Maratona Fotográfica de Florianópolis

A pauta do blog é assim como eu, nada burocrática, coerente, certinha, planejada. É volúvel, na falta de palavra melhor. Já prometi, em alguns posts, escrever sobre coisas que nunca apareceram por aqui. Não tenho compromisso com nada e essa é a melhor parte.

Tenho ali uma lista razoável de coisas sobre as quais quero escrever e volta e meia uma pula a fila. Detesto fila. Nunca fico numa fila. Enfim.

Ocupavam meus pensamentos dois assuntos sobre os quais pretendia escrever, na verdade três, mas nenhum deles estava maduro o suficiente, ou eu não estava com tesão o suficiente e eis que me deparo com a data de hoje: dia internacional da fotografia. Olho para a pauta e lá está, desde maio mais ou menos, a Maratona Fotográfica. Então, lá vai.

Ano que vem fará dez anos que, meio sem saber, me joguei para a Ilha. E, talvez, no mês que completarei dez anos morando na Ilha seja a minha despedida. Quem sabe. Nesses quase dez anos, participei de várias Maratonas Fotográficas.

Escrevo pouco sobre fotografia. É uma paixão antiga. É um amor. É um vício. É um impulso. E nesses tempos em que ando meio econômica nas fotografias (afinal, números não me importam – a questão dos excessos era um dos posts mais cotados para hoje) é um prazer extra escrever sobre elas. Não, não vou jamais me meter nessas discussões sobre a popularização da fotografia com celulares e câmeras digitais, nem sobre o que se perde com querer fotografar e filmar tudo, nem nada disso. Sinceramente? Acho bobo. Minha relação com a fotografia vem desde muito antes disso. E na minha família fotografia sempre foi assim. Por isso também que acho bobas essas discussões. Tenho pensado tanto nas “economias” que até sobre discussões tenho ponderado se valem a pena ou não. Vejam só. Nem eu me reconheço.

Bem, não lembro ao certo qual o ano que participei da Maratona Fotográfica de Florianópolis pela primeira vez. Lembro bem quando soube da primeira (não conhecia o evento), já meio instalada na Ilha, li uma notícia sobre, até me empolguei, mas não tinha câmera na época (boas histórias sobre isso) e me deram banho de água fria (como sempre quando se trata das pessoas a minha volta – mas já aprendi a lidar com isso). No ano seguinte, participei.

E digo: foi sensacional. Aliás, digo sobre todas as vezes que participei: foi sensacional.

Desde essa primeira vez, só não participei um ano. Motivos nada nobres, num período que tentei assumir outras vidas. Não eram pra mim. Voltei.

Participar da Maratona Fotográfica é uma experiência muito especial. Eu digo que é redescobrir a Ilha todo ano em dois dias. Sim, redescobrir porque de vez em quando, desde que pus os pés decididos a morar na Ilha, sempre me atiro a vê-la, descobri-la, senti-la, vivê-la. É das top cinco coisas que mais me dá prazer na vida. Segui sempre pelos meus passos, minhas vontades. E isso é importante pra mim.

Viver a Ilha é senti-la, olhá-la. E para o fotógrafo isso é essencial. Como eu dizia no post anterior, o fotógrafo diz muito mais dele do que qualquer ator ou modelo fotográfico. Nem quando escrevo digo tanto de mim do que quando fotográfo. Sabe, eu manipulo as palavras. Eu jamais usei programas para manipular imagens. Me contento com os recursos das câmeras, meus olhares e tudo isso que está aí em volta. Não sou, claro, fotógrafa de one shot. Com a maravilha da digital é possível escolher a melhor. Mas vim dos tempos da analógica, com moeda contada pra comprar filmes 24 poses e, bem, não dava pra desperdiçar.

Sim, sou conservadora neste ponto e prefiro as fotografias sem manipulação. No que, aliás, a Maratona é exigente.

Tradicionalmente a Maratona se resume a dois dias, algumas fotos (pode variar de ano para ano, entre doze e vinte e quatro), temas (às vezes amplos, outras vezes nem tanto), uma verdadeira correria e boa disposição. Uma vez foram realmente vinte e quatro horas initerruptas. Foi a vez mais desgastante. Pelos temas você percebe algumas intenções, afinal ela é promovida pela prefeitura. Mas desde a primeira vez que tive contato com a Maratona, a idéia que mais me chamou a atenção é “ver uma cidade que não é vista”, como foi a proposta deste ano. Por isso, não se fecham os olhos para os problemas da cidade, nem só se pensam as fotografias sobre o progresso e belezas. Eis o que me parece mais importante numa proposta dessas.

Fotográfos de qualquer lugar podem participar. Câmeras de qualquer tipo. Normalmente há divisão de grupo entre câmeras digitais e analógicas, às vezes entre profissionais e amadores.

Não participo pelos prêmios (só eu, né? como dizia um personagem de um filme ontem: é o único político que não se importa com dinheiro). Adoraria ganhar, é claro. Mas o desafio, a diversão, a correria, as fotografias: isso é que me interessa. Já ganhei prêmio por foto individual quatro vezes, se não estou enganada. Para ganhar conjunto acho que só estive no páreo uma vez. Não é fácil.

Ano passado fiz uma pesquisa no acervo da fundação cultural sobre as fotografias e apresentei uma exposição num evento sobre História Pública em São Paulo. Vasculhar as fotografias das maratonas de antes é um exercício maravilhoso para quem ama Florianópolis – e fotografia. A história da Maratona é preservada e permite muitas análises sobre a cidade, a cultura. Fico muito contente que a Maratona já esteja consolidada na nossa agenda cultural. Às vezes fiquei com receio que não fosse ter no próximo ano. Felizmente ainda não aconteceu isso.

Este ano duas coisas me fizeram querer escrever sobre a Maratona. Logo no começo do ano recebi um e-mail dos organizadores (mudou o prefeito, mudou tudo) perguntando quais sugestões ou críticas eu teria para eles considerarem para a de 2013. Eis que elogiei e fiquei com receio de grandes mudanças – às vezes posso ser muito conservadora, mas aí adoro mudanças e me adapto fácil. As mudanças não foram tantas, teve pela primeira vez uma especial para a participação de crianças, e eu fui, fotografei, me diverti, aproveitei, corri. Fiquei, novamente, feliz por ganhar uma individual.

A foto que ganhou não era, nem de longe, um elogio às belezas da cidade. É uma boa fotografia, dentro do tema. Eu gosto particularmente dela por alguns motivos. Aliás, ela até tem uma história. E por isso fiquei mais feliz por ela ter sido premiada. Eis o primeiro motivo, uma foto que “denunciava” (não gosto do termo) um problema da cidade foi premiada. Em alguns anos eu percebi que isso teria sido ignorado. O segundo motivo foi que, além da já conhecida exposição em algum espaço fechado da cidade, elas foram expostas em plotagens pelo terminal de integração do centro, o TICEN. Idéia sensacional. Eu sou cada vez mais contra que arte e cultura fiquem encarceradas em salões, galerias e afins. Recebi um e-mail da organização contando que eles fariam isso, mas como estava fora da Ilha, demorei uns dias até vê-la. Qual não foi minha surpresa ao ver a minha fotografia bem no pilar em frente ao ônibus que pego para ir para casa. Ganhar as ruas é uma emoção a mais. Ver as pessoas observando as fotografias é muito bom. As coisas precisam alcançar os outros. Como muitos escritores dizem, livro não é livro se não for lido. Eu diria isso sobre todas as artes, sobre toda produção cultural – e é no que muito insisto aqui, sobre audiovisual principalmente.

Eu não colocava fé no César Souza Júnior. Mas algumas atitudes dele como prefeito são boas. Infelizmente é política, e a ação da fundação cultural tem ligação com política. Não dá pra escapar. Porém, como diz lá o Aristóteles, só depois de morto é que podemos fazer juízo de alguém. Gostei das ações sobre a Maratona, como gostei que tenham tirado a fundação do Forte Santa Bárbara para lá instalar um museu da Marinha. Por que citar política neste post? Porque minha ingenuidade ficou lá atrás e sei que essas mudanças na Maratona vieram com uma mudança generalizada na organização do órgão cultural da cidade. Devo elogios à organização e às mudanças.

Voltando às fotografias…

Nunca tive equipamento sensacional de fotografia. Não acredito que só a câmera que faz as fotos. Conheço fotógrafos medíocres com equipamentos de ponta. Conheço fotógrafos sensacionais com câmeras fuleiras. Uma vez participei da Maratona e encontrei dois colegas do curso de Artes Visuais da UDESC, eu e um outro ganhamos em individual, ao que o terceiro que não havia ganhado (e tinha um puta equipamento) disse “ah, ano que vem eu ganharei porque vou ter um equipamento melhor”. Mal sabia ele o “equipamento” que eu tinha. Não é isso que ganha. Que faz diferença, em alguns pontos faz. E só. Fotografia, diz a própria história dela (só ver o motivo da comemoração da data de hoje), é muito mais que tecnologia.

Sobre as dificuldades… bem, não sou fã de muletas. Com excessão de uma vez que tive um carro para me levar pra lá e pra cá, participei todas as vezes de ônibus e a pé. Simples assim. E, aliás, mais adorável assim. Dispenso o carro. Sim, pegando ônibus na Ilha inclusive no domingo que é o dia da entrega com horário limite. O conforto e a praticidade não ganham meu coração. Gosto do visceral. Pode parecer discurso de looser, mas, enfim, quem me conhece sabe. Eu sei. E isso basta.

Acabo um fim de semana cansativo de Maratona feliz com novas fotos, gostando inclusive das que acabo nem escolhendo para enviar. Já me surpreendi e ri muito de uma das premiadas. Porque é assim, tem que sentir, ver, fotografar. A fotografia está nas pequenas coisas.

Sobre a premiada deste ano: caminhava pela Baldicero Filomeno, voltando de subir um morro para fotografar uns temas, quando começo a fotografar o esgoto a céu aberto. Fotografo de lá, de cá. Passa um senhor de bicicleta e fala alguma coisa. Eu evito prestar atenção, como faço com qualquer um que tente gracejos e afins na rua comigo. Mas ele pára e pergunta porque estou fotografando (não, eu normalmente não uso a camiseta que nos identifica como participantes da Maratona por motivos pessoais). Eu explico. E ele me conta a história da vala. A comunidade já reclamou dúzias de vezes para a prefeitura. É completamente aberta, risco de pessoas caírem, doenças, bichos. E naquela semana a prefeitura tinha mandado o cara cortar a grama em volta da vala, mas ele tinha cortado e deixado ali, ou seja, com o vento o mato estava caindo na vala e entupindo alguns pontos. As pessoas já tinham reclamado novamente e ele, ao me ver, pensou que eu era da prefeitura ou ia denunciar. Conversei com ele sobre o tema que eu fotografava e ele ficou feliz. Disse que tinha mesmo que mostrar aquilo ali que ninguém via. Agora, senhor (não perguntei o nome dele), posso te dizer que muita gente viu. Muitas pessoas viram na galeria, viram no TICEN. E vão ver aqui.

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Fotografia é um dos amores da minha vida por isso: é tanta coisa junto. Eu gosto das coisas assim, que não são únicas, que são tantas em uma só. E isso serve também para as pessoas. 😉 Serve pra mim. Não dá pra ser só uma coisa. Nunca.

(ps: as fotos mais “esteticamente” belas que já tirei nas maratonas não foram, à exceção de uma, premiadas, e isso é algo altamente elogiável.)

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