O médico-escritor sincero

 

Ontem à noite eu lia um livro no sofá da sala, escrito por um médico. Antes dos contos propriamente ditos havia uma ou duas apresentações sobre o escritor estreante.

Foi quando me deparei com elogios rasgados à sinceridade dele, do autor.

 

Não conheço pessoalmente o médico-escritor para fazer comentários acerca da sinceridade dele, mas duvidei um tanto disso.

 

Realmente não imagino alguém receber elogios por ser sincero.

 

Sou adepta da sinceridade sem limites. Não sou a pessoa afável que encontra inúmeros eufemismos para as palavras duras ou que ao ser simpática com todos engole os pensamentos mais genuínos. Não sou assim dentro de casa, nem fora, nem com o companheiro, nem com os amigos, nem com estranhos.

 

Raramente ouvi sinceros (vejam só!) elogios à sinceridade que pratico. Raramente. E alguns deles não eram exatamente elogios, mas apenas constatações (com um tanto de reprovação) “você é muito sincera”.

 

Eis que me peguei pensando sobre isso durante a madrugada, efeito do tal médico sincero que recebia elogios de um amigo por isso! Sim, porque pensei, meus amigos não elogiam isso!

 

Tenho pensado nisso nas últimas semanas e o tal médico me fez matutar ainda mais.

 

Ninguém pode esperar de mim uma falsidade ou consentimento que burlem minha sinceridade. Então como meus amigos, os que já me conhecem a tempos, podem ficar insatisfeitos comigo justamente por isso?!

 

Eu, como boa pisciana, choro junto, como dou gargalhada junto e fico revoltada junto. Me junto aos sentimentos de quem está perto de mim. Não vejo um amigo bem e fico com inveja, na mesma hora fico bem junto, me alegro por ele e com ele.

 

Mas não me peçam para ser cúmplice das merdas que fazem. Nem me peçam para passar a mão na cabeça quando fizerem alguma coisa idiota (ainda mais quando eu insistentemente tentei ajudar evitando que a coisa fosse feita). Aí serei sincera e não acho isso ruim, nem doloroso.

 

Mas meus amigos (alguns deles), ultimamente, tem achado ruim a sinceridade. Acham que devo só ouvir e ficar calada, aceitar seus erros e ser cúmplice deles. Não farei isso. E isso não é demonstração de amizade. Nem nunca foi. Amigo não é só aquele que passa a mão na cabeça, esse está só esperando para te dar o bote na primeira oportunidade.

 

Porque é fácil encontrar um colega, um conhecido, um colega de trabalho – esses relacionamentos fortuitos e passageiros – que te apóie (supostamente) em tudo, que te incentive a fazer merda. Ele não se importa em te ver na pior. Nem vai te ajudar de verdade quando tudo der errado, esse será o primeiro a abandonar o barco.

 

Sinceridade não é fácil de praticar. E, eu sei, não é fácil ouvir. Não rende elogios nem abraços efusivos. Porém, tenha a certeza, só vem daquele que realmente quer o teu bem.

 

Enfim, talvez as pessoas não se preocupem com isso. Fiquei me perguntando se o tal médico-escritor era realmente sincero ou se era apenas um elogio falso. Acredito que ele pode ser, sim, uma pessoa sincera. Feliz dele que tem amigos que reconhecem o valor da sinceridade, acima do simpático tapinha nas costas.

 

 

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