A tríade

O corpo pede descanso. Isso ainda não é nada. A cabeça precisa descansar. Nem a tríade bem conhecida do relaxamento universal funciona. Se sexo, banho e comida não resolvem… nada há de resolver. O tempo, provavelmente. A tensão acumulada pela espera que, sim, não é frescura, parece infinita. A tensão que deveria ser canalizada para aproveitar este tempo com o que precisa ser feito, pois depois será tarde demais e aí somará mais tensão ainda, só distrai, dispersa, irrita. Contra irritação não há tríade, só sexo mesmo. Não acredito que exista alguém que nunca fez sexo com uma pessoa irritada. Moralmente injusto é descontar nos outros, nos mais próximos, toda a tensão. Eles não têm culpa. Ninguém, na verdade, tem. Mas é quem está perto, é quem não te compreende. No meu caso é quem me oferece comida. Aliás, sou inclusive chantageada com comida. Eu gosto de ser chantageada. (seja esperta e não queira perder uns quilos JUSTO na mesma época de tensões homéricas – acho que nunca fui muito esperta) Juro que queria ter toda a tranquilidade da alma para dissertar, novamente e sempre, sobre o tempo. Contra ele hoje pesam todas as acusações. Sem chance. A cabeça precisa parar, o corpo precisa relaxar. São horas que se arrastam, válvulas de escape procuradas em todo canto e opções. E nada. O banho ajuda – mesmo em doses diárias quando a tensão é a longo prazo, não muito. Eu queria escrever a coisa mais bonita sobre o banho – os banhos, pois, chuveiro, mangueira, mar, rio, chuva (tanto tempo que não tomo banho de chuva…) – descrever com palavras difíceis a água morna escorrendo pelo corpo nu, o fechar os olhos no vapor do chuveiro, as risadas da companhia do banho gelado de mangueira num dia quente, resvalar para a única sensualidade possível da água sobre a pele. Não tem como. O banho é o banho e não há poeta nem palavra no mundo que o alcance. Que bom, né? Gosto dessas coisas intocáveis pelas palavras. Palavras, enfim, não dão conta de tudo no mundo. Mas, palavras ajudam a aliviar a tensão. Boas conversas, as interessantes, não as inteligentes. Sempre preferi conversas interessantes às inteligentes. Conversas que te façam esquecer a vida por algumas horas. Esses dias, assistindo a um filme, senti saudade do telefone – aquele sem fio, linha fixa. Era gostoso conversar por telefone, horas a fio. Não sei o que deu na gente ao substituir isso por tanta conversa escrita. Ou conversa de celular que dá até pra falar na estrada. Boa era a conversa no telefone sem fio, encontrar um lugar confortável na casa e ali ficar por horas. Já me vendi barato por boas conversas interessantes. Ah, mas tem também o vinho. Ou rum, ou cachaça, ou vodka ou whisky. Aliviam a tensão que é uma maravilha – mais recomendado, certamente, acompanhando a tríade. Porque descontar só no álcool dá merda. Ou chá de camomila, que o dano é menor. O fundo do poço, né? Imersa em tensão, cabeça cheia e se escorar no chá de camomila (uma xícara quentinha aqui ao lado, aliás, portanto fundo do poço onde estamos). Todas as alternativas são válidas. E a tensão não passa. Já fui uma pessoa muito nervosa. Daí virei meio tranquilona. Porque, né, não adianta arrancar os cabelos. Mas a minha seriedade com algumas coisas é demais. Daí surgiu a tensão. Quando tratada tem bons resultados – não, o tempo não passa mais rápido -, senão fica aquela coisa meio nem aí, tô aqui comendo mesmo, assistindo a uns filmes, demorando para ler o que tem que ser lido (aliás, pelo amor, preciso ler alguma coisa só pelo prazer de ler, não por obrigação), atrasando os passos por algumas fotografias. Haja saída. Cartas de tarot, talvez. A ida a uma cigana. O horóscopo, sempre. Alguma coisa que antecipe o tempo. Qualquer coisa. Tiveram o despautério de dizer que estou intratável! Refugiada em mim mesma, as pessoas não têm idéia do quão intratável eu consigo ser. Críticas, aliás, não ajudam em nada nessas horas. Agora há pouco o banho aliviou o cansaço do corpo e a tensão da alma. Passei metade dele me cobrando, porém. Mais dias virão. Haja tríade e seus acompanhamentos. Não tem mais paciência, me dá sorvete.

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