O amor de cada um

Gosto dessa distância. De não saber o que tens feito, de não ter notícia tua a toda hora. Não entendo essa gente que fica 24 horas enviando e recebendo mensagem, sabendo o que comeu, o que deixou de comer, o que dói e o que esqueceu. Essa desconfiança disfarçada de cuidado e interesse soterra o amor. Mas, veja bem, não sei como alguém pode dividir cama e banheiro. Se eu fico com a minha cama toda só pra mim (e umas gatas) e tenho exclusividade no banheiro, quem sabe o relacionamento possa ir longe. As pessoas gostam das coisas que corroem o amor: dividir conta, reclamar do arranhão no carro, o cesto de roupa suja cheio, o número estranho que liga tarde da noite, a toalha molhada (sempre ela) sobre a cama.

Eu não fui sempre assim. Aliás, eu nunca fui assim. Era dessas controladoras, obsessivas, exclusivistas, possessivas, desconfiadas e maldosas. Matei todos os amores da minha vida. Um a um. Alguns com requintes de crueldade. Um ou outro foi ferido antes, eu dei o tiro de misericórdia. Todos os amores morreram sufocados. O tempo e a distância alimentam o amor. Quanto mais tempo ele vive na expectativa e na ilusão, mais tempo ele durará. A realidade não foi feita para o amor.

Gosto de pensar que pensas diferente de mim; e que não mudará teus pontos de vista por minha causa. Gosto de saber que olhas para o que eu olho, com o mesmo carinho e devoção. Gosto de saber que vives com quem te ama, assim como eu. Gosto até que tenhas medo de vir falar comigo e eu, bem, todo mundo sabe, não é fácil falar comigo. Gosto de deixar o amor para quando se é lembrado. E isso de pensar no outro o tempo todo é coisa de ficção. Mas pensar no outro nos piores momentos, como uma válvula de escape, é amor.

Sempre tem aquele que, quando acredita estar apaixonado, enumera uma interminável lista do quão igual é ao ser pelo qual se apaixonou. Um, inclusive, me disse que até a falha da nossa sobrancelha era igual. Eu tenho espelho e nem sempre gosto do que vejo. Podemos seguir uma trilha semelhante, mas caminhos separados. O amor de Narciso é destrutivo. Gosto de ver além de mim, em você. Senão, melhor sozinha. Amar a si mesmo vem antes de estar disposto a dar amor a alguém. Gosto de não saber o que te vai pela cabeça, de não saber qual atitude terás numa determinada situação. O convívio dá o mapa da alma das pessoas. E somos tão repetitivos…

Gosto assim de não saber quem és. Desconheço o que me desagrada em ti. Não sei quais são as tuas manias que me irritam, o quão mal tu diriges. Nem sei se ficas irritado quando eu fico divagando em silêncio enquanto me contas algo que te aconteceu. Talvez você tenha alergia a incenso, a pêlo de gato e deteste cachorros. Talvez você me julgue pela quantidade (absurda) de bolsas que eu tenho, me considere egoísta, metida e chata. Quem sabe te desgoste eu ter religião. Ou, ainda, você jamais entenderá alguém que só dorme com o ventilador ligado. Não saber tem um gosto especial quando qualquer coisinha pode colocar tudo a perder. O amor não gosta de detalhes (desculpe-me, Roberto).

Gosto de saber que um dia não estarás roncando ao meu lado. E, também, que não terei vontade de matá-lo quando você quebrar minha louça de estimação. Nem ficarei vigiando teu telefone, entrando escondido no teu e-mail. Não me preocuparei, jamais, se demorares para chegar. Seja por medo de algum mal que te tenha acontecido ou que estejas fazendo a mim. O amor prevê tragédias. O amor não foi feito pra ser enjaulado. Ele resiste à saudade. Deixo-o correr livre, sem pressa, distraído. (por isso, às vezes ele cai em alguma armadilha) O amor é bicho selvagem que sabe sobreviver, sabe se defender, sabe lamber as feridas. Gosto que tenhas o teu e eu tenha o meu.

Hoje não terei “boa noite” com beijo na testa. E folgo em saber que nada de dormir de conchinha. Nem meus últimos pensamentos antes de dormir serão seus (nessa hora prefiro pensar em algum astro de cinema, pois a indução rende bons sonhos). Amanhã pularei da cama sem tempo para pensar em ti antes de começar meu ritual matutino. Se uma bobagem nos meus pensamentos ou um texto no jornal me fizer lembrar de ti, o sorriso aflorará. Quem sabe eu procure saber, ou acabe não tendo tempo. Ou me distraia com outro assunto.

Ou, quem sabe, a vida me surpreenda. Porque ela e o amor são amigos inseparáveis. E gostam de surpresas.

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