Sobre as aulas de Filosofia

 

Eu pensava, esses dias, em duas coisas, por motivos diversos e até opostos, que servem muito bem para ilustrar meu sentimento em relação ao que vou escrever.

Por motivos nada nobres eu refletia sobre as coisas que fazemos por fazer, aquelas coisas que servem somente para “constar”. Não encontro motivação em mim para fazer essas coisas, obrigações as quais você sabe que ninguém vai dar bola, que deveriam servir como controle, verificação, análise de algo, mas que na verdade já foram extirpadas das suas funções e existem somente para constar. Pensava numa lista dessas coisas (pense aí na sua, garanto que não será difícil) quando me deparei com um texto publicado no site da Carta Capital. Li e reli a manchete e pensei que não poderia ser o que dava a entender. Mas era.

 

Eis: http://www.cartacapital.com.br/revista/760/os-adolescentes-e-a-filosofia-9201.html

O texto faz alguns comentários sobre a disciplina Filosofia nas escolas. Ela atualmente já é obrigatória no ensino médio, para quem não sabe.

 

Pois bem. Um texto preocupado com a Filosofia em sala de aula? Mas de onde um editor teria aceitado isso? Mas que diacho queria o autor escrevendo sobre algo tão insólito, sobre algo que ninguém está nem aí?

 

E aí lembrei do meu pensamento dos últimos dias e uma máxima que trago sempre comigo: Na vida sempre há o botão “surpreenda-se”. O motivo deste pensamento é muito nobre, nem comparável ao anterior.

 

Aí, agora a pouco no banho, depois de um exílio forçado de escrever para o blog (com a pauta anotada ali e crescendo, mas confesso que este furou a fila), destruída de cansaço e de mal com o bom sono, juntei as duas idéias e resolvi escrever.

 

Fiz a graduação em Filosofia sempre dizendo que não seria professora. Nunca me vi como professora. Sempre achei que isso não era pra mim. Tanto que fiz somente o bacharelado. Fiz por vontade e necessidade pessoal. Tive péssimos professores de Filosofia na escola. Tive aulas vergonhosas de Filosofia. Na verdade nem sei se tive algum professor que fosse realmente formado em Filosofia. Mas tive Filosofia como disciplina da segunda série do ensino fundamental até o primeiro ano do ensino médio. Sim, pois é. Lembro até hoje dos livros da Pimpa. Aquilo tudo nunca fez muito sentido pra mim, confesso. Eram livros curtos que as professoras insistiam em ler aos poucos (eu lia tudo de uma vez só e depois achava chata a demora em terminá-los em sala).

 

Para muitos, as aulas de Filosofia são somente para “constar”, como em muitos cursos de graduação (no bacharelado de Comunicação Social, habilitação Cinema e Vídeo, era assim com a Sociologia também, por exemplo, ambas “para constar” e enquanto não fizeram uma reforma curricular para tirá-las, não sossegaram). É aquela aula “chata” que “não serve pra nada”. Afinal, o que um administrador precisa entender de Filosofia, não é mesmo?

 

A questão da didática sempre foi um problema. Não fiz licenciatura porque as disciplinas eram fracas, superficiais, “para constar”. Muitos dos professores do curso de Filosofia não sabiam nada de didática, por exemplo. Não havia estímulo nenhum em formar professores de Filosofia (que é quase o único campo de atuação profissional da área), vivia-se num mundo à parte, nunca era comentado em sala sobre o ofício de professor de Filosofia para o ensino médio nas disciplinas curriculares do curso.

 

A maioria dos que se formaram não estão em sala de aula. A maioria nunca nem entrou numa sala de aula – alguns, para ser sincera, para o bem dos alunos. Muitos, como eu, procuravam outras coisas no curso do que uma profissão.

 

Eis que aí entra a idéia do surpreender-se com a vida. Um dia, entrei em sala de aula como professora de Filosofia. Hoje, dar aula de Filosofia (assim com de Cinema – e cabe um comentário: tenho nos dois a paixão porque eles tratam de quase tudo da vida, e isso muito me agrada) está no top 10 das coisas que eu amo fazer na vida. É estimulante. É desafiador. É enriquecedor. Eu jamais poderia ser uma professora de matemática, por isso não vou dizer que dar aula de um modo geral é das melhores coisas da vida. Acho, sim, que um requisito para ser um bom professor é amar aquilo com o que ele trabalha. Os melhores professores que conheci são assim.

 

Quando li o texto da Carta Capital, pensei em mil coisas que vi em sala de aula como aluna e como professora. Me senti esfuziante quando li que o autor escreveu algo que eu sempre disse sobre ler os próprios autores, não livros didáticos burros. Vejam, hoje ainda usam os livros didáticos da Marilena Chauí – pois é, aquela, a esclerosada apocalíptica. As declarações dela são famosas, vergonhosas eu diria, e ela é das mais assíduas defensoras do governo atual, ou seja, nada de estranhar que os livros dela sejam comprados a rodo com dinheiro público para serem usados em sala de aula. Mera coincidência? Eu tive que brigar na escola para poder disctribuir os livros para as turmas dos primeiros anos (não havia para todas as séries, assim que decidi dar para aqueles que usariam nos três anos) e não deixá-los lá trancados na salinha atrás da biblioteca, inutilizados. Eu tirava dinheiro do bolso para tirar cópia dos textos que seriam lidos em sala. Infelizmente no livro didático não havia textos dos filósofos.

 

Qualquer um pode ler qualquer filósofo. Na graduação eu implicava quando alguns professores indicavam comentadores para leitura e não os próprios filósofos. Eu fiz meus alunos lerem os filósofos. Foi uma experiência incrível, por exemplo, dar trechos do Dicionário Filosófico, do Voltaire, para eles lerem. Lemos Platão, lemos até Kant! Aliás, lemos Benjamin também! E eles se deram muito bem! Lembro quando numa aula de Filosofia no livro tinha uma história em quadrinhos do Maurício de Souza sobre a Caverna do Platão, acho que eu estava no primeiro ano do ensino médio. Fiquei revoltada com aquilo. Uma história em quadrinho? Como se eu não fosse capaz de ler o texto? Pois fiz o contrário, li o trecho da Rapública com meus alunos do primeiro ano e como exercício eles desenharam a caverna depois de discutirmos sobre o que era aquilo tudo.

 

São coisas assim que me fizeram ter certeza de que a Filosofia não é algo só “para constar”. Por que eu fui fazer a graduação de Filosofia se tive tantas experiências ruins em sala de aula no fundamental e no médio? Justamente pelo que o autor aponta: eu li os filósofos. Eu li o Dicionário do Voltaire, sem entender um monte de referência, nos intervalos da aula no ensino médio. Eu li Kierkegaard. Eu li Sartre. Eu li Marx. Eu lia muita coisa. Aquele mundo me seduziu. E é um pouco isso que um professor faz em sala de aula, ele dá o caminho para que o aluno se deixe seduzir por algo que pode simplesmente mudar a vida dele.

 

A Filosofia não serve só para constar. Ela serve a tudo na vida. Quem lê os livros de Filosofia tem a chance de tornar-se uma pessoa melhor, muito melhor. Claro, é um erro lógico dizer que todos que lêem livros de Filosofia tornam-se pessoas melhores, não é o caso – e entre os professores que eu tive há inúmeros exemplos. Lembro que quando decidi fazer o vestibular, no site da UFSC dizia “o aluno terá o diploma de bacharel ou licenciado em Filosofia, ele não será ‘filósofo’ somente com o diploma pois para isso é necessária a publicação de livros na área e reconhecimento” (algo assim) e já usei essa explicação várias vezes quando alguém faz a piadinha infeliz de “filósofa”.

 

Por isso só posso concordar com o autor quando ele diz que a leitura de textos filosóficos ajudaria na compreensão e interpretação de texto e que aulas de Lógica contribuiriam em muito também. Sobre os alunos não serem fãs de Lógica, bem, a gente até gosta, mas às vezes não entende muito – mas há coisas mais difíceis. Essa semana, por exemplo, há um encontro internacional de Lógica, Epistemologia e áreas afins aqui em Florianópolis. Não vi, na programação, nada relacionado ao ensino de Filosofia. Nada. E é organizado por professores do departamento de Filosofia da UFSC. Há eventos direcionados, mas como em outras áreas, deveria haver, senão em todos, pelo menos na maioria, a preocupação com o ensino.

 

Sobre o texto eu não concordo com o segundo parágrafo, me parece que ele está um pouco desatualizado. Continuo sem saber de onde ele tirou idéia para escrever sobre isso, não que não seja extremamente importante e necessário, justamente pelo contrário. Mas o surpreender-se com a vida vem, muitas vezes, justamente dessas coisas que todos tomam como somente “para constar”.

 

Aliás, fazendo uma análise pessoal, tenho tendência a gostar das coisas que ninguém gosta, que gostar daquilo que dispensam, de gostar daqueles que são ignorados. É um mal que eu tenho, pelo jeito. Chego ao ponto de gostar daquilo que até eu mesma desconsidero. É um bom exercício, recomendo.

 

Não digo, com tudo isso, que devamos colocar os alunos do ensino médio a lerem Quine (só porque acho que isso nem eu mereci). Agora, não vamos subestimá-los. Também não vamos cair na vala comum de nietzschá-los, por favor. O curso de Filosofia da UFSC, para a Sepex deste ano, vai fazer trabalhos sobre ele para atrair jovens do ensino médio. Precisa? Achei que uma boa porcentagem dos que fazem vestibular para Filosofia já era motivada pelos textos do alemão cheio das frases de efeito. Filosofia, gente, serve também (e muito!) como auto-ajuda. Que o diga Schopenhauer, né?

 

Conheço poucos que abraçaram a carreira de professor de Filosofia. A maioria entocou seu diploma, muitos foram fazer o curso porque era mais fácil passar no vestibular e precisam de ensino superior para algum concurso ou coisa do gênero. Não há, também, estímulo para formar professores de Filosofia. Não acho que professor ganhe tão mal quanto alardeiam por aí. Sim, acho que médicos, políticos e engenheiros ganham demais. (é aquele velho abismo da desigualdade, tão nosso conhecido) E, por outro lado, médicos, políticos e engenheiros ajudam muito menos na formação das pessoas. Não é mesmo?

 

Infelizmente ainda são aceitos professores sem formação nenhuma na área para preencher as vagas. Esses e outros comentários sobre a situação real nas escolas ficam evidentes nos comentários do texto (sim, leiam com aquela ressalva e só se tiverem estômago forte, recomendação boa para a leitura de qualquer espaço de “comentários” na internet hoje).

 

Enfim, bom saber que há alguém se preocupando com isso e escrevendo sobre numa revista de maior circulação. Não gosto das coisas que ficam encarceradas nas salas de aula, escolas, universidades. Queria que pais lessem isso e pensassem nas aulas de Filosofia dos filhos. Queria que não os livros didáticos não fossem decididos pelo lobby politiqueiro de sempre.

 

Acredito cegamente que certas coisas mudam as pessoas e mudam a vida das pessoas. Sei que a Filosofia faz isso, até com alguns espíritos obtusos que andam por aí. E, afinal, o botão “surpreenda-se” está sempre aí esperando ser pressionado. Eu recomendo. (e nem gosto de ficar recomendando nada porque isso parece arrogância; peço licença por este excesso)

 

 

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2 comentários em “Sobre as aulas de Filosofia

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  1. Praticamente tudo que eu sei dos filósofos vieram do livro “O mundo de Sofia”, pois não tive nenhuma aula de filosofia, nem nas escolas municipais onde fiz o ensino fundamental, nem na tupy, onde fiz o ensino médio e técnico, e sinto que isso me faz muito falta, será ótimo se meus filhos puderem ter essas aulas sem precisar ser em escola particular.
    Sobre a justificativa do texto na Carta Capital, já vi em pelo menos 3 ocasiões crianças pedindo aulas de filosofia para todos. Os vereadores mirins de Joinville, outra vez na TV Câmara de Brasília e em um programa da TV aberta que trouxe crianças de escolas particulares para debater com crianças de escolas públicas e esse tema foi o mais debatido e com sentimento de urgência.
    No lugar de filosofia tive aulas de religião, e mesmo assim não consegui acreditar no cristianismo, rsrs
    E por final, eu adoro lógica, apesar de não saber se é no mesmo sentido do texto. Abs

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    1. Ivan, lembrei de você ao ler o texto da Carta Capital porque ele citava aquele texto do Kant que eu havia te sugerido.
      Sabe que eu nunca li “O mundo de Sofia” justamente pela teimosia que sinto com textos “explicativos” que às vezes até impedem que sejam lidos os originais?
      Se faz falta, se você sente falta de Filosofia, vá aos livros, é o que posso te dizer. Infelizmente nem sempre as aulas ajudam, podem até atrapalhar. Mas também espero que nossos filhos (pensei nisso enquanto escrevia) tenham boas aulas de Filosofia. Sinceramente prefiro isso às intermináveis e excessivas aulas de ligações químicas ou de cálculos de velocidade e vetores. Não acompanho esta discussão, mas é ótimo ver as próprias crianças exigindo aulas de Filosofia! Fiquei muito contente mesmo! Acredito que aulas de Religião (e todas as outras) sofram com problemas semelhantes, inclusive falta de formação dos professores. Eu adoraria que houvesse aula de religiões (sim, assim no plural) em todas as escolas. Acredito que seria um passo e tanto para o respeito – a quem tem alguma e a quem não tem nenhuma.
      Quando falei de Lógica me referi a coisas que vi na graduação, se tiveres interesse tem os livros do Cézar Mortari (professor de Lógica da UFSC), Introdução à Lógica, e do Irving Copi (se não me engano). Podem te interessar. E só posso dizer: leia Filosofia. Mas é um mundo que dificilmente terá volta! 🙂

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