Borboletas, o covarde do tempo e a solidão de quem acredita

 

E é abril. E é outono. Eu sei, o mundo real bate na porta. A vida deve voltar ao seu curso.

 

Abril é a ressaca de março (e de janeiro e fevereiro, que são três dos melhores meses do ano) e o outono é a ressaca do Verão, ah! o verão! Meu bronzeado já deu adeus. Já voltei à cidade, passou o Carnaval, as festas…

 

Abril chega assim chutando a porta e exigindo respostas em forma de decisões e escolhas. Hein? Escolhas? Me mande comer bucho, mas não me mande fazer escolhas. Não, calma, não é para tanto. Sei lá, me mande gostar de futebol, mas não me mande fazer escolhas. 365 dias no ano e as coisas resolvem cair no mesmo dia. Caramba, Destino, já entendi. Não força a barra.

 

Então o humor se altera. A paciência diz que não vai dar as caras, como sempre. A rebeldia sacode o corpo. Para piorar tudo, instaura-se uma crise profunda de solidão. Aquela que não tolera o outro, que não quer ver gente, não quer falar com gente, que quer ficar só consigo, com os pensamentos, com a ficção, com as idéias e ideais. Talvez a mais grave desde aquela crise feia de muitos anos atrás. Pior que aquela impossível. Ou não.

 

E aí a solidão quer canto, casa. E a vida batendo na porta e na caixa de entrada do e-mail mandando ir pra lá e pra cá. Obrigações… e a rebeldia dando saltos mortais aqui dentro – e sobrevive a eles.

 

Eis que era para limpar a casa, arrumar e continuar a sessão desapego. Computador ainda para faz refaz desfaz backup, formata, instala, desinstala. Louça na pia, supermercado para ir. Filmes para assistir, coisas para escrever, contas para pagar. Ufa! Uma lista interminavelmente horrenda em vulgaridade.

 

Pra quê? Eu estava mal, ninguém sabia. Ninguém perceberia.

 

Me sacanearam e ainda me deram “bom dia”. Quem se importaria?

 

Crise de solidão. Sol. Dia lindo.

 

Joguei fora os planos para o dia (era uma ida solitária à Costa da Lagoa – aí penso, mas ali é para o leste, sem sol no final de tarde, não vale) e o cronograma oficial. Não faço planos, não sei seguir cronogramas.

 

 

Fui. Daria um jeito. Chegaria lá.

 

 

O caminho parecia querer provar alguma teoria escabrosa. Só provei que sou, além de tudo, muito persistente.

 

Ali diante do mar, ondas calmas, sol lindo… sorrio. Tenho esbanjado sorrisos, como nunca (lá se vai um ano assim). Nem quando estive apaixonada das maiores paixões (que nem foram poucas até hoje) – não estou apaixonada por ninguém, vale ressaltar. Esbanjo sorrisos ao ver algo incrível, ao pensar em algo ou alguém, quando ouço uma música no mp3. Se me vir sorrindo por aí, lembre que tenho todos os motivos do mundo.

 

Mas a vida não havia mudado só porque diante de mim estava o divino mar e um pôr-do-sol digníssimo. Não. Eu só me encontrava mais em mim, assim envolta cegamente em pensamentos.

 

Eis que caminho ao longo da praia, pé na água… pra lá, pra cá… observo uma coisa ou outra e na verdade não estou observando nada. Até que me dou conta do que era aquilo que eu observava. Borboletas. Borboletas no mar.

 

(quando já ia embora da praia pensei que ver aquelas borboletas tão inusitadas me lembrou Cem Anos de Solidão, há alguma cena de borboletas saindo do banheiro ou algo assim – e de como foi difícil o começo da leitura dele, como sofri com a tal literatura fantástica que só vim nomeá-la depois, e quando simplesmente acreditei nela é que tudo fez sentido)

 

Talvez haja uma explicação científica. Talvez algum fato comprove a presença delas ali. Só posso dizer-lhes que em tantos anos de praia e de vida (dá no mesmo) eu nunca tinha visto aquilo, nem ouvido falar. Eram dezenas de borboletas mortas boiandos nas ondas. Dezenas. Ou mais. Eu olhava sem vê-las até me dar conta do fantástico daquilo. Olhei em volta buscando uma explicação que eu nem queria. Praia que traz coisas de alto mar por conta das correntes, mas borboletas não vêm do alto mar. Borboletas não se suicidam. Borboletas e mar, nada a ver.

 

 

Foi isso que fez, então, todo sentido. Eu acreditava, borboletas boiando no mar aos meus pés. Fiquei mais de hora ali com elas. Até resolvi fotografar algumas para que não me chamassem de louca. Agora até provas tenho.

 

Acreditar é o que faz sentido na minha vida. Só isso. Eu já sabia. Mas em meio à crise eu precisava ser lembrada disso. Nada mais lindo, fantástico, louco e inusitado para me lembrar disso do que aquelas borboletas surgindo aos borbotões a cada onda. Eu já não vivia aquela vida vulgar de obrigações e mês de abril de mais um outono.

 

Outono, o sol se pôs mais cedo (horário de verão, I miss you so much!) e atrás do morro mais alto. Abril, você também vai passar, deixando saudade ou não. Duvido que superes março, mas podes tentar.

 

Eu poderia ter ficado em casa. Poderia ter sofrido com a minha crise. Poderia ter limpado a casa. Poderia estar, agora, com tudo em dia. Não teria visto borboletas no mar. Aliás, eu jamais teria perdido a chance de ver borboletas no mar.

 

“Mira como corre, qué cobarde es el tiempo” pois que corra, eu não tenho pressa em acompanhá-lo. E como diz a outra canção, “eu vou sair nessas horas de confusão” porque confusão não se cura sufocando-a nem alimentando-a. Confusões e crises são curadas com o ar. Ou com borboletas ao mar, mas aí não é pra qualquer um.

 

(na hora do sol se pôr também surgiu um objeto não identificado à esquerda dele, ao sul, brilhante, pequeno, durou uns minutos e sumiu – sério que ninguém mais viu? as fotos não ficaram tão boas.)

 

Me demoro à beira-mar… volto aos pensamentos, fotografo pouco, redescubro certos cantos e olhares. Lasco o dedo do pé numa pedra e só vou me dar conta disso horas depois. Já tarde vou seguindo meu caminho. Sentam ao meu lado duas mulheres e um menino uruguaios. Querendo me deleitar com a fala deles tiro o fone de ouvido. “Tus amigos saben hacer el amor?!” eis que uma pergunta. Engulo uma gargalhada engasgada daquelas e me esforço por manter o rosto sem nenhuma expressão – finjo que não entendo o idioma. Presto atenção para entender o descabido da declaração e o menino, coitado, se esforça para explicar que já ensinaram na escola essa coisa de espermatozóide e óvulo e tal. Ao que a mulher quer detalhes se já falaram de pintos e vaginas, o coitado ri e diz que sim, mas que isso já sabiam. O diálogo prossegue com as duas indignadas de meninos de oito anos aprenderem isso enquanto elas só aprenderam aos doze, treze anos. Elas ainda insistem para que ele diga a reação dos colegas ao assunto tão interessante e motivo de piadas para aqueles que não o conhecem.

 

O ar tinha o perfume da Dama da Noite. O Rei começava seu show a uma ponte de distância de mim, as pessoas se arrumavam para ir para a balada, eu sorria volta e meia ao lembrar de alguma coisa ou ao ouvir alguma canção do mp3. Me deixem sem dinheiro, sem amigos, mas não me deixem sem mp3. Cantava Cazuza que queria alguém pois o cachorro já não o lambia, os pais não o entendiam e os amigos eram chatos: dispenso o alguém, amigo, mas no resto estamos na mesma.

 

Aliás, dispenso qualquer alguém na minha vida. Não sei até quando, já não entendo o motivo, mas acredito no meu coração quando ele me pede isso. Posso não estar na idade para paixonites (essas realmente dispenso), mas também não passei da idade para grandes amores.

 

Borboletas. Acreditar. O tempo, esse covarde. Crise (profunda) de solidão. Abril e outono. Ressacas. Era para juntar tudo isso e dar em alguma coisa. E deu. Se tiverem explicação para alguma dessas coisas, por favor, não me contem. Dispenso explicações. Eu sempre prefiro acreditar. Sem isso não sou nada além do nada que dizem que a gente já é.

 

 

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