Logomarcas

 

Ficou ali observando e pensando nas pessoas e nas suas vidas tristes. Qualquer um sentiria pena, qualquer pessoa de bem com os pensamentos mais óbvios e ridículos. Não sentia pena. Desnudara-se de sentimentos em relação às pessoas, talvez. Ah, as pessoas! O grande mal do mundo. Ao mesmo tempo tão intrigantes e interessantes e repulsivamente abomináveis. E os abomináveis nem eram os serial killers, abundantemente eram os mais instruídos e donos de tantos bens móveis, imóveis e imateriais. Enquanto os intrigantes eram as figuras mais insuspeitas da face da Terra. Qual a porcentagem de uns e de outros? Difícil dizer. Impreciso, talvez. E, ainda talvez, uns pudessem ser ambos. O mundo ficaria tão bem sem as pessoas. Tinha convicção disso. E olhava ao redor pensando no quanto nada daquilo nunca nos últimos cinquenta anos mudara – nada. E ali viviam e trabalhavam e circulavam as pessoas mais jovens, antenadas e eficientes do momento. Antes delas as mesmas jovens, antenadas e eficientes de outras décadas por ali circularam – mas umas não viam as outras e agora a logomarca ali na torre era moderna, diferente, de linhas curvas. A logomarca unificava toda a mudança, a novidade, o tempo. Alguém mais percebia que aquilo não mudava era nada? As vidas tristes que por ali passavam, fosse num estágio da vida de uns e outros, fosse a vida inteira para alguns, as vidas tristes são sempre as mesmas. E são, sim, tristes. Ninguém diria isso, entre rodízios de sushi, noitadas regadas a cerveja, encontros permeados por altas discussões culturais e teóricas, apartamentos recém-decorados, carros novos, viagens e compras no exterior. Ninguém diria. Eram, assim, o topo da pirâmide. Bem, se não o topo, aqueles que elogiadamente galgavam todos os degraus para um dia lá perdurarem. E a tristeza, onde estava que só ela via? Ali, saltando aos olhos. Vidas tristes também, reparem, devem ser vividas. Ela mesma não usufruiria tão bem da sua vida se não houvesse essa inundação de tristeza em volta. Seria, talvez, menos feliz se não percebesse a enrascada que eram as vidas tristes daquelas pessoas. Via a logomarca, as cores, o entra e sai, os gestos – Ah! Os gestos! Gestos irrefletidos e, por isso (desconfiava), tão hermeticamente iguais. Gestos que viviam anos-luz distantes das almas. – e nada lhe parecia autêntico. Nada lhe parecia vida. E, no entanto, eles riam, ouviam música alta, combinavam programas maravilhosos, tomavam banho de piscina, cuidavam do corpo e da mente. Chegou a duvidar das próprias observações. Quem sabe aquilo tudo poderia ser algo que chamamos de vida. Seu apego às dúvidas não lhe permitia deixar de considerar isto. Pensava em tudo que via, nas fotografias tão candidamente postadas todos os fins de semanas, nos compromissos selados em noivados e compromissos sérios, nas viagens metodicamente exibidas, no prazer com que alardeavam que trabalhariam, trabalhariam e trabalhariam… pensava. Ainda assim lhe pareciam vidas tristes quando ela pegava da lupa e buscava a espontaneidade. Buscava, ali apreciando o vento entre as árvores, a naturalidade de tudo aquilo – até mesmo das piadas ruins. E por falar em árvores, não pôde deixar de reparar em como as pessoas evitavam o sol matutino e se aglomeravam debaixo da única árvore da rotatória. Eram vidas tristes as que fugiam do sol e buscavam uma nesga de sombra. Autômatos, será? Por isso lhes faltavam a espontaneidade e a naturalidade? Um estudo comportamental elucidaria que é o agir por imitação, a ação como cópia. Quem não imita e não copia, pode, enfim, não ter uma vida triste. Seria o fim do mistério? Talvez ela não quisesse encontrar uma solução. Apesar de ter identificado o problema, tinha a tendência dos cientistas que mais se apaixonam pelos problemas do que pelas respostas. O Show do Milhão é que precisa de respostas. Não, não, não, não falaremos em dinheiro. O programa do homem do Baú foi só um exemplo feliz. Chegou a pensar na rispidez da crítica. Justifica, com frequência, que adota o silêncio porque as pessoas e suas vidas tristes não suportam dedos nas feridas. E a crítica, tão demonizada nos cultos da sociedade, até lhe fazia gargalhar surpresa no meio da calçada. Não deixava, porém, de ser ríspida, ácida, cutucante. Achava a vida tão sem graça quando não podia cutucar os outros. Evitava, é certo, porque, as pessoas, enfim, ah! as pessoas! Aquelas vidas tristes sobreviveriam. Ela, não se sabe. As vidas tristes são blindadas contra as verdades da vida e, numa comparação menos feliz e menos criativa, são como as baratas – passará o fim do mundo e elas continuarão. Se sobreviver, será sempre feliz – um tanto mais feliz porque não perderá, como um espírito de porco inspirado, a chance de observar de perto aquelas vidas tristes. Se sobreviver, ficará muito mais tempo observando as levianas mudanças das logomarcas, as famílias se formando, as dúvidas cruéis sobre os vestidos de noiva – e, também, não deixará de sorrir ao som das trovoadas, ficará ao sol matutino, longe da sombra confortante, não postará a foto do manjar dos deuses que foi seu almoço, nem dividirá com ninguém aquilo tudo que lhe passa pelo coração.

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