Lá no começo do mundo

Lá no começo do mundo não existia asfalto; porque não existia carro e nem o homem tinha pressa. Bem que já havia um ou outro com espírito desbravador, mas eles apreciavam bem mais o trajeto do que a chegada. Lá bem no comecinho, pra onde se olhasse havia comida em abundância e sobrava entre os bichos e as gentes; ainda ninguém sabia o que era fome. Tinha também aquelas pessoas que trocavam o que lhe sobrava com o que sobrava ao próximo; e todo mundo ajudava quem estava em falta. Eram outros tempos, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo as pessoas viviam lado a lado nas redes e taperas, e não umas sobre as outras sufocando falta de espaço entre grades, paredes e muros. É que, também, nem tinha tanta gente assim. Bem, mas já lá no começo do mundo cortavam árvores e destruíam a natureza, eram menos e o dano era menor. Lá no começo do mundo ninguém se importava muito em registrar o que fazia, onde ia, o que comia, com quem estava – e só de vez em quando faziam uns rabiscos nas paredes das cavernas que era mais pra se entreter em dias de tédio e chuva. Lá no começo do mundo chovia, uns poucos – sempre esses loucos – tomavam banho de chuva, e a chuva dormia o ânimo em todo resto. Nem tudo era tão diferente assim, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo rolavam umas drogas, uma folha amassada aqui, uma casca de árvore fervida ali, não tinha contraindicação nem foto de doença pra assustar quem consumia – e todo mundo ria, caía na folia e, talvez, de vez em quando alguém morria. Lá no comecinho tudo começou com o veneno e aí o mundo caiu em pecado – que ainda não há quem não goste. Pelos primeiros dias do começo do mundo, Deus deitou na rede, olhou o nascer do sol sobre o mar e pensou “vou ali criar o leite condensado que é pra fechar com chave de ouro esse Meu mundo” e aí o mundo foi mais feliz e mais gordo e assim será. Já era tudo tão bom, lá no começo do mundo.

Lá, lá no começo do mundo nem se ouvia falar em dinheiro; porque todo mundo era esperto e pra que estragar o paraíso? Quem sabe se lá no começo do mundo o mais rico e invejado era quem mais sorrisse? Mas isso era lá no começo do mundo… Lá no começo do mundo as cobras sobre duas pernas plantavam seus rumores e tumores pelos quatro cantos – talvez isso não tenha existido lá bem, bem, bem, no comecinho. Sabe como é começo, ninguém sabia direito o que fazer e as consequências, então o povo abusou de uma bobajada que deu no que deu – as más práticas são mais fáceis de serem copiadas. Nem tudo eram flores, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo não tinha luz nem água encanada – nem dá pra pensar como viviam sem isso. Nada que uma fogueira, uma moita e um riacho não dessem jeito. Lá no começo do mundo era mais fácil se esquentar com peles de animais e os corpos uns dos outros do que se refrescar no calor dos infernos – nem é preciso lembrar que não tinha ventilador, quem dirá ar-condicionado. É que lá no começo do mundo se resolviam as coisas da forma mais simples. Bem lá no comecinho a vida era difícil, mas com o mundo diante dos olhos os problemas foram se resolvendo aos poucos. O peso era leve, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo ninguém vivia sozinho. A experiência era pouca, ainda, e os perigos (até os mais bobos como cair num buraco e não existir corda para o resgate) muitos, então todo mundo sabia que era melhor viver junto, uns dependendo dos outros, todos ajudando todos; e o principal eram as noites à beira da fogueira, quando uns narravam aos outros como estavam conhecendo o mundo. Aprender era questão de vida ou morte até em saber o que podia comer daquele mundaréu de folhas e plantas e frutos e o que se aprendia guardava na memória, que não tinha bloco de anotação. Se apreciava a sabedoria, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo também as gentes morriam. Desde então tudo já tinha começo, meio e fim. Ou, às vezes, não tem muito meio, só começo e fim, isso é certo. As gentes adoeciam, as gentes eram abandonadas, as gentes brigavam e se matavam ou morriam. Os que ficavam choravam, lamentavam, sofriam e lhes restava a saudade. Desde o começo, quem diria, havia fim. De todo o resto o homem foi evoluindo, foi piorando, foi lutando pra ser dono do que não lhe pertencia; mas no começo e no fim ele nunca meteu o dedo. Deus, ali da rede, diria “mas o mundo é Meu, filho” e os homens já não ouviam. Lá no começo do mundo se sabia que não haveria chance para outro começo. Lá no começo do mundo ninguém se arriscava a olhar para trás. O fim havia, lá no começo do mundo.

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