois é, Muamba não é ruim, porque nem isso dá pra dizer dele.

 

Durante a exibição, automaticamente pensei que o diretor tem alguma fixação por pernas femininas. Sim, elas, de algum modo, são protagonistas até o ponto de você preferir ver o antagonista, que, neste caso, acho que era uma coleção de aberrações. Roteiro difícil, truncado, sem ritmo – como normalmente acontece. Atuações instáveis. A tal qualidade técnica é exacerbada em imagens macro de insetos e afins, porém sem encontrar seu lugar nem na narrativa nem no próprio fluxo de imagens. Entre as aberrações estavam um anão, um muambeiro fajuto, um interior perdido no tempo e cenários ridículos. Aliás, acredito que só pode ter sido proposital a ausência de contexto temporal e a escolha dos cenários e objetos de cena. Algo que me lembrou e muito o próprio “estilo” do Chico Faganello quando professor, pois hoje ele aparenta ter um jeito meio “descolado”.

 

O excesso de objetos de cena incoerentes e a atenção que se dá a eles é cansativa. Os figurinos transitam no espasmo da ausência de contexto temporal e distancia definitivamente os personagens. Tudo ali parece ter sido escolhido para fugir de algo – dos clichês, talvez? – e obteve sucesso: fugiu tanto que se perdeu.

 

Num roteiro de clichê, não será a direção de arte que mudará o rumo. Nem a qualidade técnica dos equipamentos e dos profissionais. O pior é não poder nem dizer que o filme é no sense porque ele tem um roteiro presente (apesar de frouxo) que impede isso. Também não é “cinema do absurdo” (como um amigo classifica) porque não há absurdo, há só o ridículo.

 

Como eu disse, infelizmente nem a excelência técnica supera a criatividade. A sensação ao final é de aquilo andou, andou, querendo chegar além e foi muito longe que caiu em algum vácuo.

 

Quando o filme acabou eu e mais uns quatro adolescentes saímos da sala antes dos créditos finais, mas nos deparamos com a porta de trás fechada ao que que um deles diz: como se não bastasse tudo, ainda isso! Eu sorri.

Como se não bastasse aquele filme ainda queriam nos manter presos ali? Mas a tortura era completa! Logo, ouço aplausos. Porque elite que é elite fica até o final dos créditos e ainda aplaude!

 

E porque o cúmulo do cinema no Brasil é aplaudir o enorme esforço que é conseguir exibir um filme numa sala de cinema, independente de qualidade e de qualquer coisa! Sei lá, tem gente que aplaude o sol, né?

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