“y yo sentir”

 

Antegozando o prazer dos sucos de acerola que se encontravam nas minúsculas flores brancas que eu via da janela, pensei: não tenho porque ficar triste. Terei dias de sol, terei sucos de acerola, verei meu cachorro pulando para comê-las do pé, terei banhos de mar, terei destinos novos a me deliciar. Sem rumo, sem horários a cumprir, sem novas paixões, sem certezas: e cá estava a sorrir e a dançar. Uma lunática, diriam. Uma mimada, de fato. Uma sonhadora, sem dúvida. Ah, sou daquelas que pára a vida para gozar o pôr-do-sol. Senão a vida não é nada mais que um senão. Das guerras travo as mais distintas e tem dias que não quero ganhar. Pensava em enterrar amores, de novo. Ou quase-amores. Talvez amanhã eu pense em prazos. Não conheço nada que dure para sempre e assim enterro e dou fins como se, sim, houvesse amanhãs. Há amanhã: não tenho porque ficar triste. Não tenho bens móveis, nem imóveis nem uns meio-parados-meio-andando. Não tenho dinheiro no banco. Não tenho carne da minha carne nem sangue do meu sangue. Não tenho contratos. Tenho uma dívida ou outra para que alguém sempre lembre de mim, para ouvir ao menos o telefone tocar. Tenho passagens compradas porque parar me mata. Não leio mais notícias. Tenho cá novas dúzias de fotografias. Espero que no próximo ano a cerejeira da minha janela dê frutos que já será hora. O canteiro de roseiras cresce com vigor. Não deixo mais de apreciar o sobe e desce dos aviões. Sei que tem quem não precisa mais de mim – dói, de dor entendo, sobre qualquer outro sentimento nunca sei direito o que fazer. Desconfio que faço, agora, o que é certo pois as gatas retornaram a minha cama e de prazeres elas entendem. Devorava uma sopa de feijão acompanhada de um Vitor Hugo e pensei: preciso de malícia. Reparei bem e falta-lhe, ó, Mundo, malícia. A doce malícia, não a vil. Preciso do sol a queimar a pele e de pés descalços, não nego. Talvez, até, esteja precisando de palavras. A Primavera já levou muitos dos meus amores – é quando mais a vida me tira quem amo e a quem um dia amei. E, sei lá, é nela que boto fé. Não tenho porque ficar triste, o inferno não dura a vida toda. Sofrer de véspera é meu lado perua (vê só, nunca usei estampa de oncinha), mas antegozar o intangível é o quê? Sei não. Não sei se quero saber. Como diz a canção “tu empeñada en que querías ser feliz y yo sentir”.

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