Tempo é amor

 

Diálogo real

– É casada? Namorado? Um ficante? Um rolo qualquer? – ele me interrompe com cara séria.

– Não. Não. Não. Não. – eu, com um sorriso complacente – Você me pergunta isso toda semana, sabia?

– Sei, sim. De um dia pro outro pode mudar. – ele, ainda sério.

– Ah, não… acho muito difícil. – já preparo meu sorriso de ‘vou fazer uma piada idiota’ quando o assunto fica sério. (sempre faço isso e sei que não adianta, mas não desisto)

– É isso que eu não entendo. – sim, a seriedade já me assusta.

– Não entende o quê? – aí libero meu sorriso extra-mega-super-simpático.

– Você não ser casada, não ter um namorado grudado em você. Você… (uma ênfase, uma pausa, uma coragem) você seria a melhor esposa. Como é que não tem ninguém com você? – como se fosse possível, ficou ainda mais sério.

– Ah, eu seria uma boa esposa? Você nem sabe se cozinho tão bem e, ó, não passo roupa e nunca peguei um bebê no colo. – eu sei, eu sei, minhas tentativas de fazer piada falando sério são um fracasso.

– E daí? Eu poderia passar a vida inteira ouvindo você falar. – e aí ele combina a seriedade com um sorriso encantador (pois eu já ouvi isso antes e já vi dúzias de sorrisos encantadores na vida).

– Ah, aí eu duvido mesmo. Ninguém suporta me ouvir, sabia? Começo a achar que isso aí é cantada barata. Conheço as pessoas e me conheço, falo demais, de mil coisas e ninguém aguenta mais que meia hora. – eu, séria com um meio-sorriso sarcástico querendo encerrar o assunto.

– Eu gosto de te ouvir. Tudo o que você fala, sabe? Me faz ter idéias. Me faz querer falar de mim. – a seriedade desapareceu, o sorriso também, e pude vislumbrar uma melancolia.

– Mas eu já não te disse que pensar demais faz mal? – dou o meu melhor sorriso – Deixe esse mal pra mim, acho até que já me dou bem com ele.

– Mas nunca vou entender você sozinha. – não sei se foi insistência ou persistência dele, mas com sorriso maroto.

– É que não depende dos outros, entende? Depende de mim. E por mim, só você sabe, viu?, tenho preferido conviver com as idéias. – aí a melancolia era minha, sem seriedade e sem sorrisos.

– É… não sei se entendo. – e aí um anjo dos céus interrompeu a conversa que já tinha ido longe demais.

Pessoas especiais: tenho o prazer de tê-las na minha vida. Este 2014 mucho loco me presenteou com algumas delas. Mas, quase tudo de bom que 2014 me deu, também me tirou. Este rapaz do diálogo é mais uma dessas pessoas especiais e tornou-se ainda mais nas últimas semanas. Não foi a primeira vez e sei que não será a última que passarei por um interrogatório sobre ser ‘sem’ marido/namorado/ficante/peguete. Não vou escrever sobre como, ó, a sociedade oprime as solteiras e como as cabeças nos obrigam a estar com alguém. Lá fora as coisas realmente são assim, aqui não.

Fiz a piada de não cozinhar tão bem nem passar roupa ou segurar um bebê (é tudo verdade, viu?) porque eu sei o que um homem ainda espera de uma mulher como conjugue. É triste mas é real – não seria a realidade sempre algo triste? Comentava, esses dias, com umas pessoas sobre isso e chegamos à conclusão (li alguma coisa que me levou a isso também, mas nem lembro o quê) que o homem continua com a mesma visão machista, mas agora ele exige que ela trabalhe. Eu juro que não vou escrever muito sobre essas questões porque estou perturbada e bêbada de Stendhal – guru, amigo, irmão de pensamento. Do jeito que os homens querem as mulheres eu não quero ser esposa/namorada/amante. Já disse, meu último relacionamento acabou no exato instante que ele quis discutir a estampa da cortina da cozinha do apê dele. Mas, Jesus, quero nascer de novo se for pra passar por isso.

Eu quero escrever sobre dois pontos: as palavras (que não devem ser ditas) e o tempo. Sobre as palavras há uma preocupação de ordem acadêmica e criativa, confesso, que me persegue há anos e agora vou me dedicar a estudá-la com mais afinco, mas pra hoje temos algo informal. E sobre o tempo… bem, o amor pode ser aquilo que inventaram só pra justificar nossa procriação, mas o tempo existe sim.

Sou reconhecida por falar (demais, diriam uns) e fui sincera quando disse que ninguém me aguenta muito falando, muito menos pelo resto da vida. Dizia lá uma pessoa querida da minha adolescência que devemos casar com quem gostamos de conversar porque quando tudo acaba, só resta um bom papo (já devo ter escrito isso aqui, além de falar demais ainda me repito). Passei muito tempo acreditando nisso. Até que aprendi a delícia do silêncio a dois. Já pensou se eu fosse casar com todos que me deleito conversando?! Ia ganhar cartão de pontuação de fidelidade de cartório. Mas, não, pois se tem algo que afasto com veemência da minha vida é a banalidade. E as palavras banalizam as relações. Eu raramente digo o que sinto. Porém, não deixo de sentir jamais. Tem um exemplo que vou antecipar aqui sobre o dizer não dizendo. Na “Esse cara sou eu” do Robertão, que eu acho linda-maravilhosa-perfeita e suspiro toda vez que toca, tem um verso – só um – que eu diria pro Rei trocar. Quando ele canta “e no meio da noite me chama pra dizer que me ama” (eu sei, os malas reclamam dessa música – seria porque despertou neles o quanto eles não são ‘esse cara’ para suas respectivas? (quando homens) e porque despertou, nelas, o quanto o ‘cara’ delas não tem nada de especial?). Eu mudaria o “dizer” por “mostrar”. Só isso. Porque o meu ‘cara’ deve me chamar no meio da noite pra mostrar que me ama. Poderia ter resumido o parágrafo todo por “atitudes valem mais que palavras”, mas, vê, falo/escrevo demais.

Escrevo, é um hábito, um exercício, uma profissão de fé. Gosto de ver idéias em palavras (apesar de que a praia agora é outra). Mas eu não sou palavras. Muito menos relacionamentos o são. Em tempos de Whatsapp é difícil entender, eu sei. Quem diria que chegaríamos a este ponto da revolução tecnológica para ficarmos dependentes de comunicação viciada em… palavras (mal) escritas. Nem Bradbury teria previsto algo tão insignificante.

E, enfim, sobre o tempo. Além do Stendhal, sei que o último fim de semana maravilhoso me fez voltar os pensamentos a esta questão. Quis escrever sobre ela faz uns meses, porém 2014 não tem sido querido. Sim, a teoria de que o amor é algo inventado (e não é exclusividade cristã) para nos diferenciar dos animais e justificar nossa procriação não é minha. Lembro de ter pensado isso em algum momento glorioso da minha adorável adolescência (enquanto as amiguinhas namoravam desde os doze anos com quem hoje já são casadas) e é bem provável que fui influenciada por algo que li na época – sim, eu lia muito, foi o que me estragou pro resto da vida. Também não é nada original que amar é doar o seu tempo. Despender tempo com as coisas e as pessoas é a única real demonstração de amor que existe. Em especial para uma pessoa que é solitária por prazer. Não são declarações (as quais, aliás, acho que nunca fiz – pensava cá esses dias), não são buquês de flores, não são cartões e bilhetinhos, não são presentes caros, não é apresentar para os amigos/família, não é nem aquele sussurro ao pé do ouvido na alcova (sim! Também quero escrever sobre isso) nem andar de mãos entrelaçadas. É dedicar tempo. E, ah!, como tenho amado por estes meses!

Fui no aniversário de uma amiga de longa data e eu era a única sozinha ali – eu e a aniversariante. Todos os outros convidados eram casais. Já não sou das mais sociáveis, como todos sabem, e no meio de um papo que girou sobre “dormimos juntos sexta, sábado e domingo” (todos deram esta mesma resposta e ficaram analisando se configurava união estável ou não e tal – havia advogados no recinto) e os financiamentos da Caixa para comprar o apê, além de onde o piso ou o forno de embutir era mais barato, é óbvio que entrei em tédio profundo. Elas ali querendo parecer sensuais e gostosas e maduras e eles a fazerem piadas infantis e poses ridículas e comentários idiotas. Fui me servir e encontrei a aniversariante pegando refrigerante, aí fui obrigada a comentar “E aí, só nós duas sobrando ali no papo de casal. Mas tem cachorro-quente, aí é a nossa praia, né?” e ela deu uma sonora gargalhada. Ela me conhece faz muito tempo, sabe de histórias e histórias, e eu posso dizer o mesmo dela. Aliás, o cachorro-quente estava fantástico. Já avisei a mãe dela que passarei lá qualquer dia desses pra comer mais.

Amar não é escolher o piso do apê. Ninguém vai me convencer disso. Amar é doar-se. É doar o teu tempo para estar com, conversar com, ajudar no que for preciso, só fazer companhia, assistir à novela e ao horário eleitoral junto, pedalar junto, ir ver o pôr-do-sol junto, ouvir (de verdade) o outro. É deixar os compromissos um pouco pra depois só pra poder ficar ali deitado junto, ninando e afagando as saudades e dores do outro (que, às vezes, são nossas também). É mudar toda a rotina pra encaixar tempo pra todos que são dignos do nosso amor. É levar no médico, é levar pra vacina – e não, não é por mera obrigação. É ter tempo para parar tudo o que está fazendo (mesmo diante de prazos apertados) para explicar bem uma coisa que o outro tem dificuldade. É deixar o tempo escorrer em gotas de nós mesmos. Posso não acreditar no amor que me contam, mas conheço bem o tempo.

Tenho amado intensamente neste ano. E, não fosse o tempo, amaria ainda um tanto mais. Tenho feito verdadeiros milagres e preciso de mais alguns até dezembro. Amo tanto e tantos e tanta coisa que tenho me deixado em segundo plano – sei que não deveria, mas… Também tenho feito papel de idiota, é claro, como sempre. Porém, diálogos como o citado aqui me fazem ter certeza de coisas bem especiais. E deixemos a questão do dinheiro (ah! Stendhal!) para outra hora e a discussão sobre ter que deixar de amar por falta de tempo ainda não está pronta.

E é isso, estou que é só amor. Culpa do Stendhal. Do fim de semana. Culpa dos meus ilustres pensamentos. Qualquer dia volto a escrever coisas sérias.

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