Palhaços

Queria chegar e segurar tua mão. Mas não sou boa com essas coisas. Mais fácil eu chegar fazendo uma piadinha sem graça, ou infame. Queria parecer genial, como tanta gente tenta ser, pra te fazer cair o queixo. Mas acho que só sei fazer rir. Um dia meu pai disse que sou muito palhaça, se eu não der em nada na vida, já tenho uma opção – eu, que tenho pavor de palhaços. Detesto palhaços num nível de querer matá-los, tipo vaca. Sim, também tenho pavor de vacas. Sabe aquelas moças todas cheias de si, com as palavras certas, as melhores selfies? Não sou dessas. Um dia publiquei uma foto minha com uma panela na cabeça – sim, tipo Menino Maluquinho. É que volta e meia faço isso na cozinha e minha mãe se ataca de rir, achei que a foto ficaria boa.

Minha mãe é muito indulgente comigo, eu sei. E não se preocupou em criar uma mocinha certinha e delicada – nem sei se alguma insistência dela serviria de algo. Minha mãe ri das minhas palhaçadas – e cai nas minhas pegadinhas, o que mantém nosso cotidiano num divertimento sem fim. Não sou nem de passar rímel, blush e batom (difícil saber o nome de mais alguma coisa dessas de maquiagem). Sou cara lavada pra vida. Sou cara lavada para os sentimentos. Nunca precisei de intermediário nessa coisa de encarar os outros e as situações. E, até o momento, tenho me dado bem. Considero toda fraqueza alienável. Fraqueza a gente só deve assumir para as paredes do quarto, a portas fechadas.

Num Natal, ganhei de amigo secreto do namorado uma furadeira. E era o que eu tinha pedido. Esses dias quebrei a serra-copo. Quando contei pro meu pai, ele disse que serra-copo nunca quebra. Pois é. Respondi que essas peças são feitas para homens, e homem não usa força, né. Meu pai riu. Gosto de fazer os outros rirem. Talvez seja uma missão na vida. Queria te fazer rir, mas isso eu nem preciso querer. Queria sentar bonitinha, com ar de mistério, olhar inteligente. Mas ficar parada me dá tédio. Um banho de chuva parece mais interessante, não?

Queria ter respostas sempre certas. Ser aquela que impressiona à primeira vista. Mas o que eu gosto mesmo é de passar despercebida. Entrar muda e sair calada. Ficar cá com meus pensamentos. A gente escolhe ser anti-social. A gente escolhe ser sozinha. A gente prefere não dividir o fardo. A gente não quer dar sem receber. Ontem o cara me perguntou “Você é arquiteta? Porque arquiteto que gosta tudo diferente, que não é só de chegar e copiar, fazer igual ao que todo mundo faz e exige que o trabalho fique perfeito nos mínimos detalhes.” – pois, não, não sou arquiteta, minha irmã é. Ah, fazer igual a todo mundo… que grande perda de tempo na vida. Sabe, quando criança tive dois apelidos: “a diferente” e Faísca (este foi meu avô que deu porque, bem, eu falei do tédio de ficar parada…).

Queria ser essas coisas que é o que todos esperam de mim. Só por um dia. Aí, o horror me provaria que eu jamais poderia ser essa outra pessoa. Não direi o que se espera de mim. Não serei querida e simpática. Não pegarei na tua mão. Só quando eu tiver quintas intenções. Na verdade, se quiser me domar, nem perto eu passarei de ti. Outros já tiveram essa esperança – até hoje lambem as feridas. Não se brinca com fogo. Mas eu já incendiei meu pijama de seda ao fazer pipoca de madrugada e semana passada queimei meu roupão ao esquentar a sopa da janta. Eu, que só uso fogo por necessidade – mas não temos uma boa relação.

Acho bonita essa gente que anda por aí sendo tudo o que esperam delas. Acho bonito até aqueles que precisam ser, para os outros, quem não são. Deve ser alguma necessidade psicológica, alguma consciência pesada. A gente aprende a apreciar como os outros se auto enganam. Pena que disso eu não consigo fazer piada. (talvez só disso) Fiz piada até do choque que levei antes de ontem ao desligar o aquecedor da tomada. Detesto energia elétrica, também. Mas a vida é assim, a gente às vezes tem que conviver com o que detesta – tipo eu com a energia elétrica, as vacas, os palhaços e o fogo.

Difícil mesmo nessa vida é ser quem se é. Nada mais o é – quem diz o contrário, é pura encenação, não dêem crédito. Às vezes eu fico sem assunto, faço cara de abobalhada, fico divagando quando deveria prestar atenção, cruzo e descruzo as pernas por descontração. Toda noite deito minha cabeça em paz no travesseiro. Nunca entro numa calça que já não me serve mais. Mas só vou largar tudo na vida pra virar palhaça quando os palhaços deixarem de ser… palhaços.

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4 comentários em “Palhaços

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  1. Muito profundo o texto, gostei bastante. “Anti-social”, “entrar mudo e sair calado”… Eu me identifiquei com essa parte, sou exatamente assim.

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