que lhe cabe

Amara as madrugadas. Amara o pôr-do-sol. Amara, um dia, ver o sol raiar. Amara ver a lua nascer. Amara as intermináveis conversas em horas que todos calavam. Amara o lilás das fotos do incerto do dia, quando não se sabia se luz havia. Amara as manhãs em que a alegria não via o relógio mudar o ponteiro. Talvez nunca tivesse amado o meio, em que não era manhã nem noite e demoravam-se a ir embora – as tardes. Amara ouvir os começos vagarosos do dia e os fins exaustos dos mesmos. Amara os silêncios. Quando pensava demais eram só eles que tinham autorização para lhe fazer companhia. Silêncio de si, do dia, das bocas alheias. E lhe custava, agora, sequer pensar nas bocas alheias. Deixemos pra lá. Amara um por vez, alguns ao mesmo tempo, sem muita contradição, e mudava seus amares às vezes conforme a estação, às vezes ao sabor do humor ou até da idade. Nunca foi sempre a mesma. E não entendiam. Por isso agora ela já não se importava – sofria um tantinho, é claro, só para acreditar que não era assim tão desumana como lhe diziam. Tinha tanto amor, quem sabe.

Ama os fins de tarde. Se fosse o capítulo de um livro, o título de um filme ou de uma canção, seria: os minutos dos desejos. Pois é ali naquele tempo mais pra cá ou pra lá entre o dia e a noite que os desejos estão à flor da pele. Não é ao amanhecer, nem na alta madrugada. E o fim de tarde, de fato, não existe. Ele fica perdido entre minutos que calculam o hemisfério, a despedida do sol, a demora da lua, os encontros e desencontros astrais. E talvez por isso fosse amor contínuo. Para quem vive aos números, não existe o fim de tarde – pois a tarde acaba às 18h no mesmo instante que começam os protocolos de “boa noite”. Quem lhe dizia “bom fim de tarde!”? Ninguém. E no aflorar dos desejos é que existe o melhor do dia. Um silêncio frio reinava sobre os impropérios de uma TV esganada em algum andar do prédio e da furadeira incansável do vizinho que prolongara a manhã e a tarde. O fim de tarde é o ar frio de qualquer estação que súbito avança até os ossos. É este instante. O fim de tarde é a folga dos pensamentos suplantados por puros – nem tão puros – desejos. São as partidas. E a solidão de quem fica. Não há um poro que não respire o fim do dia. Ou da tarde, que a noite ainda é do mesmo dia. São os corredores e xícaras vazias. É a mão fresca a massagear a nuca. É esticar a coluna. É o olhar vago e o suspiro. Ama os fins de tarde como jamais amara alguém. Às vezes ouvia até o zumbido do ouvido e ficava a desejar. Desejava fechar os olhos e deixar a vida entregue às promessas da noite. Às vezes era só nesse instante do fim de tarde que a vida lhe pesava de verdade. Nas outras horas ela fingia carregá-la com grande alegria, esforço e vontade. Ela desejava fazer confidências, confessar medos, rasgar verdades. E calava. Desvairava pensamentos distantes da realidade, esta que a todos os outros momentos lhe espancava a alma. Pois desejava e desejos são da alçada da alma. E a noite tão solícita com as falsas esperanças das pessoas chegava sem hora. Deixava-a ali a obrigar-se a seguir. Apreciava o frio nos pés e mãos, o corpo dolorido, mas já não era mais possível. Os sons que espantavam o silêncio, o violão da aula que começara no andar de cima, os carros chegando na garagem, as portas que batiam, a luz artificial: os desejos não mais vibravam na pele. Era a noite. Já não sabia ao certo, mas por esses tempos as noites pouco lhe importavam se não trouxessem algum prazer ilícito. De resto as via como as malvadas que lhe sacavam os desejos à flor da pele. E eles ficariam ali encantados sob um manto de obrigações e olhos sem destino até o próximo fim de tarde. Ama os fins de tarde que é o amor que lhe cabe.

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