Liberdade de Expressão – liberdade se vive

Eu já devo ter citado por aqui em algum momento uma frase que segue comigo já faz bastante tempo, desde o dia quando encontrei-a nas páginas de um livro que vagava solitário lá em casa.

“Posso não concordar com uma palavra sequer do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las.” Sim, é Voltaire.

Quando li essa frase naquelas páginas, vivia uma adolescência conturbada, violenta, sofrida, agressiva, idealista, sonhadora, indagadora e muito contestadora. As pessoas já naquela época não me suportavam, não gostavam dos meus questionamentos, das minhas opiniões e muito menos da minhas observações acerca das coisas (e das pessoas) que eu via/ouvia. Naquele tempo, eu já me debatia entre as palavras no papel. Lembro de, no dia da Liberdade de Expressão de algum ano perdido no tempo (agora nem sei dizer em qual dia e mês ele é comemorado, mas procurem e verão que ele realmente existe), ter escrito algo entre a poesia e o desabafo. Sei que essa criação ainda existe, mas encontra-se distante de mim no momento. Hoje ainda algumas dessas pessoas têm dificuldade com o que muitos já chamaram de “personalidade forte” e que eu em alguns momentos preferi definir como voluntariosa. Daí já surge uma baita dificuldade de convivência comigo. Não tem que “compreender”, “aprender” ou “respeitar”. Tem que viver a liberdade.

Liberdade é assim. Você diz, pensa, faz o que bem entende. Eu também. Liberdade a gente vive. Escrevendo “o que bem entende” agora lembrei do Mill. O teu limite acaba onde começa o meu. Claro que tem tudo a ver com a liberdade. E no nosso mundo essas duas coisas vão parar lá nos códigos e leis.

Se bem me lembro já escrevi aqui sobre censura. Lembro porque houve uma história bem recente acerca de censuras nas redes sociais e, imaginem, aqui no blog. Eu já me auto-censurei por aqui devido a motivos poucos nobres. Não era para proteger ninguém, era para me proteger.

Indignação define.

Eu não digo a nenhum de vocês o que devem ou não publicar nas suas redes sociais, nos seus blogs, o que devem falar, o quanto ou como (e até em qual tom). Ah, mas vejam como a linha é tênue. Vocês vêm me dizer o que eu posso, o quanto, escrever, falar. Vocês têm, segundo a frase do Voltaire, todo o direito de dizer. Mas eu vou permanecer no meu direito de ignorar as censuras de vocês. Vocês não concordam com uma palavra do que eu digo, nunca esperei nem espero isso. Aliás, até prefiro que não concordem. O dia que alguém concordar com tudo o que eu penso/falo/escrevo vou me sentir muito mal. (lembrei do Nelson Rodrigues, é claro) Mas daí vocês virem me censurar, devo lembrar o Mill. O seu limite acaba em não concordar comigo, o meu começa em ter a liberdade de poder falar/escrever/pensar o que eu bem entender. Viram como é fácil juntar os dois?

Até porque não vejo vocês seguirem toda a frase do Voltaire, ficam só ali na zona de conforto de não concordar, mas jamais lutam pelo meu direito de dizer o que não lhes agrada.

Não vejo em mim maior dificuldade de convivência do que nesse tipo de pessoa. Se é difícil aguentar alguém que diz/escreve/pensa o que bem entende, daqui parece-me impossível, impraticável, conviver com quem censura os outros. Não serão, jamais, aceitas censuras. Em nenhum nível de relacionamento. De nenhum tipo. On ou off.

A rede social é minha, faço o que bem entendo nela. O blog é meu. A vida é minha. O corpo é meu. Antes disso tudo encostar no seu, será sempre meu.

Conviver, dizem, é essa via de duas mãos. Por isso tem tanto casal infeliz, tanta gente mal humorada, tantos corações rancorosos, tanto mais rugas do que sorrisos.

Hoje ainda me perguntei porque as pessoas, ao responderem “quem você é” (perguntinha básica de perfis sociais), elencam profissão, diplomas, méritos, posições, cargos, títulos. Você é os valores que você vive. Mas a maioria só consegue se definir por pedaços de papel com carimbos e assinaturas. Ou pelo contra-cheque.

Não entendo ainda o que querem dizer com “personalidade forte” ou “geniosa”. Só sei que as pessoas assumem um tom pejorativo quando falam nisso. A boiada está aí para quem quiser seguir. Desconfio de muitas coisas e mais ainda de muitas pessoas.

Tenho até a forte desconfiança de que quem mais censura (esses que não conseguem ver alguém dizer/escrever/pensar algo que não é corrente com o que eles dizem/escrevem/pensam) é justamente quem mais se auto-censura, quem mais se projeta sendo alguém que, definitivamente, não é. E faz isso por causa dos outros. São, normalmente, os que se preocupam demais com a opinião dos outros a seu respeito, que projetam imagens de um “si” que gostariam de ser – e, invariavelmente, não seriam se seguissem suas aflições, seus entusiasmos, seus prazeres, medos e ideais. Porque a liberdade está ainda mais presente nas ações. Quem não assume sua liberdade para “ser” jamais conseguirá entender quem o faz.

Em honra ao patrono do blog, eu que não sou das mais fãs de citações, deixarei mais uma das minhas (pouquíssimas) favoritas. Obviamente ela já deve ter aparecido pelo blog em outros momentos.

“Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” (Fernando Pessoa)

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