Os Homens da Minha Vida – Stendhal, os 28, os suspiros e a verdade

 

Entre delírios febris que me impedem de trabalhar e estudar direito, me agarrei ao Stendhal e ao amor.

 

Foi assim num gesto de amor à primeira vista quando ele me disse ao pé do ouvido, num começo de madrugada, que o amor é como a febre, que vai e vem quando bem entende. Sem alguém a quem amar (!), tendo sempre o amor disponível em mim, uma febre que desencadeou coisas ruins como ela – dores inenarráveis, períodos de sono intenso e de dispersão insone total -, nada rendendo, peguei-o de jeito ao lado da cama de onde mal saio nos últimos dias.

 

Como cheguei até ele? Então, eu e uma amiga rodopiavamos pela feira do livro de Fpolis, entre discussões literárias, amantíssimas e sobre amores reais, quando dei de cara com “Do Amor”, uma obra que se diz capaz de explicar os estágios do amor. Olhei para a amiga e disse que compraria o livro para ver se a compreendia – ela, ao que todos os sintomas indicam, está amando. Já não sei se ela está amando ou se está amando a idéia de apaixonar-se e eis que pra mim isso nunca conviveu muito separado, enfim. Eu? Eu ando despojada dessas artimanhas do coração. Pela segunda vez na vida, desde que caí no buraco negro dos sentimentos profundos pela primeira vez, entrei em recesso. Um recesso necessário, frutífero, eficaz, aprazível, instigante. Quem sabe eu saia dele, ou não. Se for pra sair como saí do anterior, vocês ouvirão os tambores e os trovões.

 

Me sinto até um pouco culpada porque sou muito grosseira para essas coisas do coração. Revi e reli algumas coisas da minha vida amorosa (óin!) e toda vez que faço isso me sinto um rinoceronte no quesito delicadeza e compreensão com os sentimentos alheios. Um rinoceronte. Aí quando a amiga vem falar dessas coisas, das dúvidas, da cristalização, dos arroubos, dos desesperos, rinoceronteio do modo mais direto possível. Preciso mudar. Então, em meio a essa febre que não é nem de longe de amor, que Stendhal me ajudasse.

 

E ajudou. Ajudou muito. A amiga não tem salvação. Pulando essa parte, Stendhal resolveu tratar da minha vida. Sim, ele escreveu a minha vida amorosa (brega, né?) melhor que eu e muito antes de eu vivê-la. Aí matutei, matutei e fiquei intrigada porque, na verdade, ele já escreveu o próximo capítulo. Quem acompanha o blog já deve ter lido algum dos capítulos da série “homens da minha vida” (um deles, o último, ainda não foi publicado por motivo de força maior, mas espero em breve postá-lo) e entre os últimos de um anúncio de jornal e de uma página em branco, Stendhal previu o próximo.

 

Serei breve. Essas poucas linhas já consumiram o resto de energia que angariei tomando cachaça com mel (xarope, chá, mil remédios, nada deu conta, a cachaça foi a “solução final”). Colocarei a citação literal dele aqui.

 

“Uma moça de dezoito anos não possui muita cristalização em seu poder e forma desejos muito limitados pela pouca experiência que ela tem das coisas da vida, para encontrar-se em estado de amar com tanta paixão como uma mulher de 28 anos.

Esta noite exporei essa doutrina a uma mulher de espírito que pretende o contrário.

– A imaginação de uma jovem, não se encontrando congelada por nenhuma experiência desagradável, e o fogo da primeira juventude se encontrando em toda a sua força, é possível que, sobre um homem qualquer, ela crie uma imagem maravilhosa. Todas as vezes que encontrar seu amante, ela desfrutará não do que ele é efetivamente, mas dessa imagem que ela criará. (*adendo meu: suspiros)

Mais tarde, desenganada desse amante e de todos os homens, a experiência da triste realidade nela diminui o poder da cristalização, e a desconfiança corta as asas da imaginação. (*momento atual) Sobre qualquer homem, mesmo que ele venha a ser um prodígio, ela não mais poderá formar uma imagem tão cativante; ela não mais poderá amar, portanto, com o mesmo fogo de sua primeira juventude. E como no amor só se desfruta da ilusão que se faz, jamais a imagem que ela puder criar aos 28 anos terá o brilho e o sublime daquela sobre a qual se fundara o primeiro amor aos dezesseis, e o segundo amor (*a quantidade de “primeiros” e “segundos” é questão de interpretação) sempre parecerá de uma espécie degenerada.

Não, madame, a presença da desconfiança, que não existia aos dezesseis anos, é evidentemente dar uma cor diversa a esse segundo amor. Na primeira juventude, o amor é como um rio imenso que tudo leva em seu curso, ante o qual se sente que não se poderia resistir. Ora, uma alma terna conhece-se aos 28 anos; ela sabe que, se para ela ainda existe felicidade na vida, é no amor que é preciso buscá-la; surge, nesse pobre coração agitado, uma luta terrível entre o amor e a desconfiança (*próximo capítulo). A cristalização avança lentamente; mas a que sai vitoriosa dessa prova terrível, em que a alma executa todos os seus movimentos ante a vista contínua do mais terrível perigo, é mil vezes mais brilhante e mais sólida do que a cristalização dos dezesseis anos, quando, pelo privilégio da idade, tudo era alegria e felicidade.

Então o amor deve ser menos alegre e mais apaixonado.”

 

Balzaquianas é para as fracas! Bem entendia Stendhal dos 28 anos das boas almas. Sei que fui fazer uma pilhéria com os arroubos amorosos da amiga e acabei sendo usada pelo Destino para que eu me entendesse. Quando ele termina com “menos alegre e mais apaixonado”, ninguém tem idéia do quanto isso me deixa feliz. Já é o título do próximo capítulo (que, por sinal, vai demorar um pouco para acontecer). Consigo compreendê-lo e acreditar que a cristalização avançará lentamente e será mais brilhante e mais sólida do que a dos dezesseis. Ele não deixou escapar nada.

 

(a dor de cabeça quase me fez abandonar por aqui sem sequer publicar)

 

Foram sobre esses pensamentos que quis escrever… quando escrevi aqui sobre a incomunicabilidade da guerra não atentei para o outro lado: a incomunicabilidade das belezas e delícias da vida. Já quis escrever aqui sobre muitas coisas, já me pediram que eu escrevesse sobre isso e aquilo (sim, recebo pedidos de pauta e adoro isso!), tal lugar que visitei, minhas considerações sobre algumas viagens e tal. Sei que disponho o espaço do blog para cenas da minha vida, mas devem ter reparado que elas têm sido cada vez mais raras ou que surgem somente como estopim de uma reflexão maior. Talvez eu tenha me agarrado à razão (“a razão jamais lhes é útil” diria o Stendhal sobre as mulheres). É assim que comunico a incomunicabilidade dos deleites da vida. É difícil vir escrever sobre certas coisas. Mas eu prometo tentar. Tenho que mudar essa frieza.

 

E volto ao Stendhal, pois foi assim que ele me fez pensar nisso “Faço todos os esforços possíveis para ser frio. Desejo impor silêncio ao meu coração, que imagina ter muito a falar. Sempre tremo ante a idéia de só vir a escrever um suspiro, quando imagino ter anotado uma verdade.”

 

 

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2 comentários em “Os Homens da Minha Vida – Stendhal, os 28, os suspiros e a verdade

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  1. Então estás uma fase a minha frente! Não é possível que eu não tenha salvação. Logo estarei desenganada. (Infelizmente!)
    Preciso passar umas noites com Stendhal! Depois discutimos as interpretações! 🙂

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    1. Devo estar. Mas já fiquei com aquele sorriso no rosto pela previsão do futuro. 😉
      No caminho entre a salvação e o desengano há de ter alguma bifurcação. Não é mesmo?
      Agora, me desculpe, mas deixe-me passar minhas noites com Stendhal… temos tanto para confessar um ao outro!

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