A culpa é de todos

Eu fico admirada, mas talvez não devesse, como alguém que você nem conhece (e, na mesma direção, não te conhece) pode te fazer tanto mal.

Já escrevi bastante aqui sobre a maldade, a inveja e irmãos próximos. Não é de admirar, também, que ultimamente a maioria esmagadora das pesquisas que levam ao blog tratem desses assuntos. Fiquei me perguntando se, então, muitas pessoas também convivem com a maldade. E eu digo que essa maldade é de uma força absurda e faz ainda mais mal quando a pessoa ainda não é “carimbada”.

Semana passada, uma semana altamente atípica até para a minha vida que vive de dias e semanas atípicos, eu vi (novamente) a maldade das pessoas em ação. Não foi diretamente a mim, nem é uma pessoa que eu conheço, mas que causou estragos (leves) é claro que sim.

Eu me pergunto se você já viu uma mãe maltratar um filho. Já? Se você já viu uma mãe agir com uma maldade rancorosa e infinita em relação a um filho. Já?

Eu já vi “mãe” brigar feio com um filho de sete anos a ponto de aos berros e no meio de um choro convulsivo gritar “eu te odeio!” várias vezes. (o filho sumiu e foi encontrado com uma mala lá numa esquina longe) E eu me pergunto: que “mãe” é essa?

Ninguém pára para pensar no estrago psicológico feito nessas crianças? O que será dessa criança, quando for homem?

O que me indigna é o fato de todas essas agressões físicas, verbais e psicológicas serem testemunhadas – principalmente por parentes próximos: pai, irmãos, avós, tios, etc.. E? E ninguém faz absolutamente nada.

Nada. Simples assim: nada.

Há uma preocupação social em torno de crianças e adolescentes, idosos, mulheres e agora homossexuais. Os três primeiros estão amparados por estatutos e leis. Contudo, tanto da parte da população quanto da parte do Estado eu não vejo, na prática, ações efetivas. Sou contra, por exemplo, a Lei Maria da Penha. Pelo simples fato de que agressão (seja à mulher ou a quem for) deve ser condenada e coibida independente do gênero e porque o mau caratismo está tão bem difundido entre os homens quanto entre as mulheres e hoje muitas dessas que não “prestam” usam a tal Lei como forma de cometer atrocidades e ameaçam: se você me encostar eu vou na delegacia e serei protegida pela Maria da Penha. Sim, elas fazem isso. Há até casos de homens acusados injustamente porque a mulher se jogou de uma escada qualquer para ter as “marcas” de uma inexistente agressão.

Não é o sexo, nem a idade, nem nada, que vai autenticar caráter a uma pessoa. E se somos todos iguais, um murro num homem, numa mulher, num idoso, numa criança, num homossexual não é um murro? Ou estaríamos sendo machistas ao pensar que uma mulher (uma mãe, por exemplo) espancar um filho homem (já de maior) é menos grave do que uma mulher que apanha do marido? O filho, por ser homem e de maior, merece menos proteção ou por ser homem e de maior não tem problema apanhar? Enquanto que a mulher que vive porque quer com tal marido e sempre apanha, aí sim merece proteção, lei especial, delegacia especial? Não é machismo achar que homem pode apanhar porque é homem?

E eu me pergunto, o pai (tio, avô, irmão) que deixa e testemunha a “mãe” bater, coibir psicologicamente, usar, um filho de menor (questões de dependência financeira e psicológica como imaturidade precisam ser levadas em consideração) também não é criminoso? Que moral tem uma pessoa dessas?

E experimente, como pessoa de bem e cidadã, utilizar um desses serviços que tanto fazem propaganda na TV, rádio, revistas como o Disque Denúncia, o Serviço de Proteção à Criança e ao Adolescente. Experimente não ser apenas testemunha conivente e co-autor de um crime e denunciar. Vejam bem, eu disse que o desleixo era tanto da parte da população quanto do Estado. Apesar de tanta propaganda, quando você precisa de um serviço desses a frustração cresce.

Você liga para mil números, cada um te diz uma coisa, ninguém sabe de nada, muitas vezes te dizem: nada pode ser feito. Ou uma velhinha te atende (parece que ela está em casa, assistindo TV, pelos sons no telefone), pede um minuto para ir pegar um papel e uma caneta, faz mil perguntas como numa conversa de comadres, diz “que pena! a mãe faz isso com ele?!” e diz que vai encaminhar para alguém que possa “averiguar” a situação. Passam dias e dias e ninguém aparece na casa da criminosa.

E é assim que você se sente, num misto de revolta e frustração. Porque a maioria é co-autor desse tipo de crime, mas eu não. Contudo, o que posso fazer não gera muitos resultados efetivos, porém eu nunca deixarei de fazer o que estiver ao meu alcance.

Em Fpolis, perto da UFSC eu encontrei algumas vezes um velhinho vendendo aves silvestres, ele ficava meio escondido na entrada da Caixa Econômica ali da Trindade. Por várias vezes eu liguei para a Polícia Ambiental e denunciei. Eu ligava, ele sumia. Alguns dias depois ele voltava, eu ligava novamente. Um dia o soldado que me atendeu disse: nós sabemos quem ele é, nós iremos lá, pode deixar, mas já te adianto que não vai dar em nada porque a gente leva ele preso e o delegado solta porque ele diz que não tem dinheiro, que não tem onde morar, que é pela subsistência dele, daí as aves a gente salva, mas ele volta”. Já denunciei dezenas de vezes extração ilegal de palmito e caça nos matagais da Ilha.

Porque doce engano do brasileiro achar que só criminoso do colarinho branco não vai preso, não paga (de alguma forma, mesmo que não seja a mais perfeita) pelos seus crimes. No Brasil a impunidade é geral. E não, não acho que “ladrão de galinha” ou quem roupa uma manteiga deva ser visto com bons olhos. Criminoso é criminoso e nada justifica. “Roubou pra comer” não serve como defesa pra nada. Está cheio de gente por aí que “trabalha pra comer” e mesmo quando passa fome, vê os filhos passando necessidade, não rouba.

E há uma discrepância no discurso das pessoas – que não é hipocrisia, não encontro uma palavra para definir – que são os co-autores desses crimes. Sempre tem aquela máxima de que o pai e a mãe, ou o marido, tem a responsabilidade, ou “sabe o que é melhor pra ele” e tal. Como se os pais que a gente vê por aí fossem responsáveis! Engraçado, porque pra uma mãe acabar com uma criança de dez anos ela pode porque é a “responsável” por ele e aí ninguém quer se meter, mas pra esse povo todo exigir escola, hospital, roupa e sei lá mais o que do Estado para os seus filhos, aí beleza! Afinal, quem é responsável por essas crianças?!

Há ausências e falhas de todos os lados. Mas omitir-se voluntariamente e covardemente é imperdoável. É crime.

Algum tempo atrás houve uma campanha em Fpolis para denunciar crianças exploradas pelos pais ou que andassem pedindo comida pela rua. Havia um telefone para fazer essas denúncias. E funcionava! Eu usei esse telefone várias vezes. Uma vez vi crianças pedindo comida e leite debaixo de chuva forte, à noite. Ao telefonar caiu no telefone da esposa do prefeito que era a idealizadora do serviço (em finais de semana e afins, o telefone era redirecionado diretamente para o dela e ela acionava a emergência). Por várias vezes ali na Massa Viva em frente à Pernambucanas, no centro, crianças pedindo comida para quem estava na fila. Uma vez uma criança ficava na fila da lanchonete do CCE pedindo comida. Não dei, nunca dou nada. A moça atrás de mim deu, quando eu saí a criança passou correndo e foi atrás da lanchonete, lá estava a mãe sentada, ela arrancou o lanche da mão da criança e comeu tudo sozinha enquanto dizia: volta pra lá! E aqueles olhos, úmidos, brilhantes, o rosto convulsionado depois da alegria repentina de ter ganhado um salgado. A minha revolta e indignação gritaram, eu telefonei para o número da denúncia, procurei na internet outro número e o serviço não existia mais. Simples assim, não existia mais.

É uma frustração, uma indignação e uma revolta que em mim não encontra limites. Agora, covarde, calada e sem ação, nunca.

E você? Faz o quê? Ou vai dizer que nunca viu nada disso, desconhece casos semelhantes?

Porque não há nada mais vil e repulsivo do que dizer: mas não adianta! Seu bosta, você que diz isso.

A culpa é de todos. Mas fazem de conta que não é de ninguém.

Talvez seja pela minha educação (falarei disso em outro post), pelo meu espírito. Ou talvez seja só vergonha na cara mesmo.

E, cuidado, a maldade está em todas as almas.

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