O prazer de pensar

                Ainda não há diploma que diga: esse pensa. Sim, é assim simples, pensar não é aferido por um pedaço de papel. Vá lá e olhe no seu.

                Pensar, também, não é uma coisa fácil. Requer, acima de tudo, coragem. Como dizem, tem que ter muito peito.

                Eu me admiro ao perceber que existem pessoas que falam sobre a dicotomia “direita” x “esquerda”. Ainda há quem acredite nisso? Fiquei feliz, esses dias ao descobrir que nem todos pensam assim! Conversa vai, conversa vem, encontrei pessoas com a mesma percepção: direita e esquerda não mais existem e só quem fala nisso é saudosista (ou anacronista no linguajar estonteante dos historiadores).

                Tão fácil perceber que as coisas do hoje não podem (nem devem) ser vistas com olhares do passado. Eu li, estudei e gostei de Marx (o meu “gostar” se refere a que ele tinha um pensamento coerente, bem estruturado e no meio disso dizia coisas hilárias – como é difícil rir lendo textos econômico-filosóficos, ele me conquistou) e nem por isso acho que ele é Deus (aliás, ele mesmo ficaria bem irritado com isso, imagino eu) ou ando por aí pregando a palavra dele. Vejam bem, Marx tece comentários que hoje seriam ardentemente condenados, sobre as mulheres, por exemplo, mas disso ninguém comenta.

                Pensamentos são atemporais? Sim, são. Os pensamentos sim, mas a sua prática e a sua análise estarão sempre presas ao seu contexto. Há um perigo enorme em retomar pensadores e textos, idéias em si, e tentar visualizá-los em outro período. Estou falando do tempo. Como eu posso observar algo que foi criado a uns cinco séculos atrás e que existe até hoje sob a mesma idéia da sua concepção?

                Todas essas reflexões me surgiram de discussões e conversas sobre fatos dos últimos dias. Um exemplo, a ocupação da reitoria da USP. Vi muitas defesas sobre a origem da universidade. Bem, qualquer pessoa pode perceber que da origem da universidade até hoje ela sofreu mudanças drásticas nos seus ideais e propostas. Mas isso me leva a perceber que há também aí saudosistas, eles ainda vêem a universidade como o templo do saber, o supra sumo do pensamento. E eu não quero tirar ninguém das nuvens da ilusão, mas ela não é mais isso. Faz tempo que universidade não é mais isso, muito menos no Brasil. Profissionalizou-se demais a universidade? Sim. E, creiam-me, eu também me desiludi com isso pelos corredores da universidade. Numa época não muito distante eu ainda me agarrava à idéia de que ali era o templo do saber e fui olhando para os lados e vendo que nada daquilo era real.

                A universidade não é mais o templo do pensar, por isso no seu diploma não diz: esse pensa. Pensar está muito além (ou aquém) da universidade. Conheço e conheci várias pessoas inteligentíssimas e com uma capacidade de crítica, análise e pensamento que nunca tinham passado em frente a uma universidade. Aliás, eu escrevi “aquém” entre parênteses ali em cima porque muitas dessas pessoas sequer chegaram a estudar num ensino médio.

                A pretensão dos doutores e meros graduados de hoje com todos os seus anacronismos e saudosismos é decepcionante. Eles fazem discursos pelo pobre e ignorante, estão nos seus pedestais e gritam que são esclarecidos e a nata da intelectualidade. Bem, como eu já disse, não gosto de nata. Decepcionante porque era deles que esperávamos os melhores discursos e, claro, ações. Citei ações porque esses são os que não se importam com qualquer coisa, apenas com seu ar condicionado, e deles não vemos nenhuma atitude.

                Ter medo de pensar é refugiar-se atrás de falácias e argumentos do tipo “você lê tal revista” “você assiste tal canal”. Eu não medo de pensar. Eu não tenho medo de nada, minha mãe sempre encheu a boca para dizer de todos os seus filhos “eles não têm medo de nada”. E não temos mesmo. Não ter medo de pensar traduz-se em poder e querer ler qualquer revista, qualquer jornal, assistir qualquer canal, qualquer emissora, ouvir qualquer repórter, entrevistador, pessoa. Quando a pessoa foge demais de uma coisa parece que ela tem medo de realmente acreditar naquilo. Eu leio a Veja, leio a Claudia, leio a Piauí, leio vários blogs, leio a Carta Capital, leio a Caras (na verdade vejo figurinhas), leio a revista de História da Biblioteca Nacional. Assisto TV regularmente, normalmente pouco, mas de vez em quando assisto. Assisto TV a cabo, TV aberta. Leio até romance de banca de revista, sabiam? Converso com quem pensa como eu, com quem é radicalmente contra tudo que eu falo. Pra que medo? Que medo insano é esse? Afinal, eles (vocês?) têm medo do que com tudo isso?

                Sobre o caso USP. Sim, os alunos estavam reivindicando melhorias e protestando contra um reitor que chamaram de ditador. No meio disso surgiu a turma da baderna, cometeu crimes (reafirmo, e não sou eu que digo, é a lei, depredar patrimônio público é crime), usou de violência, fez arruaça e, como sempre, sujou a imagem das boas intenções da maioria dos estudantes. A USP ainda é a nata da universidade brasileira (repito, não gosto de nata) e como em toda universidade, principalmente federal, tem os filhinhos de papai que não estão nem aí para nada. Eu estudei no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, disparado sempre o mal visto da universidade. Pessoas que hoje defendem lá os estudantes da USP são alguns dos que sempre fizeram piadas e menosprezaram o centro onde eu estudei. Se tem muito maconheiro? Claro que tem. Se tem gente que não faz nada? Claro que sim. Se tem o bando da arruaça? Também. Como em todos os centros. Sim, lá na medicina, no jornalismo, na letras, nas engenharias, nas sociais, no direito, em todos tem. E é essa turma que faz feio quando outros querem correr atrás do certo. E, por experiência própria, eu corri atrás do certo na universidade e nunca tive que acampar na reitoria, nem depredar patrimônio público, nem fumar maconha. Mas aí não é visto, né? Não tiram foto e nem sai na revista.

                De modo geral eu entendo os meios de comunicação que estão nem aí para os problemas da USP. Ninguém quer, nem a mídia nem o governo, que os problemas das universidades federais venham à tona. A universidade federal, para estes saudosistas, deve ser visto como um templo. Toda vez que se discute educação, nunca se discute o ensino superior porque é para a sociedade pensar que ali tudo é uma beleza. Não é. Tanto se fala em vagas e cotas para a universidade para manter a fachada de que aquilo ali é um sonho, é perfeito, é o futuro. Não é. Por isso governo e mídia querem manter essa ilusão nas pessoas. E, claro, para o brasileiro trabalhador aqueles maconheiros vagabundos que estão quebrando bens públicos e deveriam estar estudando estão errados. A mídia corrobora a opinião que já vem incutida na mentalidade do brasileiro trabalhador, e este não gosta de arruaceiros. (reparem que eu citei o governo, porque nesse vai e vém ninguém falou do governo, vai ver é porque estacionamento de universidade federal está lotado de carros e ano passado a ostentação de adesivos do partido que ganhou a eleição foi gritante)

                Pensar dá trabalho, cansa e é mal visto. Mas faz bem. E como eu disse ontem numa discussão: pensar é tão, mas tão gostoso que podemos ser egoístas. Se tem quem não quer este prazer, pior para eles.

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