O litoral de Santa Catarina – os índios e os babacões

Não foi com surpresa – e confesso que nem dei muita bola pela falta de novidade à questão – que vi a imprensa comentar a poluição do rio do Brás, em Canasvieiras, na Ilha. Mas aí as notícias variaram, eram turistas abandonando a Ilha antes do fim das suas reservas porque estavam passando mal depois de banharem-se no mar. Bem, a partir de então fez-se um auê (meios de comunicação) sobre a poluição do tal rio (que, se não me engano, leva mais de década assim) e dos casos de mal-estar que estavam enchendo os postos de saúde. O governo do Estado foi acionado, numa das notícias cogiava-se decretar situação de emergência. Durante a escrita deste texto, vejo que fecharam a foz do rio.

Pois bem. Qual o grau do problema que leva os mais famosos colunistas do grupo RBS a deflagarem suas indignações contra uma situação de década? Fiquei curiosa. Ontem a reportagem do Notícias do Dia foi expulsa de um posto de saúde. Por que o governo do Estado e a imprensa em peso tomaram para si o problema de Canasvieiras? Sabe-se que não é a praia que eles frequentam, foi a primeira coisa que pensei. Ah, mas quem frequenta? Os argentinos, isso é sabido. Há meses a imprensa argentina comemora a falência do nosso país e da nossa moeda, garantindo que seria A temporada dos argentinos em Santa Catarina (o amor deles por nossas praias é conhecido). E não só argentinos, até os paraguaios, sempre em menor número por aqui, apareceram em peso. Ou seja, Canasvieiras é A praia dos turistas estrangeiros de massa.

Pois é. Toda a comoção tem uma justificativa simples: Santa Catarina, sua imprensa e seu governo, não querem perder turistas. Primeiro ponto: não digo que é irrelevante a questão (poluição, agressão à natureza, saúde pública), mas é deplorável o motivo. Já pensou se a equipe de reportagem do Notícias do Dia fosse em todos os precários postos de atendimento de todas as cidades do nosso litoral? Quantos casos de pessoas passando mal por conta da sujeira da água do mar, o descaso no tratamento (joga no canto com meio litro de soro e manda embora), a falta de medicação, a sujeira e abandono dos espaços? Seria capa do dia, certeza – e nem precisaria recorrer à morte de cantor famoso para vender jornal. Já pensou o Moacir Pereira ou o Piangers se preocuparem e usarem suas colunas para indignar-se contra a poluição de todos (todos, meus amigos, que não são poucos) os rios que desembocam no mar do litoral catarinense?

Então. Quem é do Estado, que mora no litoral ou tem casa de veraneio, pode passar mal, pode ser mal atendido nos postos de saúde, pode passar o verão inteiro jogado na cama. Porque ano que vem ele estará de volta. Porque ele pagará seu IPTU todo ano, almoçará nos restaurantes, comprará nos mercadinhos das praias. Por isso não devemos fazer escândalo desnecessário com a saúde e a sujeira das praias – exceto para o caso de perdermos turistas estrangeiros. Não sei vocês, mas eu não me espanto.

Tomarei a última notícia – fecharam a foz do rio: nada mais lógico, se a água do rio está poluída e prolifera doenças em quem toma banho de mar, vamos impedir que esta água malvada chegue até os banhistas – como exemplo do óbvio. É óbvio que precisamos cuidar dos rios, dos mares, do esgoto, das construções irregulares, do cachorrinho fofinho andando na praia pro dono tirar foto e postar no Instagram. É óbvio que precisamos respeitar a natureza. É óbvio que precisamos de pessoas e lugares capacitados e equipados para atender situações extraordinárias nas temporadas. É óbvio que o rio deságua no mar. Não é? O que não é óbvio é fechar a foz de um rio para eliminar um problema antigo, gerado pelas próprias pessoas que ali vivem e dependem dos… turistas! Canasvieiras é conhecida pelo seu aglomero de construções (puxadinhos e puxadinhos) de gente que lucra e muito com o turismo (não só na temporada) e com aquela velha e decadente máxima “Ilha da Magia”. Essas mesmas pessoas que constroem desenxabidamente seus puxadinhos para caber mais gente por dia no Verão são as que hoje reclamam que os turistas estão indo embora porque a água está poluída – como se não fossem eles a jogar o esgoto no rio. É um círculo vicioso e, pior, espúrio. Eu não fico ao lado dessas pessoas – dos culpados que exigem que alguém tome providências sobre as consequências dos seus erros.

Não sou joinvilense, por isso não direi “ah, é porque é na capital, né”. Não. Mas desafiaria os jornais, seus repórteres e colunistas, a percorrerem todo o litoral em busca de situações semelhantes. Garanto que existem aos montes. Um exemplo simples é a Penha (da qual eu falo há anos). De norte a sul não faltam exemplos. Se não se metem a expor a realidade da maioria dos nossos balneários é porque não querem, justamente, que os turistas deixem de vir.

Eu poderia me perder em horas (ou páginas) falando sobre as temporadas no litoral catarinense. Antes de fazer um ano de idade eu cá estava a ser feliz. Quero apenas lembrar de algo bem simples (e também óbvio) que aprendi nesse longo relacionamento com a natureza. É preciso aprender com ela. É preciso ser um pouco índio. Mas a maioria é aquele babacão de sempre – programa seu banho de mar com a data das férias que o patrão dará e pouco importa todo o resto. Quem é um pouco índio já sabia que a temporada seria muito ruim. O que está chovendo no litoral desde, pelo menos, setembro anunciava que as águas estariam frias e sujas, que o mar não estaria para tardes relaxantes de banho. Quando se fala no El Niño e tal, gente, não é só pra ter o que falar na previsão do tempo do jornal. A quantidade de água-viva no mar não deveria ser “óóó” em reportagem de nível nacional. Mas o babacão é aquele que chega um dia na praia e diz “pô, ontem o mar chegava até aqui ó, hoje tá lá…” – se você falar em maré ele não vai entender. É o babacão que deixa a latinha de cerveja na areia da praia ao lado da cadeira e vai embora, claro, porque ali o mar não chega. É o babacão que passa pela placa de “PROIBIDO ANIMAIS NA PRAIA” e segue com o seu guapequinha porque ele é limpinho. É o babacão que joga o coco verde ou a espiga de milho na areia ou no mar porque “ah, é orgânico”. É o babacão que (se reproduz e) leva o filho machinho até a beira do mar, arreia o calção e manda o guri mijar no mar. Eu poderia escrever páginas e páginas das atitudes dos babacões que pisam numa praia para provar que são babacões.

Enfim, não é só o turista estrangeiro que paga o pato. Não é só o babacão que vai parar no hospital. Todos podem ou não voltar. Uma certeza eu tirei desse caso do rio do Brás: que vexame, imprensa e governo do Estado. Que vexame, prefeituras das cidades balneárias. Que vexame, também, aos frequentadores irresponsáveis das nossas praias.

Eu nem conheço todo o litoral catarinense e já amo pacas. É lindo. Tem a característica de ser litoral de Floresta Atlântica, outra vítima, do Hemisfério Sul, com formações e História fantásticas. Não é quase todo tomado de resorts exploratórios CVC da vida com seu sol o ano inteiro e eternas cadeiras e mesas invadindo as areias – todos têm suas dores e delícias. Mas é o nosso litoral e deveria ser sempre defendido e cuidado com o máximo de zelo – pela imprensa, pelo governo, pelos moradores, pelos veranistas, pelos turistas.

Lamento muito pelo rio do Brás. Ele não é nenhuma estrela internacional pra ganhar capa de jornal e milhares de #RIP, né. Lamento pelo rio que passa aqui ao lado que também está em situação de emergência. Lamento por todos que foram parar em posto de saúde (ou ficaram tratando em casa), sei que não é fácil e até revoltante. Lamento um pouco por essa influência do El Niño, pois já vi verões mais bonitos (e nem vimos a Primavera) – ser um pouco índio é aprender a viver com isso, mesmo que reclamando de vez em quando. Lamento que Santa Catarina, proclamada santa e bela por natureza, parece depender de si mesma e de algum poder divino para conseguir estar à altura do slogan turístico.

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