O retorno

Há pessoas que, sem saber, capturam meus pensamentos. Aquelas que dizem não sonhar, por exemplo. Mais curioso do que as que não sonham acordadas, são as que fecham os olhos e não vivem por algumas horas – até abrirem-nos novamente para este mundo. Viver só neste mundo real e táctil me parece insuportável. Devem, estas pessoas, ter alguns truques para sobreviver – lêem muita ficção, embriagam-se, usam, enfim, das mais variadas drogas.

Que, quando não durmo ou durmo mal, não vivo. Quando criança sonhava muito com uma casa rosa de madeira que pegava fogo comigo dentro. Na adolescência sonhava com ondas gigantes como se o mar fosse na rua de casa. Agora, talvez adulta, sonho com bichos. Bichos: de várias espécies e em várias situações. A Ciência e os psicanalistas explicam tudo. Qualquer dicionário dos sonhos on line também.

Eis que ontem, como todos os dias, às nove e meia em ponto, entrei no meu quarto para realizar o ritual sagrado: tirar a colcha, passar creme nas mãos, hidratante labial, deitar, ler só com a luz do abajur e recepcionar meus sonhos – doces ou não. E não foi bem assim.

Um velhinho empertigado, de barba branca, monóculo, mãos cruzadas sobre o colo, vestindo um terno cinza bem cortado e tão fora de moda estava sentado na minha poltrona. Pensei em gritar – e não o fiz porque achei que ele se assustaria. Olhei para trás, seria brincadeira de alguém?

Ele me olhou triste e “Precisamos conversar”. Assim, a frase de terror e mais assustadora a sua familiaridade. “Precisamos?”, perguntei. “Preciso convencê-la a ser minha paciente” ele me respondeu aflito. “Estou doente?” minha incredulidade me fazia querer rir. Eu, que sempre temi ser diagnosticada como louca. Encostei a porta para ninguém ouvir. Ou todos já sabiam?

“Não é fácil ver o tempo passar, falarem tanto sobre mim e eu de mãos atadas!” ele desabafou elevando a voz. “Que civilização é esta? Por que ninguém – nem aquele ingrato que se dizia meu amigo e discípulo – continuou meus estudos? Por que jogam minha teoria no mundo de hoje – que nada tem a ver com a vida de vocês?” ele falava aos borbotões, suava, indignava-se com a humanidade. “O senhor quer que eu ligue o ventilador?” tentei aliviar o velhinho que se exaltava com razão. “Exato! Vamos começar por aí! Você dorme todas as noites, todas, com o ventilador ligado! Como você explica isso?” gaguejei e “Preciso explicar?”. “Deite-se, ligue o ventilador. Vamos conversar sobre isso.” e eu obedeci. Ele era autoritário e enérgico.

Em seguida quis fazer um acordo. Ele viria todas as noites. Eu teria que contar meus sonhos, minhas sensações, meus temores. Ele só ficaria ali observando e fazendo anotações. Disse que precisava de mim para expandir sua compreensão deste mundo – tão diferente da época dele! Eu fui aceitando, fui persuadida, deitei e respondi a tudo com sinceridade. Ele jurou que não atrapalharia meu sono.

“Você não sabe o que é ficar lá no outro mundo observando vocês, criando novas teorias – afinal, nem todas as neuroses têm origem sexual – sem poder me defender! Mas escolhi você para me redimir. Seu caso é assaz interessante!” ele por fim explicou-se e mandou que eu dormisse.

Não sei se ele voltará esta noite. De manhã, contei-lhe que sonhei com caixas vazias. Ele ficou exultante. Quis dizer que, talvez, um homem que usa monóculo e fala “assaz” não está preparado para interpretar e compreender este mundo. Diante do entusiasmo do velhinho, preferi me calar e entretê-lo com meus sonhos.

* 19 de novembro, Dia Mundial da Filosofia: que aos pensadores que já se foram, o mundo fica e ficamos com as idéias deles, mas o mundo nunca mais é o mesmo – nem eles seriam.

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