Porque fugir sempre faz sentido e as cenas da vida

Dia desses ia voltar caminhando para a casa, à noite, sentindo todos os músculos do corpo – literalmente – quando decidi não voltar para casa. Outono na Ilha, vento Sul entrando forte e poderoso. Fazia frio, diriam uns. O vento é das dez coisas que mais mexem comigo. Às vezes eu tenho isso, vontade de fugir, de não voltar pra casa. E eu fujo de casa, às vezes conscientemente, às vezes não. Posso avisar ou não. Sim, já fugi ou saí sem rumo de casa muitas vezes, desde criança. Eu simplesmente saio de casa. Mas fugir e avisar não tem muita coerência, né? É que em respeito a minha mãe eu de vez em quando aviso “não te preocupa, vou dar uma sumida”. Ela já me conhece, sabe como é. Até aqui no blog já avisei que ia sumir. Às vezes deixo anotado num mural de casa que sai sem rumo, caso eu desapareça por muito tempo ou me aconteça alguma coisa, saberão o que foi. Uma amiga ainda esses dias me mandou uma daquelas imagens que circulam pelo Facebook que falava sobre isso. Aí encontrei essa e achei a minha cara. Tem até uma palavra pra me definir. (sim, também há essa obsessão por viajar)

 

tão eu, né?
tão eu, né?

 

E eis que naquela noite eu não queria voltar pra casa. Fui caminhando, passei a rua de casa e continuei… eu gosto do vento frio, ele faz com que eu me sinta viva, ele me revigora. Fui caminhando e pensando. No que eu pensava? Na vida. Tenho essa mania. Pensei em pessoas, pensei em atitudes, pensei em desânimos. Numa semana que o que mais me indignava era que eu não poderia falar com quem eu precisava. Sim, eu precisava de uma tarde conversando com ela naquele quarto de costura… e isso nunca mais vai acontecer. Nunca mais. Talvez, um dia, quando eu morrer, eu me encontre novamente com ela. Mas aqui, em vida, eu nunca poderei voltar àquele quarto. E tudo o que eu precisava era conversar com ela. Precisava ouví-la, precisava contar tudo o que me passa pela cabeça, precisava dizer como anda minha vida e ouvir o que ela acha dos meus sonhos para um futuro próximo. Enfim, eu não teria nada disso. Se eu não tenho isso, que é tudo o que eu preciso, então também não quero nada. Nem voltar pra casa. Fui caminhando e pensando. Quando as grandes coisas da vida não me interessam eu me volto para aquelas pequenas coisas que me rodeiam. E aí pensei em três cenas que eu havia presenciado naqueles dias na Ilha.

 

Cena 1

Me arrastando pelo centro, quase fui atropelada ao atravessar na Praça XV. Eu quase ser atropelada é normal por conta da atenção precária, mas dessa vez foi especial pela febre e intensas dores no corpo. Queria e precisava resolver umas coisas e comprar remédio. Tive que sair de casa. Me arrastava, como eu disse, pelo centro quando passei pela banca que vende maçã do amor e cocada. Eu amo cocada. Parei, perguntei quanto (pois é, a mão-de-vaca aqui já aceitou que três reais é um preço normal por uma cocada), escolhi uma (branca pura, please), a senhora foi pegar a sacola, eu fiquei catando o dinheiro na bolsa. Quando peguei a sacola ela disse “Obrigada, bom fim de semana pra você.” Ao que eu respondi na lata “Obrigada. Igualmente.”. Peguei essa mania faz algum tempo: sempre que a pessoa me diz alguma coisa eu respondo “igualmente”. Já surpreendi muito atendente de call center com isso, eles cumprem o protocolo com um “boa tarde” e eu respondo “igualmente”, eles chegam a gaguejar e de vez em quando até respondem um “obrigado”. Assumi pra vida, me desejou, desejo de volta – até porque se a pessoa está desejando algo de ruim internamente, vai ficar preocupada. Aí a senhora me disse “Obrigada. Quer dizer, bom fim de semana pra gente, né? (um sorriso) Nós merecemos.”. Eu sorri de volta e fui me arrastando em direção ao terminal. Ficou ribombando na minha cabeça “nós merecemos”. Eu não a conheço, ela não me conhece. E é tão fácil nos desejarmos um bom fim de semana porque merecemos.

 

Cena 2

Lá estava eu indo para um compromisso. Rio Tavares – Lagoa, entre dois lugares bastante habitados e movimentados da Ilha. Sentada no ônibus olhando pela janela, mp3 ninando. Três cavalos livres num tereno enorme (uma espécie de sítio) saem em disparada. Lindos, um todo marrom, um branco com manchas pretas e um branco com as patas mais escuras. Galoparam, galoparam, galoparam. Um luxo ainda com o ônibus em movimento como se fosse um travelling deles. Eu me senti extasiada. Um espetáculo. Ali, num dia de semana qualquer, na Ilha que tem essas belezas sem fim – para quem sabe apreciá-las. Não pareciam ter destino, não parecia haver motivo para a disparada, livres. Andar a cavalo é uma experiência indescritível e desperta os ânimos dos amantes da liberdade. A cena, tão linda quanto significativa, me voltaria à mente durante as longas horas burocráticas seguintes daquela tarde. Decidi até tatuar a palavra “liberdade”, em árabe, na mão esquerda.

 

Cena 3

Eu num ônibus novamente. Senta ao meu lado uma adolescente, snikker, calça skinny, moletom, mochila, cabelão. Digitava sem cessar no celular. Parênteses: tenho agonia com pessoas e seus celulares em lugares públicos. Faço cara feia pra quem fica falando alto no celular e não resisto – nem tento – a olhar o que as pessoas digitam nas suas mensagens. Sim, eu faço isso. Já vi muitas conversas por mensagens por aí. A maioria nessa coisa de casaisinhos bobos. Mas quando olhei a dessa menina franzi o cenho. Hein? Era assim “Talvez ele ficou chateado porque você não ajoelhou. Porque quando foi pro xangô Kamikarê a gente ajoelhou. Será que ele queria que a gente ajoelhasse?” (adendo: o nome do xangô ali não é o certo, na hora não entendi direito e não ia lembrar agora o certo) Confesso que quando li o primeiro “ajoelhou” pensei que ia rolar putaria na mensagem – já vi dessas também. Aí eu olhei de novo a menina, olhei a mensagem. Achei incompreensível. Ela estava mais pra uma adolescente fã de alguma banda de rock-pop. Que xangô era aquele? O que aquela menina andava fazendo? Sim, fiquei ali vendo a discussão sobre se deveriam ter se ajoelhado ou não e estupefata. Infelizmente tive que descer em pouco tempo.

 

Não foi uma semana fácil. Como as semanas começam aos domingos posso prever que esta próxima também não será. Ainda estou revoltada (com a morte, vejam só) de não poder ter aquela conversa. E, bem, a morte me faz não esquecer de certas coisas e datas. Imersa numa solidão imensa dispenso tudo e todos. Ao contrário do que as pessoas podem pensar, eu aprecio este estado. Aí ontem fui para o meu lugar favorito da Ilha, precisava ir lá para pensar, ver o mar, ficar só comigo. Fugi de casa. Como era sábado surgiram aqueles trilheiros de fim de semana e de loja de trekking. Ignorei-os tranquilamente. Quando vou lá lembro que já levei várias pessoas para conhecer o lugar, e que se eu levo alguém lá é porque essa pessoa é realmente muito importante para mim. Não sou dessas que vulgarizam atitudes. Aí fiquei pensando e me dei conta que todas as pessoas que lá levei não estão mais na minha vida, saíram pela porta dos fundos, não souberam honrar o valor que, um dia, eu dei a elas. A única pessoa que ainda está na minha vida e com quem lá estive foi quem me apresentou ao lugar. Eu? Eu continuo indo lá. Gosto de poder ir lá quando preciso ou quero. Já fui inúmeras vezes sozinha. Eu? Eu nunca faltei comigo mesma. Por essas e outras que a solidão é um negócio tão bom e faz tão bem.

 

Criei mundos mirabolantes, fantasiei futuros, construí diálogos. Fiquei algumas horas por lá perdida entre o passado, o presente e o futuro – o tempo, enfim. Senti falta das baleias, afinal é outono. Na hora de voltar, levantei e… os golfinhos estavam diante de mim. Sorri. Agora sim eu poderia ir embora. Minha vida é assim, eu vou esperando ver baleias, fico até chateada porque não as encontro, mas aí o Destino manda golfinhos. Nunca posso ter o que espero. O Destino sempre me surpreende.

 

Voltei saltitante e com pensamentos ainda a mil. A cigana, então, tinha razão: tudo ficaria para trás. E, sim, tudo e todos ficaram para trás. Agora é tão fácil perceber. Tudo o que aconteceu nos últimos meses foi para que o que acontecia antes tivesse fim, mas não seriam aqueles fatos que construiriam o futuro, seriam apenas meios para que as coisas novas viessem. Agora eu entendo. Ah, e não encontrei nenhum cobra coral. Isso foi o que me fez ter certeza da utilidade de muitos acontecimentos. Destino, você escreve certo com uma letra indecifrável, por isso eu demoro a entender.

 

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