Quando acontecem coisas naturalmente românticas

No mundo da ficção não falta luz. Ou, quando falta luz, acontecem coisas românticas. Eu gosto de coisas românticas. Naturalmente românticas, não planejadamente românticas. É preciso acreditar demais no Destino e desconfiar demais das pessoas para pensar assim. E no meio do meio do dia eu só queria chamar alguém de biltre. Até ontem à noite queria braços e pernas e pescoços e cabelos para afagar. Tudo planejadamente romântico. Desculpem o intervalo, estava cá vasculhando quando não fui planejadamente romântica. Nunca? Nunca, bem está. Anoto mais esta culpa. Consequência da impaciência, das brigas constantes com o Destino, dá má interpretação dos sinais, de sempre supor-me muito mais carne do que alma e coração (e, apesar de por última, talvez seja esta a maior causa da culpa).

Suponho-me sempre muito mais carne, esta que envelhece e apodrecerá como um dia me lembrou uma amiga, e com veemência ignoro-me do resto. Aquele resto que não se vê – e São Tomé que sou, tenho dúvidas quanto à existência. Por isso, esses dias brindava vinho à frieza e fortaleza que trago invisível no peito. Visível era o decote do vestido tomara-que-caia vermelho. (E também assim me sentia invisível.) O vinho doce, a comida boa, o corpo se regozijando. Palavras tão fáceis da boca pra fora. E, quem sabe, não há brinde que salve. Não há falta de luz que acenda qualquer bobagem de “luz interior”. Não há. A ficção, sim ela, aviva… faz quase São Tomé acreditar que há algo aqui dentro. Eu teria sido daqueles jovens românticos de outro século a beber, comer, ficar endividado, jogar, e loucamente – naturalmente ou planejadamente? – morrer antes dos vinte. Seria, então, o caso de só o naturalmente romântico a tirar as dúvidas de São Tomé? Já mergulhei em tantos devaneios a crer que sim. Alcançaria o estado de suspirar pela falta de luz como se nem notasse e jamais quereria chamar alguém de biltre?

E sem querer citar, sinto como se todo deleite fosse obsceno. Desculpem o intervalo – estava cá a lembrar que o corpo padecerá. Como diz a canção, nem o diabo quis negociar minha alma vendo um mau negócio. Curiosamente desejo as coisas naturalmente românticas – seriam elas a dar algum valor à alma? Tenho pilhas de perguntas que talvez encontrassem respostas. Sei que das coisas planejadamente românticas já tirei todas as dúvidas e conclusões. Este intervalo foi longo, eu sei. Estava pensando se colocarei um ponto final. Caberia um ponto de interrogação no final, é verdade, mas considero muita pretensão. Estava pensando, também, se este bebê que chora foi fruto de algo planejadamente ou naturalmente romântico. Na verdade, primeiro há que se questionar se foi romântico. Os poetas daquele outro século também hoje se matariam, mas não pelos mesmos males. Fui ver que há um relógio de pulso ainda com pilha que me garante que tudo continua seguindo. A falta de luz, então, só interrompeu meus pensamentos. Já não sinto vontade de chamar alguém de biltre. Sinto que nem tenho mais vontade de que a luz volte. Lembro do brinde. Do brinde e do vinho. Nem o vinho esquentou-me ou abriu brechas na fortaleza. Será preciso mais que isso. A ficção, sim, me atira dúvidas no corpo que deseja e envelhece. Calma, procuro o ponto final, e confesso que sinto-me mais distante dele. A luz não voltou – faltam-me, de fato, as coisas naturalmente românticas para ignorar isso. Como ainda há relógio, não há fuga. Arrisco-me a dizer que sairei com uma fresta de esperança a desejar coisas naturalmente românticas – no acaso, no acidente, no imprevisível. É um risco. E digo isso porque não encontrava peça que encaixasse com peça, em mim, nos últimos tempos até faltar a luz e eu esquecer o biltre-ninguém e perceber o brinde e a ficção e as coisas românticas.

(chegou o rapaz que dá a luz e talvez seja esse o mundo sempre a dar seus pontos finais)

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