As filas de quatro patas e os rumores

Já havia se espalhado não mais pela rua toda, mas pelo bairro, talvez já por toda a região sul da cidade. Os donos das quatro patas vinham às dúzias, filas dobravam as esquinas. De dia, de madrugada, o tempo todo. De manhã cedo mal abria a porta eu já me deparava com os primeiros da fila. Num começo de tempestade no meio da madrugada, ao levantar para tirar as redes da varanda já encontrava os que guardavam seus lugares na fila. Eram gatos, cachorros… de várias cores, tamanhos, com aqueles olhares doces e compridos.

Não sei se foi fofoca, disse-me-disse, ou se a coisa espalhou-se porque passavam aqui e viam a vida que os nossos levam. Só sei que agora todos sabiam que nossos quatro patas (e duas patas e duas asas) eram muito amados e bem tratados.

Antes da coisa fugir ao controle, foi um gatinho cinza magricelo. Deitou no portão lateral num dia de calor escaldante e ficou. Eu tentei espantá-lo quando vi de longe porque pensei que era mais um pretendente às nossas gatas. Aí reparei que ele mancava da patinha direita da frente. E assim os portões de casa foram abertos. Água, ração, caminha, a garagem toda dele. Em minutos ele já parecia fazer parte dali, liguei para veterinário, vimos tudo o que podia ser feito. E assim eles foram aparecendo. Não havia mais terreno para os nossos cachorros, nem casa para as nossas gatas. Eram latidos e miados exigentes que queriam portas e portões abertos.

A nossa gata mais louca subia presunçosa à janela, olhava para a fila em volta de casa e narrava sua boa vida boa. Sim, elas comiam peixe feito pela melhor cozinheira. Claro, dormiam todas as noites na cama. É verdade, quando faz friozinho ela coloca a coberta grossa de lã no sofá e nós nos refestelamos. Ah, sim, ração com nuggets, sachês de salmão e cordeiro. Também, cenoura, iogurte, milho cozido tiradinho da espiga e dado na boca. É, tem lá seus pontos negativos, aquelas horas de terror no banho quase sempre, as idas ao veterinário que tira a temperatura, limpa as orelhas, dá vacina. Sim, naquele carro ali, passeamos, viajamos e exigimos que não seja na caixinha de transporte. Na rede? De vez em quando. Eles não deixam, mas quando dá vontade a gente pula nas mesas, escrivaninhas, na TV, escala os armários e guarda-roupas. Ah, tem leite condensado também, toda vez que fazem doces! Água fresca é só pedir, dão na hora. Caixinha sempre limpa ou ainda a gente pode passear e fazer pelo jardim. Sim! Subimos em árvores e afiamos nossas unhas nos seus troncos! Não sou muito calorenta, mas quando quero tenho ventilador só pra mim. Tem uma que é friorenta e dorme debaixo da coberta, com a cabeça no travesseiro, como gente! Quando ela chega, me pega no colo, coça minha barriguinha, me aperta, me joga pro alto e pega no ar.

E assim foi se espalhando e as filas crescendo… até a tartaruga, quando não estava de nariz empinado, gostava de ir até a janela e lá de dentro do aquário destilava superioridade. Tenho esse aquário enorme só pra mim, sim. Camarão e ração, todo dia. E agora até consigo enganá-los, porque é só eu pedir comida que todos dão. Antes eu, bobinha, só pedia uma vez por dia para um deles. Aí eu vi que se fizesse meu estardalhaço n´água quando escurece, todos me dão. Isso, passo o dia aqui boiando no meu banho de sol. Eles sempre trocam a água e eu posso nadar e nadar e nadar.

O psicopata, o cão que já é maior que eu, com esvoaçantes orelhas de dumbo corria desvairado de um portão a outro gritando: estão vendo tudo isso?! É meu! Tudo o que tem aqui é meu! Eu corro louco para onde eu quiser, quando eu quiser, posso até perder o sono de madrugada e ficar correndo atrás das sombras latindo alto! Estão vendo as árvores? Pois eu como pitanga, acerola, maracujá, goiaba, jabuticaba, tudo diretamente do pé! E quando quero é só ir na janela da cozinha e fazer a cara que eles acham lindo e ganho banana todo dia! Claro, tem biscrok, ração, baldes e baldes de água fresca. Eu sempre ganho camas enormes (ó o meu tamanho, né, e como não é só pra mim…), sofás, travesseiros e destruo tudo! Só para vê-la chegando com mais presentes pra mim! De vez em quando ela me leva pra dentro: quando está muito quente eu deito no piso de cerâmica da sala e ela me dá gelo na boca, quando está muito frio eu deito no tapete da sala de TV e ganho leitinho quente – como quando eu era pequerrucho! Os outros também ganham tudo, a gente não tem motivo pra brigar. Mas eu fui criado com as gatinhas, com as quais eu adoro brincar, e aprendi a comer milho cozido direto da espiga! Nas férias eu ganho todo dia! Ah, quando faz frio e ficamos aqui fora ela vem e acende o fogão à lenha da varanda fechada, coloca nossas cobertas de lã, deita ali conosco e ficamos no quentinho. Ah, sim, desde quando eu era pequenino ela me chamava para deitar no colo dela e eu só consigo dormir bem quando ela vem e senta na varanda, no chão mesmo, ou no banco, e eu posso deitar no colo dela! Quando não durmo no colo dela, sonho com isso! Eu posso lamber, morder, agarrar a perna dela com as duas patas pra ela não ir embora, pedir companhia para correr pelo quintal todo, que ela não briga comigo e faz tudo o que eu quero! Eu sei que eles não gostam quando eu destruo as plantas e vasos do jardim, mas é que assim eles ficam ainda mais tempo comigo. Eles também não gostam quando os outros cavam buracos sem fim perto das calçadas, mas a gente se diverte. Claro, tem banho que eu adoro! Desde pequeno tomo banho de mangueira com ela e nos divertimos muito! Quando está frio eu tomo banho lá dentro com água bem gostosa. Ela usa dúzias de shampoos e sabonetes pra gente ficar bem limpinho – porque eu me sujo demais, eu sei. Eu gosto tanto de banho que quando os outros estão no banho eu entro e fico olhando. Também adoro ir ao veterinário! Alguns aqui não gostam muito porque tem injeção. Mas eu sou corajoso! Eu adoro passear de carro e na coleira! Quando eles colocam o carro lá perto do portão e bobeiam deixando a porta aberta eu já entrou e vou me refestelando! Sim, também vamos pra praia! Fazemos rodízio! Lá é menor mas é bem gostoso, tem areia pra todo lado!

O passarinho que é meigo, não gosta nem de contar vantagem do seu belo canto, também deu seus gorjeios. Sim, banho, banho de sol… alpiste, espinafre, galinhos verdes todos os dias. Ela leva e traz minha gaiola, protege do vento, dos pernilongos malvados, coloca areia. E me chama de Nelson porque quando vim pra cá era muito boêmio. Agora tenho companhia, fico ali durante o dia conversando com curruíras, pardais, rolinhas, bicos-de-lacre e sabiás que vêm todo dia comer nos comedouros do jardim e do quintal, tomar banho nas bacias. Meus amigos ficaram encantados com a nova vida aqui, me contaram horrores do que já passaram em outras casas.

Eu procurei me conformar. Se fosse um negócio, diria que a propaganda é a alma do negócio. E por mais que meu coração seja ainda maior que os terrenos que tenho, sofro quando não posso dar tudo para todos, acolhendo-os como já fiz com estes – e com tantos outros que já partiram deste mundo mas que vivem aqui nas minhas belas e doces lembranças. Agora é minha vez: eles nunca foram ao cinema comigo, é verdade; também nunca jantaram naquele restaurante caro, ou foram naquela festa. E melhores amigos nunca tive. Sempre atentos ao meu humor, às minhas tristezas, sempre felizes e sorridentes (sim!) com disposição de sobra para me fazer companhia. Me ouvem como ninguém e para eles já contei coisas que viv´alma de duas pernas neste mundo nunca saberá. Não me cobram, não ficam “de mal”, não esquecem de convidar ou de simplesmente ligar para saber como estou – sei que se pudessem, ligariam e eles me ouvem mesmo por telefone. Tardes chuvosas, manhãs ensolaradas, dias longos e cansativos… com eles ficam perfeitos.

Para muitos de duas pernas já dei quase tanto assim de mim, já dei amor, dei cama, dei comida, dei carinho, dei colo, dei meu tempo, levei ao médico, dei minha companhia, meus ouvidos, minha total atenção. Dou pedaços da minha vida. Enquanto os quatro patas (e os de asas!) nunca me abandonaram, nunca deixaram de falar comigo, os de duas pernas viram a cara quando me encontram nas ruas, me bloqueiam nas redes sociais, cortam relações duradouras ou curtas e intensas, ao contrário daqueles, estes espalham pelos quatro ventos coisas ruins a meu respeito. E assim também correm bairros e cidades. Mas as filas de quatro patas me dizem muito mais. Curiosamente, há filas dos de duas pernas também. Eu confio e acredito nos primeiros. Nestes últimos, não vejo porque depositar amor, crenças e esperanças.

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