Maratona Oscar – Her

Falar em injustiça na lista dos indicados ao Oscar é clichê. Parece uma coisa de sorte mesmo. Tom Hanks, Robert Redford, Joaquin Phoenix, Emma Thompson são alguns deste ano. Mas a mais injustiçada foi a Scarlett Johansson. É uma situação complexa, a academia não indicaria a melhor atriz uma atuação que é só a voz da atriz o filme inteiro, ao mesmo tempo, não é qualquer atriz que aceita um papel desses e que, sinceramente, faz um trabalho excepcional.

Sim, estou falando de Her. É mera coincidência que os dois últimos filmes que me arrebataram são com a Scarlett. Ela é quase uma Marilyn em alguns sentidos. E talvez por isso eu goste tanto dela. Os dois papéis, em Her e Don Jon, são papéis que a maioria esmagadora das atrizes (principalmente as de primeiro escalão) dispensaria na hora. Scarlett não tem medo dos riscos da profissão. Scarlett é Scarlett, já fez seu nome, faz personagens que usam e abusam das suas melhores qualidades e adora um desafio. Ah, e dá entrevista dizendo que come um hamburguer daqueles cheio de ketchup. Ah, e tem fotos suas divulgadas na internet através de um hacker de celular e se sai com “Conheço meus melhores ângulos”. Scarlett é das minhas. Bem, chega de babação pela Scarlett, né?

Her foi amor – e não foi à primeira vista. Acompanhei algumas coisas que saíram na mídia antes do lançamento, mas quando fui assistir só lembrava que era com o Joaquin Phoenix (aiai…) e com a Scarlett (só isso já bastava para me convencer de muita coisa). Nem lembrava, como eu prefiro, da sinopse nem nada. E foi um baque.

Joaquin dando inveja em nós pobres mortais com um computador que digita o que ele fala (meu sonho de consumo há anos!). A humanidade não é assim tão esperta, ainda não inventou isso. E dando mais inveja ainda com o seu OS. Eu queria ambos.

É futurista. É melancólico (tudo que segue este padrão de futurismo tem isso, né?). É lindo. É uma fábula. E foi lá quase pela metade do filme que eu me senti arrebatada. Como não lembrar de Fahrenheit 451, o do Truffaut, aquele que bate e rebate com Teorema, do Pasolini, como meu filme favorito? Fahrenheit 451 é baseado na obra do Ray Bradbury, a qual eu ainda não tive a oportunidade de ler. Mas sempre quis muito ler qualquer coisa do Ray e eis que mês passado encontrei Os Frutos Dourados do Sol (numa edição do Círculo do Livro) na prateleira dos baratinhos do sebo. Her concorre com Melhor Roteiro Original, mas a concepção do futuro dele lembra e muito as obras do Ray – e Fahrenheit, é claro.

A melancolia, a solidão das pessoas, a relação com a palavra escrita, os avanços da tecnologia, o futuro sem localização temporal, em tudo isso há semelhança. Entre os filmes a fotografia e a direção de arte comungam também (e Her não foi indicado à fotografia, vejam só). Aliás, Her concorre em Direção de Arte e já é meu favorito (por mais que digam que O Grande Gatsby vai levar). E talvez por isso o filme não arrebate de cara. Joaquin está ótimo em mais uma escolha a dedo na sua tumultuada carreira.

Apaixonar-se por um OS num futuro próximo. Por aquele ser que faz praticamente tudo por você, via voz, que está ali quando você precisa, e que ainda é genial, compõe, lê Física, manda teu livro para um editor. Sexo? Também tem. E é sexo que não precisa mão aqui e ali, suor, roupas jogadas, posição X ou Y, mas, felizmente, não dispensa os gemidos e suspiros. Até do sexo “futurista” eu gostei. Aliás, gostei até do videogame realmente interativo. Lembram da TV interativa em Fahrenheit? Então, a proposta é a mesma, só visualmente que a realização é diferente. Fiquei pensando que, para além de uma tecnologia de ponta, pensam a interatividade com a tecnologia como algo a se concretizar no futuro. Ray já pensava na interatividade com a TV, em Her é com o videogame (e com os OS). Provavelmente será a mais frustrada das previsões para o nosso futuro, pois o máximo que conseguimos de interatividade hoje é telefonar para o Fala que eu te escuto e os comentários (infames) em posts e reportagens na internet. Ou seja, para chegar aonde a ficção (literária e cinematográfica) almeja, levará muito mais tempo.

Ontem ainda lia um conto do Ray que se passava em 2003 e as personagens estavam de mudança para Marte. Mas nos contos do Ray, e em Her, o futuro guarda muita semelhança com o nosso tempo. E a principal é com os sentimentos. O bombeiro que ateia fogo em Fahrenheit apaixona-se por uma moça subversiva e sente-se impelido pela curiosidade pelos livros, objetos proibidos. O personagem de Joaquin sente-se só, também apaixona-se (pelo OS-Scarlett), e tem todos os sentimentos contraditórios que só as boas pessoas têm num relacionamento. A moça do conto pretende viajar a Marte para se casar. Independente do futuro, o que move os personagens são os sentimentos.

Her é mais um ótimo filme com um roteiro pouco provável de fazer sucesso protagonizado pelo Joaquin. O cinema sempre conta tantas histórias de amor, às vezes precisa dar um fôlego novo para elas. E, de lambuja, fazer uma crítica ao mundo cada vez mais com os olhos (e o coração?) enfiados nos OSs da vida.

Só um comentário sobre Don Jon: é divertido! Levitt conseguiu realizar um trabalho de primeira. Só tem uma coisa ali que eu achei que poderia ser diferente. Não é futurista, Scarlett está em carne (e que carne!) e osso numa personagem das que mais se encontram aqui pelo nosso mundo, e é tão crítico sobre as relações pessoais quanto Her. Num papel relativamente pequeno mas muito forte, Julianne Moore, honra uma pequena parcela de mulheres (que nem sempre se encontram só numa “idade madura”) que ainda se encontram neste mundo. Se têm alguma coisa em comum? São ambos super sensíveis às coisas que se passam aqui dentro de muitos de nós. Porém, não se iludam, filmes não fazem as pessoas voltarem os olhos para aquilo que escolheram ignorar.

 

(ps: comecei este texto mais de uma semana antes da data de publicação, tive que interrompê-lo (coisa que detesto) por motivos de força muito maior; eis que tinha que publicá-lo e confesso que Dallas Buyers Club juntou-se à American Hustle – não passei dos primeiros minutos – e já assisti Save Mr. Banks e Prisioners (o primeiro sem muitos comentários, pelo segundo eu não dava nada mas valeu a pena, principalmente pelas atuações)

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