“I´m not drunk, I´m just crying in english” a igualdade e suas Flores Raras

Na ida, subindo a minha velha conhecida Barão do Cerro Azul, reparei num casal. Jovens, recém passados pela adolescência, ele caminhava abraçando-a por trás, os dois agarrados, riam. Na volta, sinaleiro fechado, na esquina, paradas entre tantas pessoas, duas moças, da mesma faixa etária do casal da ida, de mãos dadas, carinhos e afagos pra lá e pra cá. Fiquei me perguntando onde estava, afinal, a diferença que tantos vêem. Casais são casais, simples assim.

Dias antes eu havia me redimido de um erro que praticava e que até citei num post do ano passado por aqui. Fui ao cinema assistir a um filme nacional. (sim, confesso, sessão dupla com um argentino, mas estou melhorando) Eu não ia ao cinema, mas, enfim, a vida se encarrega dessas coisas. A escolha foi Flores Raras.

E eu lá, sala praticamente vazia, sozinha no meu lugar de sempre, em alguns minutos de filme pensei: preciso escrever sobre ele.

Flores Raras não emociona. Flores Raras é um filme brasileiro majoritariamente falado em inglês, com atrizes estrangeiras (não estranhe o LEG no ticket do cinema). Porém, uma grande atriz brasileira quase subaproveitada no cinema e que divide o protagonismo da trama é quem garante excelentes momentos. Glória Pires é forte, se impõe, diva (como dizem) sem divar (sem a frescura que se espera de um papel ou de uma atriz “diva”).

Fiquei na dúvida, em vários momentos, se a personagem da Glória Pires – Lota, uma arquiteta auto-didata brasileira, responsável pelo projeto do Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro e, para mim, mais uma ilustre figura da nossa História que eu desconhecia – não representava o papel clichê da homossexual “machona”. Muita gente ainda (e não é só por questão de preconceito) vê os relacionamentos entre lésbicas como uma “mulherzinha” e uma “machona”, aquela coisa de quem é o homem e a mulher da relação. Por ainda existir este tipo de visão que talvez tenha me incomodado que o personagem resvalasse para esta concepção. E foi o que eu mais li nas críticas por aí, que a relação entre ela e Elisabeth Bishop havia se dado pela força da primeira e fraqueza (ou sensibilidade) da segunda – e que, em determinado momento, se inverte. Sinceramente, este tipo de crítica parece esvaziar, minimizar a relação entre as protagonistas.

A relação entre Lota e Elisabeth é o comum – a maioria dos filmes, novelas e livros têm histórias semelhantes. Talvez um pouco diferente seja a relação com a outra ponta do triângulo, a colega da escritora e com quem Lota morava e mantinha um relacionamento amoroso antes de conhecer Elisabeth. O mais curioso no filme é que a qualquer momento você pode substituir a personagem de Glória Pires por um homem. Em outros tempos talvez um diretor o tivesse feito “inspirado” ou em “homenagem” à história real das personagens por receio de colocar um casal homossexual tão forte nas telas. Felizmente, apesar dos pesares da nossa sociedade, não foi o caso.

Pareço me contradizer, eu sei. Não é o lado “comum” da relação que esvazia a construção das personagens. É justamente assim que o filme alcança sua grandeza. É por tratar uma relação homossexual da forma como estamos “acostumados” (sempre desconfie dos costumes) a ver uma relação entre homem e mulher no cinema que ele esmiuça preconceitos e pré-concepções – talvez até aversões. Fiquei aqui remoendo um adjetivo para descrever como o diretor faz isso, difícil encontrar. Naturalizar talvez venha a calhar, digamos que ele naturaliza a relação homossexual ao equipará-la às relações heterossexuais que são maioria esmagadora nos filmes de ficção. Acredito que isso pode incomodar quem ainda abraça preconceitos.

Um ótimo exemplo são as (quase) cenas de sexo. Quando Lota e Elisabeth saem no jipe para ver as corujas e ficam sozinhas pela primeira vez, a personagem de Glória Pires a beija e rola uma mão boba. Numa outra cena, as duas se beijam com ímpeto e Elisabeth já menos “inibida” joga Lota contra a parede de vidro. É uma cena de agarramento, só isso. Na cena de sexo mais propriamente dita há o clichê do sexo oral, enquadra a personagem deitada com expressões de prazer e câmera frontal “em cima da barriga” focando o vazio e aparece o rosto da personagem subindo. Só isso. Assim, tão “hétero” quanto outro filme qualquer.

Num momento em que se exarcerbam as diferenças, eu tendo a admirar, ainda, quem aponta as semelhanças. Claro que seguinte a concepção de igualdade entre diferentes do Aristóteles. Mas me causa estranhamento e aversão (apesar de até conseguir compreender certos posicionamentos agressivos e sectários) querer diferenciar o negro do branco, o homo do hétero, o rico do pobre e por aí vai. Pode ser uma visão simplista ou até ingênua, contudo, ainda acredito que frisar e enaltecer as diferenças só aumenta o abismo já existente entre os “lados”. Se um filme exibe uma relação homossexual de forma mais crua, com o que ela tem de mais “diferente” (e aqui não vou me alongar nas possibilidades, mas ando curiosa com o Tatuagem, por exemplo), a probabilidade de aumentar o preconceito, a aversão e afastar o público é grande. Flores Raras faz justamente o contrário. Mostra com destreza que relacionamentos são todos iguais.

Se é uma escolha para torná-lo mais palatável ao gosto do grande público? Não sei. Vindo do Barreto talvez seja. Cabem críticas ao filme, sem dúvida. A única coisa que eu realmente considero que ele deixou a desejar foi a forma como tratou a questão política do contexto e a rapidez com que se deu o desenrolar final da história. Sobre o primeiro ponto há outras críticas por aí, na Cinética inclusive. O final conta com um melodrama de cartas não enviadas (não sei se ocorreu na história real) que parece desnecessário e bobo. Há um breve atropelo nas sequências após a briga delas em Ouro Preto. Foi o que me incomodou de fato.

Além do mérito de “naturalizar” (péssima palavra, mas me falta uma melhor) a relação homossexual, melhor ainda é a construção dos personagens. As três, Elisabeth, Lota e a outra ponta do triângulo (não recordo o nome), tem atuações e construções maravilhosas. É assim que se constrói uma relação num filme, com entremeios, altos e baixos, nuances. Tentar simplificar ou linearizar relações afetivas na ficção sempre soa falso. As pessoas não são assim – por que os personagens teriam que ser?

Se a intenção era agradar ao grande público, acredito que acertou. Mas também não desgosta aos mais impertinentes (como eu). Se é um bom candidato à indicação ao Oscar? Não tenho dúvida. Se é um bom candidato ao Oscar de filme estrangeiro? Acredito realmente que sim (e não só porque é falado em inglês, o que já pode ter sido feito pensando nisso, como bem sabemos). Não teria críticas à indicação, nem a uma possível estatueta. Aliás, acho muito concebível a indicação da Glória Pires. Apesar de a personagem da Elisabeth ter um maior destaque, Glória Pires encontrou uma força incrível em todas as cenas. Nunca fui fã dela, talvez prejudicada por papéis da TV que tendem a se repetir e os quais acompanhei pouco.

A locação da casa da Lota é linda. A história da criação do Aterro do Flamengo é interessante (Lota, inclusive, é acusada de elitismo ao pensar um lago como o do Central Park – e isto me lembra o próximo post – pois no Brasil ser acusado de elitismo por pensar e desejar coisas interessantes é comum). Eu gosto do ator que faz o Carlos Lacerda (e não sei o nome dele – já disse, sou péssima com isso). Apesar de poucas externas num Rio de Janeiro de época, ele em nenhum momento torna-se sufocante. As denúncias da nossa cultura são sutis, mas não passam despercebidas como a compra (literalmente) de uma filha para a ex da Lota – cena dura, que nos deixa desconfortável e ao mesmo tempo, ao acompanhar o crescimento da menina, nos faz ter aquele pensamento cruel “será que não foi melhor assim?”. Há, porém, algo que me fez revirar os olhos e pensar “mas precisava?!” (o que sempre me lembra uma mania de diretores de novela da Globo e do Olga naquela cena final na qual ela olha para trás, antes de morrer, e se vê criança): quando Elisabeth encontra Lota morta, há um corte para o Aterro do Flamengo e as luzes piscam (ou se apagam, não sei). Pra quê?!

Eu também não conhecia a obra da Elisabeth Bishop nem muito da relação dela com o Brasil. É intrigante acompanhá-la com os olhos de uma boa americana em terras tupiniquins. Como também é fácil ser despertado para a obra dela ao assistir como nasceram alguns versos. Tudo isso para além da discussão sobre as almas do poetas e criadores, suas fragilidades e crueldades.

“I´m not drunk. I´m just crying in english.” é só uma das célebres frases dela. Ao contrário do que faz o filme, marcando a vida de duas personagens reais interessantíssimas, Elisabeth diz, num certo momento, que os leitores não devem conhecer os escritores. Frase que me levou a vários caminhos – inclusive enquanto eu caminhava pela Barão do Cerro Azul. Ainda não cheguei a uma conclusão, mas seguindo um pensamento do Moravia, tendo a acreditar que os leitores nunca estarão preparados para conhecer os escritores. Enquanto isso, o cinema é mais eficiente em nos contar histórias sobre quem escreve – assim poupamos escritores e leitores.

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