Já dizia o Rei: com palavras não sei dizer – decisões, crises, os 25 e algo mais

Eu queria – e, de fato, poderia – escrever sobre muitas coisas. Queria dizer o quanto acredito no Destino quando ele inverteu a ordem das coisas na última viagem a São Paulo, e que até quando as coisas dão errado, dá tudo muito certo. E assim que sempre relativizo o conceito “errado”. Queria dizer como me senti aquele dia lá em cima daquele morro, na Ilha, com tudo e todos tão distantes, o silêncio e o vento me fazendo companhia com pensamentos entremeados de lembranças. Queria dizer como foi ver a lua na linha do horizonte numa noite no meio do Mato Grosso do Sul, na estrada ouvindo música. Queria dizer que meus pensamentos eram todos dele ao longo de centenas de kilômetros nos últimos dias. Queria dizer que a responsabilidade é a dor-delícia da vez e como ela pode crescer. Queria dizer o que é sentir-se em meio a um redemoinho do Destino. Eu queria dizer o que foi que senti diante daquele monumento histórico. Queria explicar o que é conviver com a minha solidão. Queria contar como me sinto querendo reatar laços antigos que foram desfeitos pelo peso da vida. Queria discorrer sobre como é me ver diferente em relação a sentimentos antigos, dizer como mudei no último ano, o quanto olho para mim com outros olhos.

 

Já dizia o Rei, “eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer”. Eu fico assim sem conseguir escrever aqui tudo o que eu queria. E não é a primeira vez. Tantas coisas do ano passado não vieram parar aqui por esse mesmo motivo. Estão trancafiadas aqui dentro operando mudanças e fortalecendo estruturas. E escrever pra mim é e sempre foi, também, catártico. Não me entendo, não sei se poderá me fazer algum mal. Às vezes acho que são coisas de médio e longo prazo, porque o futuro reserva coisas pesadas demais.

 

Ainda nos últimos dias, olhando pela janela e vendo paisagens novas eu pensei sobre o quanto é difícil tomar decisões. Eu tenho uma especial dificuldade com isso. Muitas vezes espero que as “coisas” as tomem por mim, ou fico esperando algum “sinal”. Tomar decisões é ser radical entre isso e aquilo e eu normalmente quero tudo. Mas, mais difícil ainda do que tomar decisões é sustentá-las. Creio que é o que eu tenho passado. Tomei certas decisões cabais nos últimos anos e o mais difícil (até porque tenho uma forte tendência de tomar decisões no impulso, na emoção) tem sido sustentá-las sem fugir ou me acovardar ou simples dizer que quero outra coisa. Na verdade, eu não quero. O mais difícil ao sustentar minhas decisões tem sido o medo e uma espécie de temor (ah, Kierkegaard!). É como se eu tivesse tomado a decisão de ir por um caminho completamente escuro. Estou ali, às cegas, caminhando sem ver nem entender nada. Quem não teria medo? Como não temer o próximo passo? Aí entra o meu “modo” de ser com amor à aventura, ao desconhecido e aos in/m e penso “Dane-se o medo”. Porque já escolhi seguir, não adianta nada temer. E eu detesto – detesto, com muita ênfase – voltar pelo mesmo caminho.

 

Se sobrevivi à crise dos 25, nada mais me ocorre de mais grave. Antes eu acreditava na crise dos 30, mas devo rever minha teoria. Diz a ciência que é a partir dos 27 que a gente envelhece. Mas é nos 25 que a vida nos coloca contra a parede. Somos poucos os que passaram dos 25 e que não se ampararam em alguém ou em algo e que decidiram – conscientes ou não – continuar com seus sonhos, seguindo-os, sonhando-os e recriando-os. Aos 25 você já prevê um emprego fixo, um amor pra vida toda, um lugar para morar, amizades sólidas, o afastamento da família. A vida parece começar aos 25, aquilo que chamam de vida adulta. Vai ver você não pode mais agir entre a infantilidade e o espírito sonhador, no meu caso. Pois não consegui. As pessoas se esforçaram. Acho que eu também. Não deu certo. Eu abandonei uma vida, fui para outra, não gostei, resolvi criar uma nova. Nessas idas e vindas sempre falta espaço para esse ou aquilo. A atual está em plena formação. Os 25 deram um tapa na cara e eu estarreci. Depois, resolvi que não era hora, ainda.

 

Esses dias fui escrever um texto e acabei indo por outros caminhos. Fiz uma auto-análise catártica de um relacionamento. Sobre certas coisas eu tenho as sensações e sentimentos tão claros no momento em que eles ocorrem. Sobre outras eu demoro muito para conseguir analisá-las. Aí a amiga me falou: mas por que você não me contou que se sentia assim, a gente teria feito outra coisa. Eu não sabia. Eu descubro meus sentimentos com a experiência. Descobri, também, que sempre fui assim. Só sei o que sinto através da experiência. Não é tão simples ou bobo quanto pode parecer. E eu queria dizer como é, mas com palavras…

 

Já dizem por aí que narrar não é dizer. Tambem dizer não é comunicar. Explicar não é, jamais, fazer-se entender.

 

Passei dos 25 imune ao casamento, ao ajuntamento, nem tão imune às doenças, mas dei uma baita resposta para elas. Não abandonei os meus sonhos nem diante dos dias de trabalho e vida vulgar mais excruciantes. Não me rendi ao saldo do banco. Não conheci (e Deus me livre conhecer) a tal estabilidade, nos sentimentos, nos pensamentos, no trabalho, na alma, no dia-a-dia. Resisti às avalanches dos discursos nobres e construtivos. Preservei minha rebeldia. Enfim, não aceitei. Disse muitos nãos para conseguir ainda dizer sins tão lindos para mim.

 

A crise dos 30 deve ter sido ultrapassada pela vida que dizem que anda cada vez mais rápida. Eu gosto de tempos de crise, deve ser por isso que eu prefiro vivê-las a me render a elas. Já diz minha irmã que eu serei uma quarentona muito louca de mini-saia jeans. Na hora da crise as pessoas procuram se abrigar, mas esquecem (será?) de sair dos seus abrigos depois que elas passam. Aí, passam a vida inteira abrigadas com medo de algo que elas nem sabem mais o que era.

 

Os abrigos que me ofereceram não me conquistaram com seu conforto e segurança. Acho que também não gosto disso. A segurança, o conforto e a estabilidade não nos ensinam a viver. Pelo contrário, nos deixam fracos. E é uma forma de confinamento, de sufocamento. Se você vive com segurança, conforto e estabilidade, fraqueja diante de uma crise e vai sucessivamente se abrigando das próximas crises. Nunca vai querer encará-las. Eu fujo disso.

 

E foi assim que os 25 passaram por mim. Foi assim que tive loucura o suficiente (seria arrogante dizer “coragem”) para sustentar minhas decisões. E é assim que não consigo dizer tudo o que tem sido a minha vida.

 

Ps: prometo deixar minha vida de lado e escrever sobre coisas mais reais e mundanas de vez em quando. O problema é o blog segue a linha desassossegada e olhar para dentro tem sido um exercício frequente demais para me permitir uma preocupação exagerada com o mundinho aqui de fora.

 

Anúncios

2 comentários em “Já dizia o Rei: com palavras não sei dizer – decisões, crises, os 25 e algo mais

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: