Segunda-feira

Segunda-feira. De manhã cedo.

A mãe pegou o café do coador, aquele feito quentinho no fogão, e despejou na xícara de estimação. Lembrou dele, que gostava tanto de café, havia ligado ontem à noite para avisar que terminara o pulôver de lã. Todo ano ela fazia um pulôver para ele, desde quando ele tinha cinco anos. A visita de domingo não acontecera porque a esposa tinha um compromisso, arrecadação de chocolate para a Páscoa das creches do bairro. Mas era assim a vida, ela já sabia. O bolo de milho, feito especialmente para o neto, agora ela comia com o café.

A esposa estava parada diante do porta-jóias. Ele perguntou sem esperar pela resposta se ela ainda não sabia qual brinco usar. Ela sorriu. E ele sussurrou, ao entrar no banheiro, “põe aquele que eu gosto”. Era aquele brinco de ametista, tão delicado que ela tinha receio de usar. Ela se apaixonara pelo brinco quando os dois fizeram a última viagem juntos, ainda sozinhos, antes do filho. Passeando pelas ruas do Pompeya, deslumbrados com a capital dos hermanos, ela vira o brinco e ficara parada como se encontrava agora diante do porta-jóias. Ele era um homem de não agir por impulso, mas entrara na loja e lhe dera o presente. Ela o percebia mais apaixonado quando usava aquele brinco. Pegou-os, tirou as tarraxas, colocou-os. Eram lindos. Ele ficaria feliz quando a visse chegar à noite.

O patrão chegou cedo. Enfezado e já suado. Jogou quatro pastas de relatórios atrasados e cinco cobranças feitas erradas na mesa dele. Gostava dele como funcionário. Sempre cheio das piadas quando parava na mesa do cafezinho. Mas não tinha mais com quem contar para colocar o trabalho em dia. Sabia que ele não podia chegar antes, mas pediria uma hora extra hoje para ajudar a resolver tudo aquilo.

O filho agarrou a mochila dos Angry Birds, afastou a insistente franja dos olhos, esperou o carro parar, tirou o cinto, abriu a porta. Vivia com aquele medo de esquecer alguma coisa. A régua para a aula de geometria, veio? O lanche, o pai pegou? E o dinheiro do passeio da semana Santa, estava na mochila? Repassava mentalmente tudo antes de sair. “Pai, não esquece, hein?” e o sorriso, o filho já do lado de fora, diante da janela aberta. “É o caderno do Batman. Pra matemática. O do Super-Homem é de Português, tu se enganou. Precisa ser pra hoje.” e soltou um beijo no ar antes de se virar e correr para o portão da escola.

Ele saiu da escola do filho, distante duas quadras de casa, onde a esposa ainda tomava café e pegou a BR para percorrer três quilômetros até a saída que dava na rua do escritório onde trabalhava. Ao fim do primeiro quilômetro, o carro rodopiou, ele bateu a cabeça no vidro e capotou no canteiro. A ambulância chegou em sete minutos e nada mais podia ser feito. Em menos de meia hora chegou a perícia e ele foi colocado no rabecão.

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