“O Tempo e o Vento” em tempos de inadequação…

Entrei no ônibus e já me sentia arrependida de ter convidado a amiga para ir ao cinema comigo. Desde o ano passado que vivo um conflito interno à espera do resultado final de uma adaptação para o cinema, pelas mãos do Monjardim, do monumento que é “O Tempo e o Vento”. O arrependimento não se explicava só por eu gostar da solidão das salas de cinema, mas porque eu temia que minhas reações (eu tenho reações durante os filmes) não fossem partilhadas ou sequer compreendidas. Tratava-se, para mim, de algo sério, profundo, porque são aquelas coisas que importam de tal maneira para nós que ninguém há de dar o mesmo valor.

Assim, já deixo avisado de antemão que minhas palavras serão embargadas de emoção. Pois minha relação com o Erico é pautada principalmente por ela, além da enorme admiração, e, felizmente, o filme não me afastou dela – a emoção.

Explico-me. Amo o Erico. Num tempo perdido em datas, li um trecho de “Um Certo Capitão Rodrigo” no livro de literatura e português da escola, bem o começo do livro com o famoso e inesquecível “Buenas e me espalho!”. Li aquela página de texto, olhei referência e, criança impressionável e curiosa que sempre fui, matutei. Algo me marcara naquele texto. Poucos dias depois, vasculhando os livros de minha mãe, encontrei o tal “Um Certo…”. Qual não foi minha alegria e, ainda criança, passei a tarde e começo da noite com ele. Nos anos seguintes, quando me faltava livro para ler, lia-o novamente. E fui descobrindo outros Ericos nas prateleiras de minha mãe e de minha avó. Era amor. Amor que dura já meus poucos anos de vida inteira. Mês passado ainda escrevi aqui sobre o último Erico que estava lendo, O Prisioneiro. Porque ele é o único autor que reluto ler todos de uma vez, com sofreguidão. E, assim, o Capitão Rodrigo tornou-se um amor que eu provavelmente nunca conseguirei devotar a alguém de carne e osso – Erico acabou com minha vida amorosa e eu nem me importo. Ana Terra é a inspiração para um sonho que eu tenho de uns quase dez anos e que, por coincidências do Destino, começou a tornar-se realidade nos últimos meses. Erico faz parte da minha vida. É daqueles que já se foram com o qual eu gostaria de ter uma conversa num lugar qualquer do mundo, nem que fosse para poder dizer o quanto ele já fez por mim. Nem estas palavras conseguem exprimir o que foram, então, todas as obras do Erico para mim. E era com o coração apertado que eu seguia para o cinema.

Eis que após os letreiros explicativos (desnecessários? provavelmente, e disso o próprio roteirista tem consciência), surge Fernanda Montenegro como a Bibiana envelhecida e Thiago Lacerda como Capitão Rodrigo – este que nunca envelheceu e jamais poderia. Numa visita atemporal, durante o cerco do casarão dos Terra-Cambará, os dois se reencontram. A entrada do capitão durante o cerco assemelha-se à chegada dele à cidade de Santa Fé pela primeira vez, garboso, distinto, desafiante. Os dois se encontram e conversam. Eis que então Bibiana começa a contar a saga dos Terra. Pois que a dos Cambará será sempre só e somente a de “um certo” Capitão Rodrigo. Fernanda como Bibiana será a narradora (e eu que sempre implico com narradores em filmes, dou o braço a torcer: foi mais uma idéia genial do roteiro para contemplar a grandiosidade da obra do Erico) e o filme voltará sempre para ela e o Capitão no quarto.

A amiga olha pra mim e diz: tu já está chorando e é só o prólogo! Pois sim. Me emocionei com a materialização do Capitão Rodrigo e de Bibiana idosa. Eles eram personagens meus. E nem nos meus sonhos mais extraordinários o Capitão Rodrigo teria as feições e o corpo do Thiago Lacerda – por favor, não que eu tenha achado ruim! Vê-los materializados foi a primeira emoção. E no prólogo já é possível perceber algo que será mais uma das coisas fantásticas do filme: os gestos. O encontro dos dois é permeado de toques, carinhos – repare bem no dedão de Fernanda acariciando a ponta do bigode de Thiago – uso completo do corpo. O amor de Bibiana e Rodrigo é exposto ali sem firulas por Bibiana ser uma idosa. A cena relembra os reencontros deles, todas as vezes que Rodrigo sempre voltava. Mas, me adianto.

E era sobre isso que eu precisava escrever.

Eu posso fazer algumas colocações sobre a fotografia, realmente muito boa, talvez previsível para o filme que se passa nos pampas em questão de enquadramentos e luz. Há excessos, há planos detalhes totalmente dispensáveis (e o diretor deve saber disso), numa tentativa de dar ares de “épico” sem necessidade. Eu realmente achei que o Monjardim poderia estragar tudo. E, vejam só, eu que sempre critiquei tanto “Olga” principalmente por aquele “fantasma” dela criança no final, fico aqui babando elogios por uma história que começa com a visita de um fantasma. Pois bem, no mundo do Erico eu compreendo estas presenças – quem não lembra da roca sempre a fiar à noite? A roca da mãe de Ana Terra foi uma das “imagens” que mais me prenderam ao ler a história dela. É um mundo de presenças. Uma das críticas que li antes de assistir ao filme foi sobre parecer “episódico” ao tentar ser um épico. E ele realmente é episódico, a cada episódio desses a narrativa volta ao quarto de Bibiana. Confesso que isso não me incomodou. Talvez porque nesses momentos podemos acompanhar a relação dela com Rodrigo, que não é “desenvolvida” no episódio deles. Talvez por eu guardar com tanta ternura a relação de Rodrigo com Bibiana é que eu tenha tido um deleite especial com estas cenas.

Da parte dos Terra temos a origem mítica do Pedro, enquanto da parte do Cambará temos a ausência de origens. E é esse o laço da relação Rodrigo-Bibiana. Esta, por sinal, é constantemente comparada (no livro) à Ana Terra, no jeito, na tempestividade, nas decisões, até na voz. Ana Terra teve também sua história de paixão, mas intensa, carnal. Bibiana encanta o capitão pela sua doçura, inocência. É um encontro improvável. É um amor reprovável.

A obra hercúlea de adaptar o livro para o cinema coube ao Tabajara Ruas e à Letícia  Wierzchowski (do “A Casa das Sete Mulheres”, lembram?). Acho curioso que não citem isso nas críticas e notícias. Monjardim fez o trabalho “menor” neste caso. Tabajara é, como pessoa e profissional, sensacional. Tive o prazer de ouvi-lo falar pessoalmente sobre esta adaptação. Na verdade, meus elogios vão diretamente ao trabalho dele que soube adaptar, muito mais que a história, o “estilo”, o jeito, do Erico contar histórias. Tabajara soube colocar certas falas (muito mais do que diálogos) marcantes do livro nos momentos certos para dar a devida grandiosidade da narrativa sem precisar se prender a inúmeras ações dos personagens. (e eu sabia algumas das falas de cor, repetia durante o filme, estimulada pelas cenas lembrava daquelas palavras que li há tantos anos…)

É preciso reconhecer que há um evidente esforço do roteiro em tornar o capitão Rodrigo um herói. Bem, ele é, mas… No livro acompanhamos a angústia do casamento de Bibiana com o coração na mão cada vez que Rodrigo vai jogar, quando a trai inúmeras vezes e em todas as suas escapulidas. Bibiana sofre. Sofre calada e forte e como ela mesma diz ao pai, nunca reclamou de nada nem de ninguém. Todas as “más ações” de Rodrigo são condensadas em duas sequências, quando ele expulsa um cliente pois não suporta mais vender purgantes e sai para jogar e beber (irritado porque o bebê não pára de chorar) na noite que a filha adoece. (no filme eles têm só Anita e Bolívar, Leonor não aparece – esta, aliás, tem o nome de uma paixão da adolescência de Rodrigo) O que falta ao capitão não é caráter, pois isso ele tem de sobra, mas ele sofre de algo compreensível (e, ah!, como o compreendo!): inadequação. A morte de Anita lhe arranca do peito um gemido doloroso em resposta a todas as acusações que podem lhe fazer. Ele é um homem de paixões, um homem de guerras – não é um homem de ficar atrás do balcão.

Mas falo demais. Pois eu só queria dizer que o mais magnífico no filme são os silêncios. Pouco se fala. Bibiana jovem tem uma dúzia de falas. O roteiro foi tão fiel às falas que soube usá-las magistralmente, inclusive na narração da Bibiana. E é assim que o filme se aproxima do “estilo” do Erico. A cena mais significativa é a noite de núpcias de Rodrigo e Bibiana, quando os dois deitam, se beijam e há um corte para o rosto – só o rosto – de Bibiana como Fernanda – e ali fica a câmera, a captar tudo naquela expressão. As cenas de sexo não são frequentes nos livros do Erico, e esta em especial ele descreve com uma poesia e uma força inigualáveis ao compará-la a um banquete ao qual o capitão vai com “calma” mas não esconde sua “sofreguidão”. É um parágrafo. E é demais! Aí é que eu digo que o roteiro se aproximou tanto do “estilo” do Erico, na maestria de conduzir a história. O mesmo se passa com as duas vezes que o capitão “volta” (uma de Rio Pardo quando ele vai fazer compras para a venda e outra da guerra) e grita ao longe “Bibiana! Bibiana!”. Nós sentimos a emoção dela vibrando ao ouvir aquela voz. O roteiro soube captar exatamente a mesma emoção do livro. Bibiana jovem, aliás, é muito bem interpretada pela Marjorie Estiano, com uma graça quase infantil, uma paixão devota ao seu capitão. Os silêncios são bastante evidentes na história de Ana Terra, pois há uma incomunicabilidade inerente àquela família no meio do nada onde aparece um índio ferido – todos eles economizam palavras.

É um filme de silêncios e gestos. Thiago Lacerda cabe ao papel de transformar o capitão Rodrigo num herói, apesar de eu sentir falta dos “olhos de rapina” – porém o sorriso dele cai feito luva no charme indescritível e sedutor do capitão. Fernanda e Thiago estão perfeitos. Os detalhes de um roteiro tão atencioso me deixaram comovida – vide a viola do capitão que fica no quarto de Bibiana e a medalha que ele usa na farda quando se casa (reparem como isso aparece no livro e nas imagens, para um espectador desatencioso pode passar batido). Do núcleo Ana Terra só a Cleo Pires me incomoda com aquele estilo “eu sou gostosa e pronto” o tempo todo. A minha Ana Terra é alguém mais seca, mais inconsciente de si (que é, aliás, o mote para a relação selvagem dela com Pedro).

Talvez seja esta, enfim, a crítica que tenho a fazer. Erico é ácido. Erico tem um quê dos russos. Tabajara é um romântico. E essa diferença pesa quando vemos o Capitão Rodrigo tão heróico de um enquanto no outro a cena da morte dele não é descrita – no filme ele desafia o velho Amaral e é alvejado pelas costas por Bento, seu inimigo (aquele da perninha do R! como esquecer?!); no livro ele deixa Bibiana e só depois vem a notícia da morte dele ao ter invadido de assalto a casa dos Amaral. “Poderiam dizer o que quisessem, mas ele tinha voltado pra mim.” (mais ou menos assim) a frase final de Bibiana… quantas vezes eu li esta frase em meio a alguma madrugada que me angustiava?

Fiquei encantada com o Rodrigo bisneto, um menino ruivo e lindo (menino ruivo! me derreto! quero um pra mim, já disse!), que será “doutor” na sua volta à cidade (algumas páginas adiante). E fiquei me perguntando se, Monjardim ou quem sabe o próprio Tabajara que é tão excelente escritor e roteirista quanto diretor, farão um filme dedicado ao O Retrato (parte de O Tempo e o Vento), pois as partes de Ana Terra e do Capitão são sempre as mais comentadas e adaptadas de todo O Tempo e o Vento, mas há outras tão boas quanto – sabemos que pesa a questão “heróica”, de “formação de um povo”, menos “contemporânea”. Depois desta experiência, confesso que passei do temor ao desejo de ver mais histórias do Erico nos cinemas.

A amiga sofreu, é claro. Ela fazia um comentário ou outro e eu já partia pra grosseria. Num momento comecei a comer de nervosa que estava (a história da Ana Terra me angustia) mas a partir da chegada do Capitão à Santa Fé nós duas vidramos os olhos, ouvidos e corpos na imensidão da tela e ali ficamos entre suspiros e revoluções do espírito.

Escrevi e reescrevi este texto algumas vezes, revi, reli… e queria comentar mais umas cenas, falar do duelo do Capitão com Bento, do Juvenal – personagem rústico e de maior presença no livro e talvez menos valorizado no filme, da Maria Valéria – mais uma personagem feminina fantástica do Erico mas que aparece mais depois do O Continente, do cenário da casa da Ana Terra – o melhor do filme, disparado, da ausência de citações a Bento Gonçalves, da minha concordância que há uma “pressa” no “episódio” do capitão, enfim, tantas outras coisas que comentei com a amiga (eu sou um porre pós-filme, confesso e poucos sabem) e nas quais volta e meia me pego pensando durante os dias. E, mais forte ainda, como me encantaram as cenas de Bibiana/Fernanda e do capitão – e acho que não tenho como explicar os motivos.

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