Crônica de um fim de semana na casa dos pais

 

Casa dos pais, depois que se é adulto, é aquela coisa de sentir-se fora do lugar e rememorar bons tempos idos. Depois de mais de mês sem aparecer por aqui e da última vez ter engordado um quilo em três dias comendo a melhor feijoada do mundo, vim. Pais pressentem as coisas no ar. E por aqui somos todos diplomáticos, ninguém fala nada – nem de dores nem de amores. Confesso que mesmo já tendo passado por tantos problemas por causa disso, prefiro assim. É o sangue inglês, é a curitibanidade. E aqui não lavo louça, não tiro o lixo, é o paraíso.

Como eu dizia, pais pressentem as coisas. E, bem, deixo as coisas na superfície, as que podem ficar por ali. Não sou fácil de ler, não confundam, não sou essa coisa Marisa Monte de ser.

Ontem o cachorro comeu o óculos (para longe e perto) do meu pai. Aí este passa por mim, depois de ter ficado o dia inteiro no jardim (e eu no quarto, coisa, aliás, que muito me lembra minha adolescência), e exclama como estou linda. Meu pai, aquele que nunca repara em nada. Eu disse nada? Pois então, em NADA. No domingo, começo da noite, ele passa de novo por mim e diz “como você está linda, filha!”. Não sei se ele nem lembrava que disse isso ontem (memória não é o ponto forte dele), ou se conseguiu admirar-se duplamente. Com a auto-estima de alguém apaixonada-ainda-não-correspondida-atolada-em-estudos-acadêmicos-depressivos quase respondi: o que umas horas no salão de beleza não fazem, né, pai?

Se tivesse sido num dos meus momentos de euforia-tenho-a-lua-em-sagitário-tô-apaixonada-indo-viajar-por-três-semanas-e-a-vida-é-linda eu já teria respondido: pô, pai (e lembraria do Popeye, como sempre), mas sou linda desde que nasci!

 

Sim, seria exagero, recém-nascidos não são lindos.

 

E no almoço de domingo, lasanha feita pela mãe (a única pessoa que realmente abala minha dieta tão rigorosa), falando da viagem ela me olha séria e diz: você só volta noiva de Goiás. Eu, apaixonada-por-alguém-que-nem-sabe-e-que-mora-na-Ilha-e-que-está-longe-de-ser-um-partidão, olho arregalada pra ela. Pode parecer normal, está cheio de mãe por aí que empurra a filha para um bom casamento, “bom” no sentido financeiro mesmo. E vocês sabem que desse tipo de partido Goiás está cheio – é só encontrar um usando uma bota de couro de jacaré. Mas minha mãe nunca foi assim. Nunca empurrou os filhos para casamentos, aliás, até empurrou contra casamentos e coisas do tipo. Minha mãe nunca nem incentivou nada dessas coisas. E agora do nada quer me ver noiva (eu, noiva?!), e com um “bom” partido. Ela já não notou que sou adepta dos desvalidos? Pois sou. Também, nunca me vi casada. Noiva deuzulivre. Respondo que não sou dessas coisas, ela sabe com quem está falando?!

 

Pais pressentem as coisas. Ou é a minha idade (a qual não aparento e isso é um baita problema do qual pretendo escrever sobre). Ou minha vida amorosa-errante. Ou seria amorosa-perigosa. Não sei. Vai que querem me ver mesmo casada. Seria porque tenho falado em filhos? Quero adotar, quero um ruivinho, um indiozinho e um árabe. Se Jolie pode, por que eu não?

Passei o dia jogada no quarto, remoendo distâncias e desamores, enquanto estudava com a cabeça sei lá onde. Tão adolescência isso. Mandei e-mails e mensagens para alguns nobres amigos. Só para lembrar que apesar de estar aqui, não estou morta. Por muitas vezes é a sensação que tenho quando fico um tempo aqui, a da morte.

Amores vêm e vão, casamentos não vêm, felizmente. Estudos, sempre, mas volta e meia acho que não é pra mim. Amigos sempre os tenho. Para cá sempre volto. Pais são para sempre e todo o sempre – e eles dizem que me conhecem, pero no mucho. Esse estado de anti-dieta, casa cheia, tanto tempo no quarto, sempre me faz rememorar, relembrar, me rever – no melhor sentido. Gosto de me rever. Não dizem que tenho a idade que tenho, mas, vejam só, deve ser porque continuo exatamente a mesma – remoendo as mesmas coisas. Nem crise tenho por ver amigos casados, com filhos, descasados e por pensar que na minha idade meus pais já tinham casa, filhos, emprego, diplomas, tudo. Acho que nunca quis tudo. Quero check-ins. Passagens de ida e ida e ida e uma de volta. Se eu não voltar não poderei ir novamente.

Voltarei para contar como foram as viagens, os cursos, as compras, quem conheci, os sorrisos que dei, os lugares que amarei eternamente, as fotografias que tirei. Voltarei para saber se ainda amo – se é que amo – e para rever os amigos.

Porque era domingo e levei três lambidas no queixo, fui afofada uma dúzia de vezes, brinquei de juba de leão com a gata laranja, ri da crise do meu cachorro diante das asas do passarinho – aquele pequeno ser pode voar, veja só, ele me dizia com os olhos. A lasanha de espinafre estava ótima, o amendoim com chocolate também. E me controlei. Malas quase prontas. Vida acadêmica em caminhos tortuosos.

Quem sabe depois de uns vôos, algumas horas de estrada, tantas coisas novas para os olhos e a cabeça o coração volte renovado. Quem sabe? Falta é aquela coisa que a distância consegue preencher bem.

É noite de domingo. Ligam a TV. Uma gata dorme em cima da minha blusa de lã preta. A outra faz piquete na mala vazia. Os cachorros aparecem na janela da cozinha pedindo biscoitos e pitangas. Eu ainda tenho que pintar as unhas, escrever mais uma meia dúzia de páginas, enviar uns e-mails, ler dezenas de páginas. Mas, como bom espírito adolescente, suspiro e coloco Belchior e Alejandro para tocar.

 

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