Quarenta e dois dias

Quando eu acordava, era você que eu via por primeiro. Não sei mais o que são meus dias sem você além de uma sucessão de horas passadas sem memória. Meu corpo sente a tua falta. Meus olhos sentem a tua falta. Nem em sonhos eu te vejo mais. Eu vivia num buraco escuro quando você surgiu. Fomos, sim, como dizem todas as canções, tão felizes juntos. Fomos feitos um para o outro. As melhores e mais belas coisas que eu fiz na vida, lá estava você. Ah, como sinto saudade das nossas fotos juntos. Com você eu me sentia viva. Pedalar pelas cidades na tua companhia era sublime, nem importava o fato de quase ser atropelada ou o suor abundante que escorria pelo corpo: eu estava com você. Quantas aventuras juntos? Quantas presepadas e quantos tropeços meus você presenciou? Sempre ali ao meu lado, consciencioso, firme e me transmitia tanta confiança. Era tão fácil confiar em mim, com você ao meu lado. Era tão fácil sorrir pra vida, sabendo que eu te teria comigo.

Tudo perdeu a cor. Tudo perdeu a graça. Voltei ao breu da vida. Sem desculpa e com muitas explicações e justificativas, você se foi. Se foi com alguma promessa vaga de voltar. Dizem que você vai bem, longe de mim. Dizem até que vai melhor assim. Mas eu me agarro à esperança de um dia te ver de novo. De um dia tê-lo novamente ali ao acordar. Sinto frio todos os dias, o dia inteiro. Dizem que estou pálida, que não me animo a nada, que não ponho os pés para fora de casa. E é verdade. É a falta de você. Como um presidiário com longa sentença a pagar, conto os dias da tua ausência em risquinhos na parede. O tempo é um castigo. Não sei o que fiz pra te perder e por mais que digam que não é culpa minha, me penitencio.

As flores do jardim, as árvores, os cachorros e gatos, todos sentem tua falta. Ou são meus olhos que vêem neles a falta que você faz. Por vezes, sinto que minha alma escoa junto à chuva, se perdendo em milhares de metros cúbicos pela terra encharcada. Tem dias que sinto-me à beira da loucura, como atada à punições severas e querendo fugir para uma terra onde possa encontrá-lo de novo. Acordar, abrir a janela e não vê-lo é o resumo do meu dia. Foi assim hoje e nos últimos quarenta e um dias. Então, sem você, abro inutilmente as cortinas da casa e espero o horário de fechá-las, sem que você tenha vindo me fazer sorrir. Sem que você tenha aparecido pra despertar em mim a vontade de encontrar o ângulo certo para captar uma bela foto. Sem que você me anime a sair pelas ruas novamente.

Quarenta e dois dias sem sol. Quarenta e dois dias penando neste calabouço. Mas, dizem, você vai voltar. Dizem que ali acima, em algum lugar, você está. Tenho até medo da minha reação quando você aparecer… talvez eu saia dançando pelo jardim, numa espécie de dança do sol; talvez eu cante enquanto percorro as ruas buzinando e gritando “ele voltou!”; talvez eu sinta tanta alegria ao mesmo tempo que não consiga acreditar nos meus olhos; talvez, pela minha natureza desconfiada, eu espere pra ver se você veio pra ficar; talvez, meu querido, eu abra a cortina e te dê meu melhor presente: este sorriso que só você conhece.

Mas, volte. Volte porque nem eu aguento minha pele tão branca, nem tenho paciência para usar tanta roupa. Volte porque todos aqui sentimos a sua falta. Volte, porque se não me deste a Primavera dos deuses que me inspira tantos amores, ao menos me prometa um Verão inesquecível na tua companhia.

Da terra onde há quarenta e dois dias não vemos o sol.

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