As mãos

Tamborilava as mãos sobre qualquer superfície como expressão da carência que sentia. Passava as mãos por corrimãos de escadas, espaldares de cadeiras, puxadores de gavetas, alisava a textura das colchas… as mãos tornavam-se ágeis dias e noites. Incansáveis observadoras das sensações que o mundo – duas doses melancólico, uma triste e três solitário – tão pouco ainda lhe proporcionava. Sentir… jamais imaginara falta que faria. Não estava a pensar em sentimentos, desses nunca nos livramos. Sentir sensações. As mãos tentavam sentir mais. Arrastavam-se pelas prateleiras do supermercado. Demoravam-se afagando os pêlos dos bichanos. Enrodilhavam-se na lã das cobertas. O calor e o frio: como lhe faziam falta. Supria, com as mãos, as sensações que lhe faltavam no corpo todo – e nisso não queria de jeito nenhum pensar. De jeito nenhum. De tanto jeito, não havia jeito: pensava. E pensava… e qualquer contato lhe atarantava. Um dia se perguntara se não sabia mais o que era sentir. Talvez não. Gostava tanto de água, como todos sabem, e se deliciava em senti-la em todas as temperaturas – aí não eram só as mãos que se esbaldavam. Deixava estar o corpo molhado debaixo do chuveiro e, apesar do seu carinho pelas toalhas macias, ficava em frente ao espelho vendo o reflexo da luz nas gotas espalhadas pelo corpo até que tivessem sumido. Achava a pele molhada um quê mais bela e serena. Pegara essa mania de rolar o cabelo entre os dedos, de vai e vem dos dedos no pescoço, de traçar o contorno dos lábios com o polegar. Quanto mais concentrada, durante um trabalho ou problema, mais seus dedos desenhavam o teclado do computador, as bordas da escrivaninha, os limites estreitos da caneta. Até quando dormia, vejam só, na cama larga e firme, as mãos em meio aos sonhos deslizava pelos lados vazios, subia e apertava curiosa os travesseiros. Ou subia um pouco mais e enganchava os dedos na cabeceira de ferro frio como se ali acorrentada estivesse. Apreciava até quando faltava luz só pelo prazer de andar com as mãos espalmadas ao lado do corpo decorando cada aspereza das superfícies. Nem assim avivava as lembranças de sensações há muito desgastadas e abandonadas. Sobre algumas, se perguntava: um dia, as terei de novo? Não sabia. Talvez nem soubesse mais como eram – que para a memória também serve a máxima: a prática melhora a performance. Só o que lhe restava, com um raio, eram legítimas alucinações. E tudo ficava preso em imagens. Imaginar, todos sabem, não é sentir. As mãos não imaginavam, apenas passeavam por um mundo que perdera um pouco da sua leveza. E seu humor lhe garantia que elas, felizes e saltitantes entre texturas e calores e frios, não lhe bastavam. Nem elas, nem a imaginação. E, por isso, às vezes tentava ver-se livre da imaginação e do pouco que as mãos lhe faziam sentir. Sem nada para substituí-las, o mundo a apavorava e ela voltava correndo fazer as pazes e deixava-as – as mãos e a imaginação – livres.

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