“os carinhos do motor”

Entrou, sentou, bateu a porta. Bufou. Numa cápsula, enfim. Gestos coordenados, o cinto, os espelhos, o freio de mão, a ignição, o som. Chovia como há tempos não se via. Chovia. Já se inspirara alhures nas imagens da chuva sobre a cidade. Deu o pisca e foi. Noite. Noite vazia de cidade operária. O coração sorria com as canções do CD. Sorria. Chovia. E era gostar tanto assim de dirigir na chuva quanto off road. O paralelepípedo, que era cidade de ainda tê-los, molhado, desnivelado, esburacado e pintado pelas luzes. Seguiu ruas vazias seguiu rumo nenhum seguiu sorrisos e versos. Queria estar sozinha. Entrou em ruas que já de tanto conhecer-lhes os nomes, os havia esquecido. Sim, sim… agora entendia, Belchior, os carinhos do motor. Era ele e ela e um sem fim. Ela queria dizer que jamais esquecia do que quer que fosse. Jamais. Tinha cá o inferno particular que é lembrar. Ruas vazias. Chovia. Sentia-se tão parte dele e ele dela, sem dúvida. Se tivesse imaginação diria que ele a acariciava. E aquela – aquela – canção tocava. Aumentou o volume. Cantou junto. Queria viver presa na imagem da chuva sobre a cidade à noite. Até porque… ah! até porque… Queria estar ali e estava. O olhar rápido entre um espelho e outro, detalhando os reflexos no asfalto, nas gotas do pára-brisa. Um dia apaixonara-se pelos reflexos. Coisa de gente que olha o mundo pelas lentes. Era melhor não falar de paixão. Melhor, não. Amaria. Chovia. Pensava nos sentimentos. Ah, mas diz que o amor não precisa de Filosofia. Precisava – lhes digo que muito precisava – do amor e da Filosofia. Se perdia. Chovia. Parada no sinal ficou com aquele temível olhar fixo num ponto entre o nada e o tudo. Ah, mas o trem passa e poderia levá-la. E não são assim todas as histórias? Inventaria mais um personagem. Criaria um a la Tyrone Power. Pois tem isso, quando se cria um personagem deve-se dormir e acordar, tomar banho e beber vinho, com ele. Cansara dos seus personagens dolorosos. Queria Tyrone do Rawhide e não daquele mascarado famoso. Fazia bico de charme nos solavancos dos buracos das ruas abandonadas daquela cidade operária – e sentia-se um tanto operária e entendia suas dúvidas, anseios e irritações das últimas semanas – e a mão acariciava o volante lembrando da praia Brava e do Sertão do Ribeirão. Dê-lhe uma estrada de chão e a faça feliz. Já havia dito que um dia fugiria, mas certeza que avisaria. Iria. Chovia. Chegaria em casa, ouviria de novo a canção-hino da sua libertação – era a hora de tudo mudar – flutuaria e iria para a cama encontrar-se com Tyrone. Assim como no banho do dia anterior, a vida era melhor servida com boas doses de sonhos de olhos abertos. Pois esses sonhos de olhos fechados cheios de escadas a confundiam. Nos azares da vida preferia ter um Tom Owens ao seu lado na cama do que tê-la vazia. Vazia. Chovia. Ah, os carinhos do motor. Suave deslizava e até se sentia amada. Fugira. Voltaria. Chovia.

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