Teoria da senhorinha

Eram tempos de crises, o mundo andava mal, o país estava mal, as pessoas perdiam seus empregos, roubos e assaltos como não se via há tempo. Por aqui chovia como nunca na minha vida eu havia visto. Chovia e quando não chovia sol não havia. O ano encaminhava-se para o fim, e como todo fim deveria ser celebrado – com os ânimos melancólicos da falta de esperança e de segurança no amanhã. Mas mais certo que a morte é que o amanhã sempre virá.

Entrei no mercadinho antigo do bairro, famoso pelo seu chineque e pelas suas cucas. Aliás, a fama não é em vão, pra mim são o melhor chineque e as melhores cucas da cidade. Estava a caminho de uma loja de jardinagem para comprar o pinheiro de Natal e num impulso parei ali. No fundo do estabelecimento fica a padaria e fiquei surpresa que agora tem mesas, está bem ajeitado e bonito. Eu gostava da rusticidade do lugar.

Duas senhorinhas sentadas numa mesa tomando seu café com cuca conversavam. Tinham essa idade que a vida se arrasta em reprises que de surpresa não traz mais nada. Aquela conversa boa sobre os outros, a vida desse, a vida daquele, quem está fazendo o quê. Até que uma delas dispara uma teoria.

Ela frequenta um lugar desses onde há pessoas que precisam do tempo de outros – alguns chamam caridade. E ao comentar sobre algumas de suas colegas ela frisou que frequenta o lugar há muito tempo. Segundo ela, há quem pratique o bem “por dor” e há quem pratique “por amor”. Ela pratica por amor, pois gosta de ser útil ao outro, de ajudar quem precisa dela – do seu trabalho, do seu tempo, do seu dinheiro. Enquanto quem pratica o bem por dor é quem sofreu muitas perdas, – “Sabe a fulana? Perdeu marido, filho, aí apareceu lá.” – quem se deparou com aquela parte desencantada da vida e procura refúgios para tentar seguir adiante. Com alguma malícia eu poderia dizer que ela insistiu em dizer que ela praticava o bem por amor, mas o mundo anda tão mal que nem malícia tem cabimento: ela pareceu sincera.

Não foram poucas as vezes que lembrei da teoria da senhorinha nos últimos dias. Além da sinceridade dela, a teoria me parece bem fundamentada. Há quem faça, o que quer que seja, por amor. Há quem só busque válvulas de escape para suas dores. Qual o problema, afinal? A legitimidade. Que ambos façam o bem, talvez seja ótimo – mas uma pulguinha atrás da orelha não me deixa em paz.

Por que não nos perguntamos sempre a razão dos nossos atos? Vai pra academia só para postar foto? Para a praia só para esnobar? Ajuda cães de rua porque tem a consciência pesada ou se sente inútil no mundo? Tem filho pra preencher algum vazio no relacionamento? Pega a cartinha de Natal dos Correios pra poder contar pra todo mundo no trabalho?

O mundo vai mal, talvez precisemos cada vez mais de gente que faz o bem. Sem esquecer que de boas intenções o inferno está cheio, claro. Não basta a boa intenção. Não basta enganar a si mesmo. Não basta o discurso inócuo. Talvez, na verdade, precisemos cada vez mais de pessoas com boas razões para fazer o que fazem. Porque dores nunca faltarão. E que nunca me faltem razões.

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