Cura tudo

Sabe aquela cena de Gravidade, a final, quando a Sandra Bullock chega à Terra e sai da água e ensaia caminhar no chão firme? Talvez a melhor cena dela como atriz. Sabe aquela tontura, a incerteza do passo? Ela foi magistral, captou muito bem como é voltar “à órbita” da terra firme. Senti o mesmo, esses dias, ao sair do mar. Há quem diga que tenho exagerado no banho de mar. Não nego. Saí do mar e meu corpo obedecia ao gingado das ondas, não ao firme do chão. Sinto-o, o mar, como meu habitat.

Não sei caminhar na terra firme. Não me conformaria jamais com a sensação de estabilidade e falta de gingado do estático chão. Sou do movimento, sou do trem descendo a serra, do avião despegando do chão, das rodas na longa estrada plana, do barco quebrando as ondas. Entro no mar e sinto na pele se a maré vaza ou enche… e me deixo levar. Não há burrice mais imperdoável do que ir contra o mar. Coleciono momentos memoráveis desses longos e deliciosos banhos de mar. Hoje mesmo faço valer minha máxima: só saio do mar pra comer. E ontem, digo-lhes, nem pra comer.

Queria pendurar um retrato do santo homem (provavelmente homem, branco, ocidental, sabe como é) que olhou pro mar, coçou o queixo e disse “olha, vou tomar um banho”. Dizem que foi (essa mania de querer investigar a origem das coisas, Fahya, pra quê?) recomendação médica, o início do hábito de tomar banho de mar. Vejam só. Um banho de mar, os bons sabem, cura tudo. T u d o. Quem não é louco por banho de mar, bom sujeito não é.

Os banhos de mar têm me tomado quase todo o tempo, só queria avisar. Viram esses dias maravilhosos de sol? Pois é, há meses fiz aqui minha declaração de amor ao sol, a falta que ele me fez – como dizem, estou tirando o atraso. Sou sempre empenhada nessas coisas de tirar o atraso. A terra firme tem me parecido tão… firme, parada, constante. Sem o remelexo e o embalo da força da água do mar. Tem dias que fico ali pensando, de onde os romancistas tiraram que o mar tem um cheiro doce? E de onde o “verde luxuriante” das matas? Como se vê, tenho pouco com o que ocupar minha cabeça entre ondas e mergulhos. Mas confesso que fiquei intrigada do porquê as aves saem da ilha e ficam dando voltas sobre o morro, sempre ao meio-dia. Talvez eu descubra.

Não entendo essa gente que gosta de piscina. A piscina é aquela segurança na vida, né? Não entendo essa gente que nunca viu o nascer do sol despontando na linha do mar. Ser boêmio e detestar acordar cedo é o amparo dos desamparados, né? Não entendo essa gente que não percebe quando o vento vira pro sul. Mas, Fahya, quem se importa de onde vem… o vento?

Eu mesma já fiz elegias à madrugada. Passei dessa fase. A vida ensina, só é bobo quem não aprende. Eu não seria eu, se fosse sempre a mesma – quem conhece, sabe. Fui apaixonada pelo pôr-do-sol e já testemunhei alguns dos mais lindos do mundo. A paixão não passou, só é difícil eu estar acordada – aquele tipo de relacionamento que quando um está disponível o outro já capotou na cama. Ah, mas não deixo de marcar a hora que a lua vai nascer e ir ter com ela – de vez em quando. E todos os três rendem boas fotos.

Fiz loucuras e não dava o devido valor a certas coisas dos meus quinze aos vinte e poucos. Aí, nos meus vinte e tantos virei uma velha chata, rancorosa, ranzinza, implicante e doentia. Sinto que entrarei nos trinta no embalo de uma vazante que deixa tudo pra trás e segue a amplidão de um oceano – de tão bom e tão desconhecido. Agora já posso saber bem mais de mim. E, por isso, não abro mão dos banhos de mar.

Aliás, antes de ontem, o dia em que a água estava a mais limpa desta temporada, não saí do mar nem para comer até que… entra um cara fumando, risadinhas daqui, dali e eu observo, uma pessoa do grupo ainda comenta que esta praia é melhor do que uma outra (onde eles estiveram alguma vez – ouço muito esse tipo de conversa). Termina de fumar e joga a bituca… no MAR para trás dele (a maré estava enchendo, ou seja, mui esperto). Pois me dirijo até ele e faço meu dicurso. Sim, você jogou a bituca no mar, está vendo como a água está limpa? Então o mínimo que a gente espera é que as pessoas colaborem e não sujem a praia, nem a areia nem o mar. Tanto pra quem sempre vem aqui, como para quem visita. (devo ter dito mais que isso) Diante do silêncio e das caras de tacho deles, me retiro. De longe ouço um “falô!”. Meu bem, o mar é minha casa, eu cuido dele e exijo dos outros.

A gente aprende. Aprendi a não me calar. E olha que foi difícil. Nem cheguei nos trinta e já foi tudo tão difícil, pra que me preocupar.

Se não me vêem, se não escrevo, se não mando notícias, é que não estou em terra firme. E quando estou há pouquíssimas coisas para as quais tenho dado atenção – confesso, larguei tudo, não tenho trabalhado, nem sei onde guardam as coisas da cozinha. Tinha planos de adiantar mil coisas nesse tempo maravilhoso de janeiro e fevereiro. Aí chegou-se o mar e o sol e me seduziram… duvido que nosso amor de verão termine antes de março. Nunca tive pressa na vida. Deixa, amor, que o mar – e o tempo – curam tudo. Tudo mesmo.

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