Sobre relacionamentos e experiência

Numa conversa hoje falaram “Ah, minha mãe disse: todo homem é igual, minha filha.” aí eu logo disparei “Todos são iguais, mas a gente pode escolher o menos pior, né.”.

 

Depois fiquei pensando sobre a origem dessa máxima. Sabemos que somos ainda (talvez sempre) uma sociedade machista. Não sei a origem da expressão, nem vou pesquisar isso. Mas me pareceu claramente o mote do casamento, de como a sociedade (ah, essa bela hipócrita) vê o casamento. A mulher foi criada para aceitar os homens. Eles são todos iguais, minhas filhas, não queiram separar desse que te faz infeliz, maltrata, porque um outro fará a mesma coisa – e você ainda vai carregar o estigma de ser separada.

 

Rola pela internet uma imagem com os dizeres (aquelas coisas auto-ajudativas-enjoativas) “Sou do tempo que quando uma coisa quebra a gente conserta” a respeito de relacionamentos. Eu realmente sou dessa época, tanto que já mandei um microondas quase da minha idade umas cinco vezes para arrumar. Sobre relacionamentos há uma diferença: as pessoas. Num relacionamento você dificilmente terá a chance de “consertar” algo para além da superfície, ou você se acostuma, aceita conviver com aquilo, ou você parte pra outra – ou para nenhuma.

 

As pessoas não mudam. Por nada nem por ninguém. Aceitá-las é o principal num relacionamento. Por isso muitos não sobrevivem à paixão, aquele período em que achamos tudo lindo e maravilhoso e que toleramos o que não gostamos no outro. A convivência será o divisor de águas. Por isso não acredito que existam relacionamentos perfeitos, nem felizes. Você pode até se acostumar que ele nunca liga tanto quanto você gostaria, mas não poderá jamais ser feliz por completo.

 

Tenho ouvido muitas pessoas me contarem suas aventuras amorosas, as histórias dos seus relacionamentos, as desventuras do coração em geral, histórias de separações, idas e vindas, paixonites, paixões avassaladoras. Comecei a achar engraçada a minha atitude e meus posicionamentos. Não acho que seja a idade, afinal não sou velha, mas é a experiência. É ela que me faz ser mais segura diante dos desesperos e descaminhos alheios. Quando a amiga está lá no momento só love todo confuso eu faço o discurso de que ela está apaixonada e é melhor assumir isso, senão vai sofrer mais do que o sofrimento que ela pensa estar evitando. Quando vem uma falar da crise, da possível separação, eu apóio, falo das questões legais. Quando outra veio contar das traições que praticava não pude concordar. E, vejam só, disseram que eu sou muito prática quando se trata dos caminhos do coração. Fui obrigada a lembrar o espanto das amigas quando eu disse que não amava mais minha primeira infame paixonite, elas não acreditavam que de um dia para o outro eu não sentia mais nada. É, talvez eu seja prática – pelo menos nisso.

 

Aliás, por favor, se você trai seu respectivo, não me conte.

 

Porque eu tenho ímpeto de contar para o traído. Não acho justo. Não quero ser cúmplice das falhas de caráter alheias. Não acho certo a pessoa trair e sair por aí contando pra um monte de gente, menos pro coitado do traído. Não me faça cúmplice, porque eu conto mesmo.

 

Me vi assim, experiente, distante. Me vejo assim. Nem a vida nem as pessoas me causam surpresas. Não duvido de amores e desamores, mas já me iludo bem menos. Se eu tivesse acreditado que todos os homens são iguais, eu poderia ter vivido o resto da minha vida com todos os homens do meu passado. E sei que eu poderia ter vivido com todos eles. Mas eu não quis. Eu não quis simplesmente aceitá-los. Principalmente porque eu poderei viver o resto da vida com o próximo, ou com os próximos. Eu posso ser feliz com quem eu quiser. Poderia ter sido com os do passado, poderei ser com os do futuro.

 

Naquela noite sobre o rio Paraná, a lua de um lado, as luzes da cidade do outro, eu vi uma estrela cadente. Eufórica apontei-a e fiz um pedido. (riram de mim) Nem toda a experiência do mundo vai me tirar a doçura de viver e de acreditar em coisas boas e bonitas. É claro que eu ainda irei me apaixonar loucamente muitas vezes. É claro que ainda irei ter muitas dores de amor. É claro que ainda vou chorar desesperada nas horas de confusão. Eu não quero me privar disso. Vou sempre lembrar das besteiras de menina que eu disse não, vou sair nas horas de confusão e provavelmente aparecerei em alguma porta completamente nua. Provavelmente. A experiência me permite fazer tudo isso com mais propriedade – ela vacina, não imuniza.

 

Algumas semanas atrás passei muito (muito mesmo) mal. Estava em casa, sozinha, na cidade que eu moro – família mora em outras cidades. Lá, caída, sem força, sem comer, sem conseguir fazer nada cheguei ao fundo do poço. Minha mente gritava para ligar pra mãe e pedir pra que ela fosse me buscar. A gente sempre lembra da mãe quando está na pior – ou, pelo menos, quem tem uma mãe extraordinária como a minha. Não liguei. Aguentei firme, dei um jeito, engoli remédio, me joguei na cama. É assim que a gente percebe que é sozinha (sempre fui), que é dona da própria vida, que responde por si. Quem não se dá conta disso é aquele tipo de mulher que não se separa porque tem medo de dividir os bens, de voltar pra casa dos pais, de ter que pagar as contas sozinha, de se olhar no espelho e não ter em quem pensar ou por quem se arrumar. Eu não sou esse tipo.

 

Nem sei porque escrevi tudo isso. Me perdi em divagações. Me irrita o machismo, me irritam as pessoas que se acovardam. Mas podem ter certeza que é muito difícil eu falar ou escrever sobre relacionamentos. Muito mesmo. Simplesmente porque não gosto do assunto. Acho chato. Como dizem que sou contra o casamento, serve um pouco como reflexão. Porque eu penso sobre o que eu não gosto. Penso sobre assuntos que acho chatos ou desagradáveis. Penso bastante quando tropeço na hipocrisia e no machismo, por exemplo. Eu penso demais. E acabo até escrevendo sobre relacionamentos.

 

 

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Um comentário em “Sobre relacionamentos e experiência

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  1. Eu me vi nesse texto, em vários aspectos.
    Meu avô dizia que “a dor ensina a gemer”… aprendi as melhores lições com a tal da dor. Inclusive essa do ser/estar sozinha.
    Por mais que eu não esteja só, eu sou “sozinha”… e não importa o quão difícil seja fazer certas decisões na vida, sei muito bem que apenas eu sou responsável por mim.

    Vejo relacionamentos como uma escolha.
    Pode ser que eu deixe de escanteio o lado romântico da coisa mas, para mim, um relacionamento não passa de uma escolha.
    Paixões acontecem, algumas escolhemos, outras não… mas manter um relacionamento requer um pouco de trabalho da massa cinzenta – coisa que paixonite nenhuma permite.

    Lembrei-me de uma conhecida… que durante os preparativos de seu casamento há uns anos atrás disse o seguinte: Na hora H a gente se pergunta “Será que é isso mesmo o que eu quero? Será que é com ele que eu quero?”

    Não cheguei nesse momento, mas cheguei na pergunta e ela teima em voltar o tempo todo.
    Pra falar a verdade, duvido que ela vá embora enquanto houver um relacionamento.

    Aliás, não acho que todo homem seja igual, muito pelo contrário.

    Uma vez escrevi um roteiro, que depois pensei em colocar em um blog… dei duas opções de título: “amores possíveis” ou “1/2 amores”.
    Quase amores… ou algo assim.

    Pensei naquelas pessoas que poderiam ter sido mas não foram, e naqueles que ainda querem ser mas não sabem da minha escolha.
    E como poderiam, nem eu sei da minha escolha!!
    Sócrates já disse “só sei que nada sei”… e eu menos.

    Mas imagino que tudo seja uma questão de tempo. Tempo e momento.
    E o tal do conhece a ti mesmo nesse determinado momento é o que te faz tomar decisões.

    Difícil falar sobre isso sim, mas teimo em pensar a respeito…

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