O desassossego que o curta “Pouco mais de um mês” me causou

Estive no Festival de Cinema de Gramado por um golpe do Destino (o in anda num nível altíssimo) e um encontro me fez voltar ao Festival Internacional de Cinema de Curitiba, no qual estive em julho. Na oficina de crítica cinematográfica (a qual já mencionei aqui) nós assistiamos a vários curtas e escrevemos sobre eles. Sobre um em especial eu não consegui (ou não quis) escrever. E foi o diretor/protagonista e a protagonista dele que eu encontrei em Gramado. Senti que era, enfim, um sinal para que eu finalmente escrevesse sobre ele. Não que ele não tenha méritos para uma crítica, nem que eu já não tivesse escrito tudo mentalmente. Só lidava com alguns pontos delicados.

Quando um filme mexe mais intimamente conosco é que ele se torna mais difícil, e digo mais difícil no sentido de retirar certas partes pessoais da análise. Eu não sinto problema em escrever quando fico muito entusiasmada com as qualidades de um filme. Enfim, ontem ainda assisti a um filme que tinha tudo para ser uma bobagem ruim que eu iria adorar e terminei odiando-o – assim, sem ódio, mas com frustração. Era mais um sinal de que eu precisava escrever sobre “Pouco mais de um mês”.

O curta do diretor/protagonista André Novais Oliveira tem tanta relevância numa fórmula aparentemente banal que eu volta e meia me surpreendo. Vejam só, uns dias antes de Gramado eu presenciei (na verdade eu poderia ter participado da discussão, mas invariavelmente eu não concordo com as pessoas e já aderi ao “cálice” para evitar ser sempre tachada de “do contra” ou “chata”) uma discussão sobre o ato de fotografar. Afirmavam que o fotógrafo é aquele que se esconde. Discutiu-se sobre a timidez do fotógrafo e como o ato de colocar-se atrás da câmera é uma forma de sempre se esconder. Ora, colocar-se atrás das câmeras, pensei cá com meus botões, é talvez a forma mais explicíta de mostrar-se aos outros. Eu digo muito mais para vocês com aquilo que fotografo e filmo do que com as fotos e vídeos nos quais apareço. Me parece simples o raciocínio, porém não simplista. Eu digo muito mais com o olhar que eu exibo das coisas do que direcionando o meu olhar para uma lente.

E quando um diretor decide protagonizar o seu roteiro que é um relato da sua história pessoal? Quanto há de revelação e de escondição (desculpa, gente, faltou palavra e ando contagiada pelo vocabulário lindo de Saramandaia)? Quanto André Novais pretendia revelar com “Pouco mais de um mês” e quanto ele pretendia esconder?

Foram questões, confesso, que eu ainda não havia formulado completamente nestes termos. Num primeiro momento, ao final do curta, li os créditos e percebi que a estória era a história do próprio diretor e não gostei. Torci o nariz, digamos. Mas havia tanta coisa ali que eu não poderia reduzi-lo a isso. Quando encontrei-os pessoalmente em Gramado percebi a força do esconde/revela do por trás e pela frente da lente. Muitas vezes não temos a imagem do diretor de um filme que assistimos, mas reconhecemos a maioria dos atores (digo maioria porque eu sou meio tapada nisso e nem sempre reconheço – já passei por isso).

Nos primeiros minutos, um quarto na penumbra, câmera parada, leves movimentos de um edredom numa cama, vozes sussurram uma conversa banal. A expectativa pelo que virá a seguir prende a atenção, não a cena em si. Em alguns momentos parece que nada mais virá, que será um curta de casal, numa conversa banal na cama. As falas dos personagens são tateantes, titubeiam, se estranham. Eis que ele levanta e o mágico acontece. Ela mostra que pela fresta da cortina há uma espécie de câmera escura que projeta as imagens da rua no teto do quarto. Aquilo ali fascina, inebria, prende o espectador. E, por mim, não importa quantos minutos tivesse o curta, poderia ser só sobre aquelas imagens.

Senti uma pontinha de decepção quando eles saíram do quarto e voltaram à banalidade. E o curta, a relação dos dois, se resume a isso: banalidade de um relacionamento. Eles comentam como se conheceram, os indícios de que o casal está numa fase de rodeios para aferir quem é o outro são evidentes. Aí o título faz sentido. É aquele tempo de relacionamento, pouco mais de um mês, quando você já dorme (literalmente, não estou usando eufemismo para sexo) na casa do outro mas se sente um idiota ao derrubar água na cozinha que não é a sua. É aquele vai e vem, um terreno minado onde vamos pisando para ver aonde o outro esconde suas bombas. E o que isso tem de terrível e adorável, tem de banal. Todo o “conhecer o outro” tem isso. Nenhum relacionamento – curto, longo, médio, sério, divertido, arrasador, doloroso – escapa desta etapa.

No meio do diálogo deles surgem também os indícios de que eles estão em Belo Horizonte. O encontro deles foi no (belíssimo) Palácio das Artes, num festival de cinema. Gameleira pra lá, Afonso Pena pra cá. E, confesso, pela recente ida às Gerais e por uma meia dúzia de motivos que não cabe escrever aqui, talvez esta relação com Belo Horizonte é que mais tenha me travado para escrever sobre o curta. E, também, tenho esse bairrismo, todo mundo sabe. Já escrevi sobre isso quando citei a emoção de ver uma Joinville cinematográfica. Como também já comentei sobre não sentir mais nada ao ver imagens do Rio de Janeiro (e escrevi isso antes de conhecê-lo: acrescento que nada mudou). A referência àqueles lugares trouxe a banalidade a uma proximidade irresistível.

É extremamente desconfortável vê-los num impasse que, para qualquer um que já tenha tido um relacionamento, na verdade não existe. Ele não quer avançar os limites dela. Sabe o famoso “não quer atrapalhar”? Também não quer parecer algo que ela não goste. Ela, por outro lado, deixa claro que já teve outros relacionamentos e que distanciamento ou cautela é normal. É o momento de medir o outro, de medir o quanto quer mostrar de si mesmo. Talvez muitos filmes, entre dramas e romances, já tenham tratado disso. “Pouco mais de um mês” faz isso, num curto espaço de tempo e com uma situação dramática, só que de forma especial. Fica ainda mais especial quando você se dá conta de que é uma “história real”. Acredito que a escolha por protagonizar a própria história (a namorada do André atua como namorada) desvenda e responde à questão de que quem se “esconde” atrás da câmera na verdade se expõe muito mais. Digamos que André se superexpôs – sim, pensando no termo da fotografia.

Ao vê-los juntos em Gramado eu sorri. Então o relacionamento ia bem. Não foi só mais um caso mal resolvido que nos rende inspirações sem fim para a criação. Que bom. Além disso, me peguei várias vezes pensando qual havia sido o momento que despertara o argumento do roteiro. Será que foi a água espalhada pela cozinha? As imagens do teto do quarto dela? Ou a cena irretocável da espera do ônibus no ponto? (quem nunca levou o caso/rolo/amante/namorado até o ponto de ônibus não sabe o que está perdendo!)

Seja lá qual tenha sido, o banal estava presente. Por mim, teria sido mágico se ficasse apenas no quarto escuro. E eu teria adorado. Quando eles saem daquela penumbra mágica, lúdica, cinematográfica, para entrar num mundo tão cru, realista, idiossincrático, eu me senti deslocada. E foi isso o que o filme de ontem também fez. Não me contaram estórias cinematográficas, sonhadoras (como eu adoro), mesmo que não de conto de fadas, mas daquelas que agradam quem acredita tão piamente no Destino. Me levaram a ver o mundo mais próximo do que ele é. Me fizeram esquecer que havia ali uma tela a nos separar. Quando André abre a cortina (e quando o ator do outro filme faz as contas da diferença de idade entre ele e ela) ele apaga, coloca um “the end” ao mágico da vida (e do cinema), e joga a água fria e insípida da realidade na minha cara. A confusão, as frases soltas, o titubear, as incertezas, as cicatrizes, o desconforto, tudo vem à tona.

E o que dizer de mim, que amo tanto o cinema quando ele me leva para lugares que não existem quanto quando ele me joga as piores coisas da vida – qualquer coisa que seja ligada à realidade já basta – na cara? Mulher de malandro, no mínimo. Porque, afinal, a vida não é filme (já aprendi) e haja banalidade para ser feliz.

(Ps: não, isto não é uma crítica cinematográfica.)

(Ps: vocês sabem, o blog é desassossegado e é claro que um curta que causa tanto desassossego nesta alma que lhes escreve merecia umas palavras.)

(Ps: sim, escrevo críticas por aqui, sobre curtas, longas, coisas que assisto na TV, no comput, nos festivais. Ah, adoro assistir a curtas. Quem quiser me enviar algum ou indicar para assistir on line mesmo, só dizer. Provavelmente escreverei sobre.)

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