Sonhos de Miss Potter: aos leitores

 

Um dia desses li um texto politiqueiro totalmente ausente de qualidade, desses que publicam em blogs coletivos regionais, e nos comentários um leitor fazia boas considerações sobre a precariedade da falta de argumentos do autor. Eis que, na resposta deste ao comentário, ele não se ateve ao conteúdo do que foi dito, mas dizia que tinha visto o perfil do leitor no Facebook e que surpreendeu-se ao ver que era um jovem e não um aposentado reaça (ou algo assim) com tempo para escrever bobagens. O autor do texto é pessoa que nem merece mais meus comentários, as atitudes dele falam por si. Porém, na sequência, o autor dizia que este ou aquele leitor deveria ler um livro – no sentido de, imagino eu, insultá-lo.

Tentei encontrar algum jeito de começar este texto. Foi difícil. Nem acho que este exemplo foi o melhor. Tenho me deparado com tanta gente ignóbil que usá-las como exemplo é uma tentação. Mas, enfim, é disto que quero falar: livros.

Ler livros não te faz uma pessoa melhor, nem mais inteligente, ou mesmo culta (sábia, então, nem cogitemos). Frases feitas que dizem isto ou que viajar te faz uma pessoa melhor são mais vazias do que um balão – pois este ainda tem ar. Conheço pessoas que já viajaram o mundo e como pessoas são as mais horripilantes. Conheço (ainda mais) pessoas que já leram muito – e muito – e são algumas das piores do mundo. Então, a falha no argumento “vá ler” é evidente e auspiciosa. Porque o contrário também é fato: há pessoas inteligentes, sábias, bondosas que nunca leram um único livro – muitos, inclusive, por nem terem acesso.

Eu não gosto da arrogância esnobe de quem “lê” e exibe isso para mostrar-se superior aos outros. Já considerei uma qualidade a pessoa ler, hoje a coloco em categorias: “lê mas é um pedante”, “lê mas é burro feito uma porta”, “lê mas é só para postar no Facebook”, “lê por algum suspeito complexo de inferioridade”, tem categoria de todo tipo.

Mas, vejam só, muita gente lê. Gente de todo tipo. Gente que lê livros de todo tipo. Ano passado me deparei com algumas situações que foram o estopim para esta reflexão. Entre grupos de aspirantes a escritores (não esqueçam do “aspirantes” pois eles mesmos com qualquer oficina ou curso já se intitulam “escritores”) é tão comum ouvir que há mais gente que escreve do que gente que lê – como, ó, uma dor do ofício num mundo tão ignorante. De fato, há muita gente que escreve – ainda bem, não? Qualquer um pode escrever, qualquer um pode publicar. Ainda bem. Mas na questão dos números acredito que precisaríamos de dados mais precisos, um cálculo de quantos escritores existem, quantos livros são vendidos, quantas pessoas lêem, essas coisas. Como já é sabido, desfiz minha amizade com os números, mas seria uma pesquisa interessante.

Entre escritores, pseudo-escritores, aspirantes a escritores, alunos e professores de Letras e todo esse pessoal da área, infelizmente há muitos preconceitos, esnobismos e narizes torcidos. Talvez o pior deles é achar que literatura (no caso) só interessa a entendidos. Dentistas, médicos, engenheiros, analistas de sistemas, donas de casa, policiais, balconistas, economistas, jardineiros, lêem, se interessam, gostam e, sim, entendem de literatura. Subestimar os leitores é uma fraqueza de caráter que pouco se vê em outras profissões.

Eu quero escrever. Não sou escritora. Talvez, um dia. Eu sou leitora. Deixei de lado os trabalhos em audiovisual porque tropecei em péssimos colegas de profissão e como é um trabalho coletivo a coisa não deu muito certo. Sempre apreciei o trabalho solitário do escritor – qualquer trabalho solitário me agrada mais. Sempre apreciei a prática solitária da leitura. Não levo jeito com as pessoas (tenho bons motivos). Me meti a estudar a arte da escrita e foi uma aventura – literalmente em alguns momentos. Mas conhecer alguns escritores e aspirantes a tal foi nefasto. Não me sinto solitária, porém, na crítica. Escritor também é dessas profissões que podem agregar prestígio e fama, aí já viu, né.

Sobre a crítica e o glamour da profissão, em 2014 surgiram algumas vozes dissonantes. Para ser escritor hoje você precisa ser uma estrela, uma pessoa famosa, fazer participações brilhantes e teatrais em feiras de livro, precisa tirar selfies com fãs, etc.. Não basta escrever, é preciso atuar no mundo real. É preciso ser descolado, claro – hoje em dia todos precisam, não? Também vimos escritores reclamando que o ganha pão vem de escrever para jornal, escrever textos encomendados, viver da miséria dos cachês de participação em feiras e eventos. Escrever não dá dinheiro – afirmação duvidosa. Ou se você ganha dinheiro é porque escreve coisas populares – vulgo, ruins.

Entre meus estudos me deparei com este problema: a literatura se coloca (é colocada, obviamente) sobre todas as outras artes, é-lhes superior. O texto escrito é, ainda, elitizado. Por mais que estudos (dentro das universidades, na quase totalidade, infelizmente) tentem desmistificá-la, popularmente ainda é assim. Para ficar mais breve e claro, para apreciar música é só preciso ouvir, para apreciar artes visuais é só preciso ver. Em primeiro lugar, ser alfabetizado ainda não é para qualquer um,  interpretação de texto, coesão e coerência e essas coisas todas, precisam ser ensinadas. O acesso às artes determina muita coisa.

Minha relação com os livros nunca foi de amante, muito menos possessiva. Quando criança eu lia porque gostava, porque passava o tempo, porque eu ficava sozinha. Meus pais nunca leram pra mim, nunca fui obrigada a ler livro algum. Foram, porém, marcantes a prateleira de livros da minha mãe e as coleções da Barsa dela e da minha avó. Na Barsa fiz muita pesquisa escolar, descobri muita coisa do mundo. Por muitos anos eu ia todo dia na biblioteca da escola, pegava dois livros infanto-juvenis, lia na mesma tarde e devolvia no dia seguinte para pegar outros dois. Logo vieram os romances (quando a escola liberou o resto da biblioteca pra minha idade), os contos, Sherlock Holmes, Agatha Christie (da prateleira do pai), literatura brasileira (de trechos de textos que eu encontrava nos livros didáticos de português e anotava os autores) e tudo mais. Sim, tudo. No ensino médio comecei a ler Filosofia porque encontrei a edição Os Pensadores em casa. Na época eu frequentava quase que diariamente a biblioteca pública de Joinville, onde me apaixonei por Fernando Pessoa, Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues, Gabriel Garcia Márquez. Ia muito ao sebo Colin, mas dinheiro era coisa que eu não tinha. Qualquer trocado que eu conseguia corria pra lá procurar alguma coisa e foi assim que descobri uma das minhas paixões literárias: os best-sellers românticos e romances de banca de revista (Harlequin, Bianca, Julia, e essas delícias todas). No sebo tinha uma bancada de “Um real” que me atraía pelo valor, é claro. E aí eu catava alguma coisa lá. Se é literatura boa ou ruim? Pouco me importa. Tem dias que é só do que preciso. Até a graduação eu lia muito. Durante os cinco excruciantes anos de graduação eu li muito menos do que queria das coisas que gostava, mas li muita coisa por obrigação que foram proveitosas – outras nem tanto. Talvez eu tenha ficado mais chata para a leitura. Tive crises de não querer ler nada, de não achar nada interessante. A ficção, então, foi quase deixada de lado. Desde então tive períodos de não ler praticamente nada. E volta e meia surge um romance qualquer, um clássico qualquer, um livro de contos despretensiosos qualquer que me faz ficar ali docemente quietinha e encantada por algumas horas.

Minha história como leitora é igual a de muita gente. Mas não me confundam com esses que gozam prazeres como o “cheiro das páginas” ou a “capa sublime da Cosac&Naify” – cheiro de livro pra mim é cheiro de mofado, guardado e velho. Não. Eu amo a LP&M pockets, a Martin Claret foi uma mão na roda em vários momentos. Foi na graduação que comecei a sentir o cheiro esnobe dos adoradores de livros. Comentários sobre editoras, edições, capas e blábláblá. Eu não dava bola nenhuma pra isso – se tentei dar, felizmente passou. O que importa num livro? O que ele nos diz. Por isso hoje leio até num Kindle.

Sim, aderi aos livros digitais (com atraso, pois um Kindle durante o mestrado teria sido um anjo). Por quê? Porque é mais leve de carregar na bolsa (em 2014 eu mal desfiz mala e bolsa), porque tem muita – mas muita – coisa disponível de graça em digital (até aqueles que a gente não encontra em lugar nenhum) e nem ocupa espaço nas prateleiras. É uma delícia. Tanto quanto qualquer livro de papel. Sem frescura.

No final do ano eu ia participar de uma antologia de aspirantes a escritores (alguns já se intitulavam tal…). Me desgostou muito ver que o esnobismo estava presente. O que interessava? Uma edição primorosa. E só. E para isso, claro, pagaríamos caro. Não participei, é claro. Queriam uma edição à la Cosac e o que importava mesmo era a divulgação, que fossem enviados cerca de quarenta exemplares para jornalistas, críticos e afins com folders e tal. Afinal, eu iria participar de uma antologia para ter meu nome num jornal e um lançamento com comes e bebes fantástico ou para que as pessoas – pessoas – lessem minhas histórias? Senti que meus princípios e meus interesses divergiam do grupo. Como sempre.

Foi pouco depois disso que me deparei com um filme doce e interessante. Miss Potter, com a Renée Zellweger. Não sei se o comentário é pouco modesto, mas me vi muito na personagem/escritora. Além da posição dela como mulher da época (o fantasma que anda grudado nela é hilário, única coisa que nós mulheres não temos mais hoje, o resto é a mesma situação social, apesar de quererem que acreditemos no contrário), duas coisas me marcaram. Logo no início ela diz “o bom de começar uma história é que você nunca sabe onde ela vai te levar” (algo assim, vocês sabem como sou para citações). E é exatamente como me sinto quando escrevo – feliz e encarando uma aventura que eu não sei onde irá me levar. Ou seja, de nada serviram as aulas, as leituras e toda a teoria que diz que devo ter tudo programado e previsto sobre personagens, conflitos e tal. O outro ponto foi o que ela afirmou ao fechar o contrato para ser publicada: o preço. Deveriam ser baratos para que qualquer um pudesse comprar. Senti um aperto no peito durante o filme. É isso. O acesso. Qualquer um deve poder ter acesso. Para vocês terem uma idéia, a tal antologia da qual não participei sairia por trinta e dois reais (entre 120 e 160 páginas). Trinta e dois! Perto do natal entrei numa rede de livrarias e os mais vendidos (o novo da Fernanda Torres, algum John Green e tal) estavam por trinta e nove reais. A julgar que vivemos num país que tem vale-cultura a cinquenta reais e salário mínimo de setecentos e oitenta… sem contar a ausência de bibliotecas nas pequenas, médias e grandes cidades que poderiam suprir a demanda de quem não tem dinheiro para comprar livros.

Simpatizei muito com Miss Potter. A relação com a família que não reconhece o seu trabalho, o apaixonar-se por homens que admirem e consigam entender o que ela faz (isso é essencial), o pouco importar-se com as regras e blábláblás, o processo criativo, a preocupação da acessibilidade aos livros, o descaso com o dinheiro. Assistir ao filme me deu um suspiro alentador no final de um ano e tanto – e muito dedicado à escrita.

Sobre o acesso: o que importa é ler, o resto é esnobismo. Há quem viva bem sem ler. Há quem não viva sem ler – como um querido que me confidenciou que ficava mal se não lesse um pouco, ao menos, por dia (menos aos sábados por questão religiosa). Mas tenham certeza que ler, só por isso, não faz de ninguém melhor – alguns só ficam mais esnobes, pretensiosos, arrogantes, pedantes, ignorantes. Eu gosto de ler (amo meu gosto bagaceiro) e gosto de quem gosta de ler despretensiosamente. Às vezes é difícil ler um clássico, tenha cem ou quinhentas páginas. Às vezes é difícil entender porque tal livro ou autor é tão falado e elogiado e pra gente ele não diz nada. É o gosto subjetivo kantiano, não precisamos desesperar. Cada um gosta do que lhe causa prazer! E mesmo a literatura se pretendendo tão superior, a relação se dá do mesmo jeito.

Podemos ter centenas de títulos em abarrotadas prateleiras ou livro nenhum em casa e frequentarmos bibliotecas. Isso não diz nada sobre nós. Vira notícia quando descobrem que Marilyn Monroe tinha clássicos nas suas prateleiras, eis o que o mundo nos proporciona. O livro que me reabilitou depois das muitas leituras específicas do mestrado foi o Corta pra Mim, do Marcelo Rezende. Dizem que isso depõe contra a minha pessoa. Diria um outro querido que “clássico é o que fica” e as emoções que sentimos diante de uma história que lemos ficam, então é um dos nossos clássicos. E as prateleiras não estão em nenhuma sala ou quarto.

Agradeço às conversas que acrescentaram muito a essas reflexões. Agradeço às pessoas que me fizeram, no bom e no mau sentido, a ver as coisas de outro modo neste último ano. Agradeço aos leitores, meus e de outros textos, pois somos mais especiais como leitores do que como escritores.

(seguem links que li e me fizeram pensar nisso tudo e muito mais; sobre as perguntas do Michel Laub, caso um dia eu seja escritora, vou adorar responder qual o meu signo!)

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/diario-de-um-viajante-contrariado-13540191

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/andre-santanna-as-coisas-nao-sao-bem-assim-13541352

http://www.peterrabbit.com/en/beatrix_potter/beatrixs_life

http://elpais.com/elpais/2014/11/17/eps/1416222276_076944.html

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/michellaub/2014/12/1564329-perguntas-ao-escritor.shtml

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