Ao pesar a bagagem

Todo mundo tem uma bagagem. Talvez importe mais, quando a gente olha pra si mesmo, o que deixamos fora da bagagem. É bem bonito o sentimento pequeno príncipe de ir leve e alegremente, mas quem vive não consegue. Tem a bagagem material e a sentimental. Acumular demais pode ser um problema para a primeira, e pode tornar-se um caos para a segunda. Adolescente já quer ter todos os sentimentos do mundo. Depois aprendemos que não é bem assim. Tem aqueles que chegam aos sessenta e nem sentiram nada do tudo que há para sentir. Viver não é para qualquer um, é preciso dar a cara a tapa.

Foi num diálogo simplório de uma série, o pai aconselhava a filha sobre o cara com quem ela estava saindo. O pai questionava o que ela sabia sobre o cara, qual era “a bagagem” dele. E não é sempre um mistério? Eu me agarro à idéia de que é melhor não conhecer as bagagens alheias. Todo mundo é sempre tão complicado – e aí basta a nossa bagagem complicada. Quando alguém chega na tua vida, ele não precisa ir abrindo as malas, espalhando a bagagem pela tua sala de visita. A idéia parece assustadora. E ali pelo meio da bagunça tem uma coisa ou outra que vão te dando pistas sobre toda aquela bagagem que ele preferiu não colocar dentro dos baús e das malas. (sim, porque tem baús também, é o que acontece, às vezes…) Leva mais tempo para descobrir o que ficou de fora. Porque só carregamos conosco aquilo que queremos que os outros saibam que temos. O resto a gente esconde. E tem coisas que é melhor esconder muito bem.

Desconfie de quem traz consigo pouco ou quase nada. Ou não viveu, ou esconde tanta coisa que decidiu seguir assim, à la principito. Sabe quando você faz uma viagem sozinha? E, claro, compra mil coisas, malas enormes, ao entrar e sair de avião, ônibus, táxi, se quebra toda pra colocar e tirar tudo, carregar carrinhos e tal? Então, dá trabalho. Se você for eu, paga mico, certeza. Conta com a colaboração, auxílio e presteza de pessoas maravilhosas que encontra pelo caminho – porque pessoas de bom coração vêem que você não consegue carregar tudo sozinha. Mas você não esmorece, não joga os bibelôs fora, não abandona aquela bolsa maravilhosa, não deixa a camiseta de lembrancinha pro teu pai. Às vezes você terá a sorte linda de poder contar com alguém para aliviar o peso, na maior parte do tempo, não. Porque você sabe que aquela é a tua bagagem – e cada um tem a sua.

Quem vai deixando as lembrancinhas pelo caminho é um fraco. Prefere o vazio (aqui vos fala quem não suporta nem paredes vazias). Quem leva o tanto de bagagem que consegue suportar no limite do esforço é um medroso – não confia nem no próprio taco para arcar com a própria vida. Porém, quem carrega excesso de bagagem (paga aquela taxa absurda das companhias aéreas: sempre lembrar, Fahya) morre soterrado sob ela – o ar não renova e vai sufocando, sufocando… É preciso carregar aquela bagagem que você precisa curvar um pouquinho a coluna, sentir os músculos do braço um tantinho estirados, fazer uma força extra ao agachar e levantá-la. E é preciso, também, saber que há dias que a vida pede só uma mochila – e nada, nada, nada mais.

Foi esses dias que o mp3 tocou três vezes My Way. Tenho algumas canções do Frank Sinatra, evidente. Juro que quando tocou a terceira vez eu pensei: é hoje que eu morro, só pode, And now, the end is near And so I face the final curtain, tanto a cigana quanto meus pressentimentos estavam errados, morrerei jovem antes de fazer tudo o que quero. Ela foi a primeira música (o correto é canção, mas não perco velhos hábitos) do dia, assim que saí pelo portão na manhã fria e ensolarada. Ia a caminho de uma coisa muito boa, daquelas que enchem a bagagem, a cabeça, a alma. E mais um passo nessa sinuosa tempestade que é cumprir os sonhos. Caminhei pensando que era um bom começo de dia (que se mostrava promissor), lembrei, como sempre, do Coutinho.

E ela tocou novamente pela hora do almoço. Ia seguindo alegremente, contente comigo mesma (essa mania nunca perderei). Porque podem dizer que eu penso demais, mas que eu acerto naquilo que quero, ah!, acerto!. Talvez nessa hora eu não tenha dado muita atenção. Andava distraída (esqueci quatro coisas, nunca me acontece, estava totalmente no mundo da lua), observando as pessoas, as construções, os sons, o mundo. Sem rumo, com horário. Quando me decidi pelo cachorro quente me satisfiz com a lanchonete quase vazia, a moça iniciante no trabalho, os ônibus que passavam na rua, repensava as últimas besteiras que tinha feito. Estava feliz e queria comemorar. Então comemorei.

Eis que estou na estrada quando ela tocou pela terceira vez. Bem, aí me ocorreu a idéia da morte e I’ve lived a live that’s full I’ve traveled each and every highway And more, much more than this I did it my way. Parece coisa de arrogante o tal I did it my way. E é. Precisa ser teimoso e arrogante para decidir o que quer colocar na bagagem. Não cabe discussão. Não há tempo para ouvir o outro. E, muito menos, colocar as cartas na mesa. Nem todos os dias são floridos, nem toda chuva é suspirante.

Pensei comigo que não seria um bom dia para morrer. Pô, logo agora! Tenho umas datas aí para esperar, uns compromissos para cumprir, umas mensagens para responder. Se fosse agora, fazer o quê. Mas, né, bem no meio dessas alegrias e tensões onde me meti? Medo da morte?, pois: I faced it all and I stood tall And did it my way. Já encarei coisas piores. Ali no meio da estrada, com uma bolsa apenas de bagagem, a alma transbordando e talvez até disposta a dividir o peso (dá vontade, mas passa), Regrets I’ve had a few But then again, to few to mention que a vida é longa e sempre tive esse orgulho besta de não me arrepender de nada – talvez alguns pequenos, bobos e insinceros, ou apenas um: que me valeria a vida inteira. Não, não seria o meu dia.

Não terminei ainda de encher os baús. A coluna me dói um pouco – por isso sei que estou certa. Dói dia sim, dia não. E talvez eu fale disso um dia, o mais provável é que eu nunca chegue aqui, ou na tua sala de visita, abrindo as malas e baús – porque os outros olham pra nossa bagagem com a cara de “hein?”. Parece que estou na estrada há tão pouco tempo e pasmo ao lembrar que já tive que me livrar de algumas bagagens pelo caminho. Hoje não conseguiria mais carregá-las todas. O que eu trago comigo é tudo aquilo que preciso para ser quem sou (e quem serei?) For what is a man, what has he got? If not himself, then he has naught.

Sem alarme, sobrevivi. Quem sabe foi alguma pane no mp3. Ou uma mensagem para que eu parasse e pensasse na vida. Ou não foi nada, Fahya, deixa de bobagem. Bem, me deixa que eu gosto das bobagens da vida. Não pesam em nada na bagagem.

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