Mimada

Saudosista eu sou e não é nenhuma novidade. Mas não estou mesmo sabendo lidar com o Outono. Li esses dias uma entrevista de um escritor e ex-professor meu na qual ele fazia elegias à estação do sol ameno. Alguns fotógrafos elogiam o dourado do sol. E o frio invernal que fez neste final de Outono só me deixou uma saudade dolorosa do mar.

Lembra quando fez dias de calor absurdo, justo no meio do Outono? Ah! Foi numa terça-feira, cheguei na praia e corri pro mar. O mar em dias de impaciência, a lua nascendo naquele final de tarde. Foi meu último banho de mar deste ano. Do lado esquerdo, um pouco distante na pequena praia, um grupo de adolescentes. Um casal de idosos caminhava na areia. Do lado direito um homem. Evitei-o pelo instinto feminino de auto-proteção. Fiquei ali a rolar-me na água feliz feito qualquer um que é feliz por estar onde quer.

O homem volta e meia olhava pra mim. E eu também olhava disfarçadamente pra não ser levada pela correnteza que ia em direção a ele: se bobeasse cairia nos braços dele, desses micos não morro. Fiquei pensando, por um instante, que desenvolvi essa auto-proteção em demasia. Preciso baixar a guarda, mas, queridos, experiências ruins não nos deixam de um dia para o outro. Eis que ele saiu nadando e eu admirei as boas braçadas dele. Há três coisas que gosto num homem: saber nadar, saber dançar e ser alto. E é saber nadar, não é espanar a água. Sou exigente, claro. Saber dançar, não zumba e axé (há traumas que jamais nos deixam!), como antigamente, lembra a cena da Aurora em Senhora? Coisa de amores do século passado, como diria Glauber. E, bem, ser alto não deve ter explicação (e é só uma constatação). O moço nadava bem. A cada volta que ele dava eu observava, quando ele descansava eu fazia de conta que não o via. Também observava o casal idoso a conversar tão entretido enquanto sorriam para o mar e caminhavam. E o grupo de adolescentes barulhentos me fez lamentar não ter vivido o ano inteiro dos meus tempos de adolescência à beira-mar. Foi uma belíssima terça-feira.

Diante daquelas tão bem executadas braçadas decidi que poderia, quem sabe, até apaixonar-me novamente. Talvez nem precise esperar a Primavera. Aquele calor foi embora. Um frio intenso, desanimador, infernal (pois o inferno há de ser gélido – e cheio de crianças mal educadas) chegou e não quis mais ir embora. Apesar de tão feliz, não dessas felicidades de ganhar na mega, comprar carro, apartamento, noivar ou casar, engravidar, sinto uma falta tão grande do calor. Depois daquele dia voltei algumas vezes à praia, mas não encontrei mais o nadador. O frio nos afasta do mar, deve ser meu maior desgosto com ele.

Fiquei mal acostumada. Mimada pelo sol e calor. Mimada pelos banhos de mar. Mesmerizada pelo horizonte. Mimada pelas manhãs silenciosas lendo na varanda. Mal acostumada em ver os corpos à beira-mar, o nascer do sol e os barcos de pesca voltando cedo cheios de sororocas e camarões frescos para o almoço. Me diz como voltar às quatro cobertas na cama, ao aquecedor ligado dia e noite, às pantufas, às blusas de lã, ao secador de cabelo, aos banhos escaldantes, ao fondue e ao nescau quente pela manhã?

Sou saudosista, bem se vê. Sou mimada por tudo aquilo que aquece o coração. Sou feliz por ter quem eu quero, onde eu quero – e por lutar pra dar conta de tudo sem reclamar. Faltou alguma coisa, alguma leve transição pra eu aceitar que o Verão acabou. Talvez porque ele nunca acaba nos meus olhos. Dizem que lá vem o Inverno… eu não consegui nem chegar ao Outono, que sol me aquecerá, que mar me embalará? Não há saudade que baste.

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