Miséria intelectual

 

Eu ouvia de um professor de História do Ensino Médio que era preciso conhecer a História para não repetí-la. Talvez a maior verdade que eu tenha ouvido em todos os meus dezesseis anos de estudo formal.

 

A intelectualidade brasileira hoje está pobre. Não sei se vocês também sentem isso. Mas é tão latente que dói.

 

A pobreza consiste em não conseguir criar, se reinventar. Há apenas uma intelectualidade (que eu chamaria carinhosamente de pseudo-intelectualidade) que se restringe a levantar bandeiras e proclamar hinos do passado. Aquilo que era para ser renovador, instigante, inebriante se contenta em, acuado, proferir impropérios contra quem não pensa como eles (os tais “reaças” ou direitistas, segundo terminologia tão amada por eles). A intelectualidade chegou à miséria de cegamente não aceitar que há quem não pense como ela. Não aberta à críticas, à renovação, à dúvida, a nossa pobre intelectualidade se abraça fortemente ao inusitado nas artes e às páginas rançosas de uma duvidosa “esquerda” (não os questione sobre o significado disso), com teorias estagnadas e ultrapassadas (algumas já deram seu atestado de inconsistente logo após serem escritas).

 

O nobre nessa pobreza é citar o desconhecido, o pop, o que está mais na moda para, logo em seguida, largá-lo sem dó nem piedade pelo próximo revolucionário europeu com uma teoriazinha chinfrim sobre a tragédia que é a economia ocidental, ou sobre os dilemas da vida pós-pós-moderna, ou sobre algum novo “rizoma” reciclando conceitos de outras ciências.

 

Nesse cenário repulsivo, a pobreza intelectual encontrou um sentimento de culpa (talvez Freud explique) para esconder debaixo da cama sua ausência total de criatividade: abraçou a pobreza (aquela real, de falta de recursos, de falta de ter o que comer, de falta de esgoto, de falta de moradia, de violência, de marginalidade, de exclusão social, de falta de educação – a pobreza não voluntária que piora com o descaso da sociedade e dos governantes). Difícil entender o motivo dessa guinada na qual o intelectual – sempre uma figura afetada, nobre e inalcançável da nossa sociedade – parece querer reparar anos e anos (centenas deles) de indiferença pelo trabalhador pobre comum brasileiro. Tantos e tantos diplomados, doutorados, ricos, nascidos em berços de ouro que desconhecem o que é “não ter” (na prática, não me venham com aquele papo “mas eu conheço porque vi”, viram ali quando passaram pela frente e olhe lá). Dentro de suas salas com ar condicionado eles riem satisfeitos por terem elegido um partido de esquerda (?), por defenderem as questões ambientais, por terem uma mulher presidente, por saberem que existe o bolsa família. E, talvez, conheçam apenas isso mesmo. Nunca doaram um pacote de arroz, nem uma roupa que não usam mais. Talvez, quem sabe, o mais perto disso que eles tenham chegado foi quando a mãe pegou uma roupa velha deles e deu para a empregada levar para o filho.

 

Eles disfarçam a total falta de competência e criatividade balançando profusamente bandeiras na nossa frente. São tantas bandeiras… logo virão outras. Foi-se o tempo dos bons intelectuais. Tanto os intelectuais que conheciam e tratavam a realidade (inclusive a da pobreza real das nossas ruas) quanto os que viviam nas suas masmorras alheios a tudo com apenas suas idéias na cabeça. Ficamos órfãos dos bons pensamentos e dos bons pensadores. Hoje nos dão muitos mais letrados, “doutores” (nunca antes na nossa História houve tantas pessoas diplomadas), e tão raro ou inexistente pensadores.

 

Tudo isso me fez lembrar do filme O Gatopardo. Burt Lancaster, gostoso e maravilhoso como sempre, no meio da revolução italiana, sereno diante dos revoltosos que destituíam a nobreza (à qual ele pertencia), diz que os pobres que ali se insurgiam queriam exatamente o que a nobreza era: queriam ser ricos. Não havia uma procura pela igualdade, pela superação das diferenças. A pobreza queria destituir a nobreza para apoderar-se do que eles tinham. Não há um desejo nobre nisso. É o que se vê aqui mesmo com o que os economistas e intelectuais chamam de ascenção da classe C ou coisa parecida. Criticam os que sempre tiveram (como a maioria dos nossos intelectuais), mas é justamente isso que eles querem: ter. Onde há justiça social nisso? Pois para eles terem, alguém há de não ter. O que me lembra Primo Levi: para eu estar vivo hoje, alguém teve que morrer. Para a classe C hoje ascender à B ou à A, alguém tem que estar na C. Será que eles pensam nisso? Ou realmente temos ainda resquícios dos filósofos utópicos que defenderão que há uma real possibilidade de todos terem oportunidades e chances iguais? Teremos um mundo com sete bilhões de pessoas ricas, é isso? Posso parecer pessimista, mas duvido que veremos isso. Talvez porque além de achar o estudo da filosofia importantíssimo, valorizo ainda mais conhecer a História. Duvido porque aprendi que não tem como ser assim.

 

Ou o mundo terá sete bilhões de ricos e milhares de intelectuais pobres. Enfim, o dinheiro, o capital, vítima da crítica voraz da maioria desses intelectuais terá ele sim ascendido à nobre posição do valor comum? Já não importam outros valores, apenas o dinheiro.

 

Quem sabe o intelectual sempre se veja no seu pedestal já desde cedo e tenha declinado de assistir algumas aulas, como as de História. Lembro de um excelente professor no curso de Filosofia que sempre fazia questão de começar a aula contextualizando a época, os conflitos, os regimes, do pensador que ele iria apresentar. Muitos alunos ali (sim, esses que hoje são “intelectuais”) torciam o nariz. Uma chegou mesmo a fazer um comentário desprezando a metodologia do, este sim intelectual, professor. A resposta? Uma piada irônica qualquer. Ele não perderia tempo com estes intelectuais sobre seus pedestais com ar condicionado e amarras de ouro.

 

Quem sabe o intelectual tenha desaprendido a essência do conhecimento: questionar.

 

 

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