Cartas de Viagem – Santana do Cariri

 

Santana do Cariri, Primavera de um dos melhores anos de nossas vidas.

Não havia ônibus para lá. O costume – ou a saída – era andar de topic. Ou van, como o povo lá do sul pode preferir. Não havia horários de saída e chegada. Não há, por sinal, tabelas com horários regulares. Região da Chapada do Araripe, semiárido brando, Ceará, Nordeste brasileiro, terra de Padre Cícero e Lampião, de História, histórias, estórias e guerras. O São Francisco passa longe. Semiárido brando (o que a constante leve brisa confirma) por conta da Chapada que circunda a região. De um lado de lá dela, é o pé da serra, aquela dos Gonzagas. (Não é “sertão” como chamam aleatoriamente, este lugar imagético tão usado e abusado que torna tudo uma massa geográfica informe e desconhecida, sem personalidade, o sertão dos filmes, novelas e seriados que não localizam, não nomeiam, não identificam – é como o “sul” para tudo isto que há para cá da Bahia – que jogam num mesmo tacho sotaques, costumes, paisagens, tradições, crenças e muito mais. Como dizem das Gerais, elas são muitas – o “sertão” também.) Enfim, não há nem topic que saia de Juazeiro do Norte, a mais populosa e desenvolvida da região, para Santana. Há que se pegar um ônibus, topic ou metrô de superfície (algo muito semelhante a um trem, insisto) até Crato, sua vizinha, e de lá, na sorte, encontrar uma topic para Santana. Na sorte, principalmente, para quem, como eu, não é daquelas bandas. Para quem lá vive, parece que é só no azar mesmo. Na sorte, topic do centro de Juazeiro até Crato antes da ponte, em seguida uma espera e algumas informações para pegar uma topic para Santana. Não havia ônibus, não havia horários, havia muita educação e pessoas extremamente prestativas. Naqueles dias eu já quase me acostumara e previa que sofreria um choque ao voltar para o sul.

Santana do Cariri. Terra de dinossauros, de fósseis, de paleontologia, da ponte de pedra, do pontal da Santa Cruz, da imagem de Sant´Ana Mestra na entrada da cidade. Por que ir para Santana? Por quê? Por tudo, por amor, por Destino, por aventura.

E a topic sai ali ao lado da ponte do “rio” de Crato e segue. Pessoas cheias de compras. Debaixo dos bancos há cebolas, tomates, trigo, arroz. Sento na terceira fila, ao lado uma mocinha e uma senhora. Fardos de comida entulham os cantos. Uma senhora no banco da frente segura uma bacia com uma bandeja de iogurte barato, manteiga e alguma outra coisa de geladeira. A viagem segue. No primeiro trevo uma família acena. Avó, mãe, um mocinho e três meninas pequenas entram depois de dúvidas sobre o itinerário incerto. A topic está cheia. A viagem se dividirá em três partes: da estrada principal até o segundo trevo, subida de serra com vista para Crato e vegetação de caatinga; do segundo trevo até Nova Olinda, paisagem menos árida, árvores mais altas, há verde para onde se olha, já no parque da Chapada, plano; e de Nova Olinda até Santana, surgem “pedreiras”, intercalam o verde e o árido na vegetação, a estrada sobe e desce. Descortinam-se, a todo momento, paisagens inesquecíveis. As cores são vivas e deslumbrantes numa combinação pouco comum. Em volta, a placa maciça verde e em tons de marrom, da Chapada – aquela mesma que é possível avistar da estátua de Padre Cícero em Juazeiro, onde Lampião ficou entrincheirado.

Meus olhos e meu coração se enchem com tudo o que vêem pelas frestas de janela que conseguem alcançar na topic. Mal mexo os pés, pois há coisas por todos os lados. Faz um sol lindo. Sinto-me, como todos os dias por aqui, estranha diante daquelas pessoas. Elas me olham. Elas me estranham. Meu vestido branco simples e uma sandália não chamam tanta atenção. Fica claro que não sou dali. E a pieguice é já amar tanto aqueles lugares. A avó da família que entrou por último está sentada ao meu lado, de costas para a frente da van, num banquinho de plástico. No último banco, de frente para ela, o mocinho. A avó sorri, conversam sobre o pai dele (com quem, pelo que entendi, ele mora em outra cidade), sobre os estudos. Ele foi para a cidade, morar com o pai para poder estudar. A avó conta como as irmãs sentem falta dele, a mais nova acorda chorando à noite. Ele está com ela no colo e faz brincadeiras. A avó e a mãe comentam sobre dinheiro, a mãe conta que vai pegar o bolsa-família semana que vem para pagar as prestações. A avó então insiste com o mocinho que ele deveria usar óculos, pois, nas palavras dela “acho tão bonito moço que estuda e usa óculos”. Toda aquela conversa é pungente demais. Cada palavra que me leva na realidade deles. Observo aquela senhorinha, os olhos, as mãos, o sorriso de orgulho pelo neto. Ela me olha, faz um gesto com o queixo apontando para mim e pergunta “quanto é?”. Fico confusa, eu acompanhava a conversa pensando que ninguém percebia. “Ahn?”, nunca sou boa nessas horas. “Quanto é?” ela repete o gesto e a pergunta. Na hora imagino que ela me pergunta o valor da passagem da topic e responde “Oito reais, eu acho.”. Ela sorri condescendente. Sinto que não era isso. Sigo a conversa e ela conta que perguntou lá na cidade quanto era para pôr aparelho, pois ele agora “precisa” disso – segundo a dentista é cinquenta reais por mês, mas só pode colocar se não tiver nada para fazer nos dentes. Eu uso aparelho, e então percebo que era isso que ela me perguntou. Me sinto uma idiota. Penso que a dentista também é uma idiota. Eu quero entrar na vida daquela senhora. Quero ver a felicidade que é para ela ver um neto, talvez o primeiro da família, estudar. Quero ver o que se passa na cabeça dela para querer que ele use óculos (que é um “remédio” só para quem tem algum tipo de problema) e aparelho porque projeta a imagem dele como alguém que está numa situação melhor. A estrada segue. Há um longo trecho de vegetação seca, nenhum verde, nenhuma sombra. Uma entradinha ou outra, distantes umas das outras, anunciam sítios em meio à seca.

E lá no meio da estrada a mãe avisa ao motorista onde querem descer. Quase não há pontos de referência porque quase não há nada na estrada. E é ali meio que no meio do nada, uma “esquina” com os restos do que era um bar, onde a topic pára. A poeira levanta, eles descem, arrebanham sacolas, vão pela estradinha.

As casas, as paisagens, a chapada, tudo me encanta. Já é Santana. Agora as pessoas já sabem que não sou dali e que quero ir até o Pontal da Santa Cruz. A topic não irá até ela, mas até o começo da estradinha que sobe para lá. A senhora do iogurte pergunta de onde sou. Digo que de Santa Catarina, a menina ao lado dela pula no banco “De onde de lá?!”, respondo e ela “Minha mãe mora em Itajaí, em dezembro eu vou para lá visitar.”. Pergunta vai, pergunta vem. A mãe foi para lá tentar a vida. Faz um ano que elas não se vêem, ela ficou com a tia e nas férias poderá visitá-la pela primeira vez. Falo sobre o mar, ela não parece interessada – aliás, sinto que toda vez que falo no mar, por aqui, eles não dão bola. A tia, a senhora do iogurte, diz para o motorista da topic me levar até o Pontal, pois ele irá até quase lá. Ela me convida para conhecer, na volta, as rendas e redes de bilro que ela faz. Pergunto curiosa pelas compras “Ah, tem que ir pra Juazeiro comprar. A compra que se faz aqui pra uma semana, compra o do mês lá.”. A topic pára na praça para ela descer, na esquina em frente há uma venda. Fico pensando naquelas pessoas que saem dali para ir fazer as compras, num sábado, dependendo daqueles horários misteriosos das topics. A topic ainda pára em umas três casas, o motorista entrega pedidos de compras. A topic vai esvaziando. Agora já estico melhor a perna. Perguntam o que eu quero fazer no Pontal, digo que quero conhecer. Eles dizem que há o museu ali na praça, digo que meu plano é vê-lo na volta.

Aos pés do morro do Pontal uma outra senhora com quem eu havia conversado desce. Ela me contou que dali, exatamente dali dos pés do Pontal da Santa Cruz em Santana do Cariri, já saíram várias pessoas para ir morar em Joinville. Umas para Itajaí também, mas todos ali têm alguém da família que foi para Joinville. “Um vai, diz que é bom, chama o outro. Aí outro vai visitar, gosta do lugar, resolve voltar pra ficar.” me explica. E assim sinto que o meu mundo é do tamanho de tudo isso.

Se pudesse eu descreveria o Pontal, a ladeira de subida, a vista lá de cima, o restaurante com comida deliciosa, a igrejinha, a trilha pelas pedras, os meus amados ticos. Santana cravou-se no meu coração naquele instante. Se pudesse eu descreveria e tomada pela emoção fotografei feito louca e deixei meu olhar perdido no horizonte como se quisesse – e como se pudesse – fincar tudo aquilo no peito e na alma.

Santana, terra da menina Benigna, de comida boa, de uma das paisagens mais belas do mundo. Desço de lá sendo outra pessoa. E nem a ameaça real de que sábado naquele horário não há mais transporte de nenhum tipo de volta para Crato me demove das profundezas do que sinto. Caminho pela pequena cidade, vou ao museu. Museu de Paleontologia. Vou, novamente, para outro mundo. Fósseis, fósseis, fósseis, ossos petrificados, histórias, dados, descobertas. Foi ali que encontraram o dinossauro brasileiro. Há um vídeo que passa ininterruptamente com o orgulho máximo de todos por ali, é citado pelos jovens guias do museu, aqui foi encontrado um dinossauro. Eis que no meio do museu há um dinossauro falso. Pergunto, ansiosa, sobre o dinossauro encontrado. Jurassic Park toma conta de mim. O dinossauro? Foi levado para o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Sinto-me tão petrificada quanto aqueles fósseis. Rio de Janeiro? Um dinossauro no Rio? E eis que acredito que agora sim cabe muito bem a pergunta que poderiam me fazer quando decidi viajar até Santana: Por que Rio de Janeiro?! A revolta me toma em goles largos. Santana não é o primeiro recôndito encantador e belíssimo que encontro neste país que sofre com o desleixo da ignorância do povo e dos governos. Formulo revoltas. Formulo xingamentos sem fim. Não há dinossauros no Rio de Janeiro. Já havia sentido essas revoltas quando, numa maravilhosa conversa com o paleontólogo do museu de Crato, soube das agruras pelas quais eles passam para pesquisar e preservar os sítios, pois a maioria está em terras privadas e são usados para extração de materiais e quase impossíveis de serem visitados. Entre isso, há o contrabando, o comércio ilegal, o desprezo que todo ano leva milhares de peças a serem destruídas pela ganância. O coração que havia se expandido lá no Pontal sai dali engruvinhado.

Vou até a senhora das redes e rendas de bilro. Trabalho trabalhoso, lindo, ela me oferece suco, conversamos, pego o contato pois ela envia pelo correio. A menina timidamente ensaia perguntas sobre Itajaí, o sul… parece que ela se sente próxima da mãe ao falar comigo sobre um lugar tão distante e desconhecido. São elos que nascem e me deixam irriquieta. Na praça vazia, sento e queimo as coxas no banco escaldante. Tento desembaralhar todas as emoções do dia. Dia que vai findando e eu ainda não tenho como sair de Santana. Sinto que nem quero. Há em mim a vontade de ficar ali sentada naquela praça, esticar o pescoço para olhar para o Pontal, ver a chapada em volta, as casas… como se pudesse gravar cada detalhe, cada frase que cortou meu coração, cada pessoa que cruzou meu caminho. É preciso ir, porém. E, ao olhar a paisagem no caminho de volta, tenho a convicção de que é preciso, um dia, voltar.

Itajuba, do meu quintal à sombra de um sombreiro, no Verão de um ano que se desvelará.

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