Camelos passarão

E aquela mulher não ficava quieta. Chamou o filho “Diz que eu não tenho dinheiro pro remédio, diz pro médico que tu quer C E F A L E X I N A (dizia com uma acentuação engraçada) porque eu tenho um cunhado que já teve isso e curou.” E repetia C E F A L E X I N A. O rapaz quieto enquanto ela reclamava da demora. O segurança contava para um homem que ele não pegava a escala para trabalhar ali nas segundas-feiras, pior dia, porque sempre dava confusão e era preciso chamar reforço. A mulher irritante atravessou-se na conversa e, como havia entendido errado, comentou que era muito bom a Guarda Municipal cuidar dos carros do estacionamento. E o tempo não passava.

Os nossos problemas são, sempre, menores do que os problemas de tantas outras pessoas. Era este o meu pensamento sentada ao lado daquela mulher irritante. Sabe aquele tipo que dá palpite e acha que sabe tudo, manda e desmanda? Eu, quieta no meu canto, não escapei do seu ataque “Tá esperando muito tempo?” ao que eu respondi que não. Mesmo se estivesse, não daria este gostinho a ela. Não seria mais uma a me juntar aos reclamadores de plantão. Esperaria, é certo, e sabia que não levaria pouco tempo.

Naquele mesmo domingo, onze de outubro, o padre Juca fez um apelo. Pediu que rezássemos pelo nosso povo, pela intercessão de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, que seria celebrada no dia seguinte. Padre Juca lembrou dos desmandos, roubos e crimes que temos visto serem cometidos contra o nosso país – em favor dos que mais têm poder e que prejudicam muito os trabalhadores, nós, os que menos ou quase nada têm. Um país destroçado pela ganância e sede de poder. Um povo abandonado à própria sorte, sofrendo os danos infligidos por quem deveria trabalhar para ele. Talvez só reste, a este povo, rezar. Pedir à Mãe Aparecida a intercessão e proteção.

Estava no PA Sul pela décima segunda vez, segundo a minha ficha. Ao sair às pressas para a missa, prensei a mão no portão. Além dos ralados, doía. Era a mão direita, meu instrumento de trabalho – e eu imaginava o caos que seria não poder usá-la. A mulher insuportável e os dois filhos, homens feitos, tinham furúnculo. Um deles no dedo, outro lá onde vocês podem imaginar e ela eu nem sei. A cada minuto ela dizia que ia desmaiar, que estava tonta, foi até aferir a pressão. Eu aguardava a minha vez fingindo um estoicismo ardente.

Eis que minha atenção foi aprisionada por uma senhora. Agarrada a uma sacola plástica, ela era uma das vítimas da mulher irritante que a bombardeava de perguntas e ordens. Esta senhora era parente de um paciente que estava internado no PA – desconfio que irmã ou mãe dela. Sem notícias, aguardava. Sem deixá-la em paz, a mulher irritante incitou-a a entrar na área de internação.

Nossos problemas, como eu dizia, não são nada diante do que sofrem os outros. A senhora voltou da Observação e contou a história da paciente que ela acompanhava. Estava ali desde ontem, havia sofrido parada cardíaca e queriam transferi-la para Florianópolis, pois em Joinville não havia vaga. Vi as lágrimas conformadas naquele rosto seco e envelhecido, o vazio naquele abraço automático ao saco plástico. Os médicos estavam tentando de tudo, mas “na maior cidade do Estado” não havia vaga em CTI para um caso de parada cardíaca. Me senti por terra. Não queria mais estar ali. Passaria um cataflam na minha mão e ela ficaria boa. Mas por aquela senhora, por aquele paciente que nem sei quem é, eu não podia fazer nada.

Pouco antes de eu ser chamada, a senhora voltou – sem esperança. Os médicos haviam conseguido a vaga em Florianópolis, mas a paciente não estava em condições de empreender as pouco mais de duas horas de viagem. “Acho que ela não vai conseguir mesmo, só estão esperando” foi o que ela disse. E mesmo neste momento a mulher irritante soltou “Leva pelo menos até o Betesda, não deixa ela morrer aqui” ao que a senhora repetiu que não havia vaga.

Sabe quando você sente que nunca mudará o mundo? Quando você se sente sem palavras ou sem ter o que fazer? Eu me sentia pior. Eu vi chegar mais um senhor e uma moça com os olhos pastosos de tristeza. Eles se debatiam em telefonar pra esse, chamar aquele. E não havia vaga em nenhum hospital para que aquela pessoa lá dentro tivesse o tratamento necessário. Para salvar aquela vida.

Fui examinada e segui para o raio-X. Pela primeira vez encontrei o corredor dos consultórios vazio – justo naquele dia eu havia sido encaminhada para o Cirúrgico. No silêncio, rezei uma Ave-Maria pela paciente que estava diante da realidade. Da realidade de não ter um leito numa cidade que se orgulha dos seus mais de 500 mil habitantes. Da realidade de médicos que tentam de tudo, mas que se frustram por não ter como fazer mais. Da realidade da tristeza impotente dos que a amam.

A mulher irritante e seus filhos saíram de lá com os remédios e curativos. Eu peguei uma receita. Ao todo, o atendimento durou cerca de duas horas.

Pensei tantas vezes naquela senhora e na paciente. Aliás, não consegui tirá-las da cabeça. Me socorri nas palavras do padre Juca. Senti como é estar tão desolado que a prece é a única coisa na qual podemos nos agarrar. Mas senti, também, uma necessidade de escrever. E este texto saiu a marteladas, como se eu tivesse tanta coisa para dizer e não conseguisse, como se eu quisesse apontar culpados, como se eu precisasse escrever para dividir minha angústia. O caso da falta de vaga não rendeu capa para os jornais locais. Ninguém perderá votos, por isso, na próxima eleição. Eu não sei o que aconteceu com a paciente, mas desejo que ela esteja bem. Que o amor dos familiares, a intercessão divina e o empenho dos médicos tenham-na salvado.

O evangelho daquele domingo foi a famosa passagem sobre ser mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico ir para o céu. Talvez seja mais fácil fingirmos que o país vai bem, ou reclamarmos inclementes do péssimo atendimento de um PA que abrange toda a região sul de uma cidade populosa, ou simplesmente pagarmos um plano de saúde. Muitos camelos passarão, enquanto achamos nossos problemas mais importantes do que os dos outros e a todos nós só nos resta rezar aos céus.

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