O maldito tele-entrega

 Era pra ser um programa normal. Fui pra casa da amiga num dia à noite e ia rolar uma sessão dos nossos seriados favoritos, comida, bebida, fofoca, causos sobre os amores e desamores da vida. E aí ela quis pedir a comida.

Depois de inúmeras confusões, pedidos demorados, trocados, a dificuldade de pedir comida de madrugada, chega um x-bacon. Quando eu olhei pra ele quase chorei.

Foi assim, a gente namorava. Durante os anos de namoro eu engordei mais do que em qualquer época da minha vida – mais até do que nas crises de depressão da adolescência. Mas o problema era o tele-entrega. O maldito tele-entrega.

O programa para sábado era pedir uma pizza em casa. Qualquer comemoração, quando ele encontrava tempo entre as mil preocupações com o trabalho, era no fast food perto da minha casa. Eu tinha essa coisa de gostar de variar, ele tinha aquela coisa de ser sempre a mesma coisa. Nunca iria dar certo.

Quando a amiga sugeriu uma pizza eu já disparei um sonoro “não”. Era trauma. Quando o sanduíche chegou eu não comi nem metade. Era tão simples ter percebido que o relacionamento não ia dar certo. Eu não sou o tipo de pessoa de pizza aos sábados em casa e comemorações no fast food. Pelo menos, não sempre. Eu olhava para o sanduíche e já não conseguia nem sentir o gosto. Lembrei de todas as vezes que o relacionamento era aquilo de abrir o pacote da entrega, pegar o meu, ele o dele, cada um ali na cama, na mesa, no sofá, comendo o seu. Invariavelmente a TV ligada. Ela falava por nós. Não havia conversa, ela ficava ali falando sozinha enquanto comíamos em silêncio.

Fiquei traumatizada. Fiquei um bom tempo sem comer nenhum sanduíche. Nunca mais esses de lanchonete de bairro. Pizza entregue em casa, então, nem pensar. Além de engordar, me dar uma sede absurda, era um símbolo de tudo que tinha dado errado.

O errado naquele relacionamento foi não ter visto o quanto as coisas nos separavam. O quanto eu calava e aceitava porque eu havia concordado uma vez, mas não tinha sinalizado que aceitaria sempre. O quanto ele era de um jeito, eu o oposto – e aí a coisa não atraía, repelia. A segurança dele em ter o telefone da tele-entrega daquela mesma pizzaria à mão era o meu desespero pelo “mais do mesmo” – do qual eu fujo até na hora de pintar as unhas toda semana. Por um tempo a graça do relacionamento era essa, o encanto que um via no outro era o diferente. Mas não soubemos equilibrar, não soubemos dosar. Ou talvez certas diferenças nunca possam ser equilibradas, a balança sempre vai pesar mais para um lado. E aí o outro precisa se anular, ou aceitar, ou se conformar. Ou tudo isso junto.

Às vezes a gente pode até fazer isso, tem quem faz a vida inteira. Tem quem não consegue. Aí, para esses, o relacionamento precisa ser aquela coisa na qual as semelhanças façam mais sentido. Os dois precisam olhar mais na mesma direção, gostar mais das mesmas coisas. Não dá pra ele ligar a TV todo domingo pra assistir à Fórmula 1 e não assistir aquele filmão do Truffaut contigo. Não dá pra você querer andar de bicicleta numa tarde ensolarada e ele sempre arranjar uma desculpa pra não ir.

Não há a fórmula perfeita, disso todo mundo sabe. Mas a gente pode ir descobrindo um caminho aqui, um problema ali e tentar chegar mais próximo daquele que não vai deixar sobrar nem faltar. Torna-se um problema quando você acaba colocando tantos “poréns” e requisitos que nunca vai encontrar um que caiba em todos eles. Mas, nas linhas gerais é bom confiar.

O fast food, a TV e a pizza de sábado me fizeram entender que há diferenças irreconciliáveis sem a anulação de um dos lados. E eu não topo me anular. Me resta encontrar um que esteja mais perto das semelhanças, dos gostos e dos desejos. 

Sempre vai me restar ser feliz.

(Ps: a noitada foi muito boa, comemos besteiras, filosofamos sobre a vida, vimos um pouco de seriados, tomei um porre e às oito da matina fomos dormir lendo aqueles livrinhos “Amar é…”)

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