Maratona Oscar: 12 Years a Slave e a “selvageria”

 

E ficou mesmo a pergunta: quem falará mal de 12 Years a Slave? Confesso que fiquei incomodada com o filme. Talvez não tenha assistido com a devida atenção. Talvez tenha criado expectativas demais desde o dia que vi, ano passado, o trailer antes de algum filme no cinema – e só anotei o nome dele na wish list por conta do Benedict. Uma das pessoas que assistia comigo saiu na cena em que Patsy era golpeada no tronco. E é este o ponto.

Ontem mesmo, tendo assistido-o no domingo, me deparo com um texto do Escorel (sou sua fã, um dia ainda vou mandar um e-mail me declarando) que perpassa as dúvidas sobre 12 Years e cita um crítico americano que teve a audácia de criticar o filme. Havia, então, encontrado o incômodo que senti. Primeiramente, o protagonista não está nos seus melhores trabalhos. O personagem também parece não ajudar, pois titubeia demais e não se percebe no mundo no qual foi inserido à força – sim, é complicado criticar isso, pois trata-se de uma história real (aliás, veremos este ano também a enxurrada de “histórias reais” na corrida ao Oscar como foi ano passado?). O olhar estabanado e a testa franzida em quase todas as cenas perdem e muito a carga dramática necessária para a história.

O enredo é espetacular. Quando você se dá conta do que está acontecendo, fica de queixo caído – eu não fazia idéia dos fatos que a história conta. (não, eu não leio sinopses e este caso é um bom exemplo de como isso é bem melhor) Nas primeiras imagens que vi do filme pensei que seria meu candidato favorito disparado para fotografia. As cenas nos campos de algodão são lindíssimas, porém como parece ser uma constante nos longas-metragens que exploram boas fotografias, há aqueles planos que valem só e somente pela fotografia e desmerecem o drama – não sou fã deles de jeito nenhum. Momentos como o da passagem de tempo no qual vemos o gazebo pronto e os segundos durante os quais a câmera fica fixa em Solomon nos contando que ele aguarda a resposta à sua carta salvadora e a ida e vinda ao ponto do corte de cana merecem destaque e elogios à direção que parece lembrar que faz cinema.

E aí voltamos ao problema. O tal crítico americano parece até que foi banido depois dos seus comentários sobre o filme. Quando convidei uma pessoa para assisti-lo, disse o título e comentei que era um dos favoritos ao Oscar, já premiado, ouvi “ah, sim, por causa do Obama, né.”. E, sim, pois é. Há uma onda Oba-Obama. Há quem queira dizer que o filme não tem nada a ver com isso, mas considero difícil não ligá-lo a uma nova auto-imagem do público estadunidense. São raros os filmes que retratam a escravidão estadunidense de forma mais próxima e contundente. Aliás, acho até que nós temos mais novelas e minisséries que retratam isso do que eles têm filmes sobre. Acho justo comparar nosso produto mais vendável com o deles. Estaria a maior e melhor nação do mundo reconhecendo suas mazelas?

Eu cá pra mim nunca botei fé nessa onda Oba-Obama. Não, não acho que um presidente negro (ou um ex-operário e sindicalista ou uma mulher) vá mudar a mentalidade e atitudes das pessoas. Não, não acho que os racistas estadunidenses deixaram de sê-lo ou deixarão porque alguns tantos elegeram o Obama. E, sinceramente, nem acho isso nenhuma vitória política. Pra mim, investem-se em fachadas.

Então, e o filme? É preciso (re)contar a história dos negros nos Estados Unidos. O enredo é cinematográfico (aliás, há pouco tempo eu reclamava que não tenho sido surpreendida pelos roteiros), originário do livro que o protagonista escreveu. As atuações têm altos e baixos. Esperava mais do Benedict (talvez, como o George em Gravidade, esperava vê-los mais tempo na tela), todos os méritos vão para Patsy (Lupita Nyong´o, trabalho brilhante) e Edwin Epps (Michael Fassbender, um personagem difícil, às vezes pouco crível, mas com boas nuances) e o Brad Pitt (mais feio do que ele é, com cabelo e barba desgrenhados) numa ponta que pareceu só “sou o produtor e vim aqui fazer um discurso lindo sobre a liberdade (o personagem é canadense e acima do bem e do mal, ao que parece) e essa coisa toda de multiculturalismo e blábláblá que, vejam vocês, pratico na minha vida pagando por um filme desses e adotando crianças de quase todos os continentes”.

Dizia lá o crítico que o filme era quase sadomasoquista. E é esse o problema. A violência. Há uma linha tênue, no cinema, ao representar a violência para ser o mais próximo do real possível para aproximar o espectador da dor sofrida pelo personagem, fazê-lo quase sentir as atrocidades ali estampadas, e a violência que gera o prazer catártico do espectador – vide aí o exemplo de Tropa De Elite. Há quem saia do cinema dizendo que sentiu na pele as dores do Solomon e da Patsy ao serem violentamente agredidos (lembrando que o castigo físico, em ambos os casos, é para dobrar as almas deles, não é para eles sentirem “dor”). Porém, eu me pergunto, seria essa a dor pretendida? Quando o algoz chega a quebrar a madeira com a qual espanca Solomon nós sabemos que ele está batendo muito forte e que está lanhando gravemente as costas dele enquanto ele precisa submeter-se à perda da identidade, pois agora ele é Platt. Há, provavelmente, quem saia do cinema com a alma lavada por ver violência, pois vai até lá justamente por isso, para ver aquilo que ele gostaria de fazer nas ruas, mas por tantos motivos não o faz.

Foi aí que lembrei do Glauber Rocha. Violência no cinema sempre me faz voltar a ele – enquanto eu não me deparar com mais ninguém que fale tão bem sobre isso. O cinema precisa oferecer este menu que tanto oferece e nunca satisfaz o espectador? Sim, isso é Adorno e Horkheimer. O que 12 Years a Slave faz é oferecer violência. Tenho que concordar com o crítico, é violência e não é história ou História. Mas a violência que este tipo de filme oferece é aquela que não satisfaz, é a pura indústria cultural, porque o espectador vai continuar sentindo falta dela na sua vida. E por isso que simplesmente prefiro Glauber com a violência da percepção, com a violência da câmera, pois é algo específico ao cinema – senão, posso simplesmente assistir aos MMA da vida.

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Antes mesmo do filme, dois episódios me chamaram a atenção para uma questão de termos. Duas notícias de alcance nacional (e até internacional), a “briga” entre torcidas em Joinville e a matança dentro e fora dos presídios no Maranhão. Tenho praticado o afastamento das notícias, retirei todos os portais de notícias do meu feed do Facebook e instaurei outras práticas desde fins do ano passado. Tenho vivido melhor (inclusive com outras práticas que adotei, mas não vem ao caso). Contudo, em ambas as notícias uma palavra foi muito usada quando queriam descrever o que houve: selvageria. Discuti com uma pessoa quando ela usou esta palavra sobre o primeiro caso. Selvageria? Usamos “selvagem” para o animal que como naquela canção “só briga por comida e sexo”, os animais, dizem as más-línguas, são irracionais e agem por instinto (o qual, dizem, também possuímos). O animal selvagem, a natureza selvagem, são assim chamados porque não são domesticados ou tocados pelos humanos. Não vou arriscar a dizer que os humanos são os seres civilizados do planeta. O animal busca comida, briga por uma fêmea, não precisa de quatro paredes para fazer suas necessidades, mata outros animais para sobreviver. O animal selvagem não mata outro só porque ele prefere um galho diferente do dele, ou porque ele torce para outro time, ou porque ele tem um gosto diferente e prefere cruzar com um animal do mesmo sexo que o dele, aliás, animais não fazem guerras, vejam só. Sinceramente, seres humanos que fizeram o que fizeram naquele estádio e no Maranhão são só e somente seres humanos – não são selvagens, não são animais. Seres humanos são os únicos capazes disso no planeta. Faz um tempo comecei a deixar de usar termos pejorativos de animais aplicados aos seres humanos, pois os animais dos quais eu gosto tanto não merecem isso. É vagabunda, não é vaca. É sujo e não tem boa higiene, não é porco. É estúpido, ignorante, não é burro nem anta (eis o mais difícil de deixar de usar, pois costumo me chamar assim algumas vezes). É puta, não é galinha. Nem vou falar do “veado” e “macaco”. Vamos deixar disso de usar animais para tentar reduzir seres humanos ao que eles são: seres humanos. E, sim, a “selvageria” parece ser o argumento de 12 Years a Slave neste mundo entre brancos e negros.

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