Ficções incompletas

Recentemente li Uma página de amor, do Zola. Que eu lembre, foi o meu primeiro Zola. Um crime, certamente, dirão os literatos. É engraçado isso, quando as pessoas esperam que eu já tenha assistido a todos os filmes do mundo, assim como lido todos os clássicos. Não. E sei que alguns desses só quando eu estiver velhinha, antes disso, sem chance (Joyce, estou falando com você). Fiquei muito apaixonada, mas mais ainda impressionada pela destreza do autor. Fico especialmente deleitada quando encontro um livro de literatura de ficção que ocupe meus pensamentos mais do que qualquer realidade. Lembro de uma época que, dentre mil leituras obrigatórias e nada ficcionais, perdi o interesse por obras de ficção, cada um que eu começava achava-o desinteressante. Lembro, inclusive, qual foi que me resgatou para a velha leitora de ficção que eu sempre havia sido: Areia Pesada, do Anatoli Ribakov, num distante Verão quando eu ainda virava noites insones (na cama, lendo, é claro).

Sábado à noite? Sempre virei a noite. Lendo. Ou assistindo filme, sozinha. Eu sei, as pessoas saem, vão pra balada e tal. Nunca me atraiu. E por um período, quando acordava de madrugada para estudar Kant (não consigo imaginar nada mais solitário, pois ele um solitário), quase abri mão da literatura de ficção. Mas como uma criatura como eu viveu sem a ficção? Desconfio da resposta, mas jamais saberemos.

Conheço pessoas que nunca leram um livro de ficção. E vivem bem, podem ter certeza. Com a minha dificuldade para viver no mundo real, por muito tempo não sabia como essas criaturas viviam. Morei muitos anos sozinha e não tinha percebido como, da porta de casa pra dentro, o meu mundo era ficção e só ficção. Eu chegava, tirava sapato e roupa, pegava comida e mergulhava na ficção. Telefone no silencioso e e-mail fechado, aliás. Quando deixei de morar sozinha percebi a diferença. Entro no quarto, fecho a porta, ligo a TV ou abro o livro (e ai de quem me interromper).

Conheço (muitas mais) pessoas que nunca leram um livro de Filosofia. E vivem melhor ainda, é certo que sim. Há quem diga que Filosofia é um outro tipo de ficção – inimigos até ela tem. Sempre impliquei com o uso que as outras áreas (do conhecimento) fazem da Filosofia. E vejo de perto como muita gente sequer teve boas aulas de Filosofia. Aos meus alunos eu frisava que era essencial que eles dominassem a sua Língua, soubessem escrever, ler e falar bem e corretamente. Defendia que desde cartas de amor até entrevistas de emprego dependem e muito do quanto você consegue se comunicar, expressar, compreender. Na sala de aula tive contato com casos assustadores do tal analfabetismo funcional (e também vi isso na graduação, colegas que mal sabiam ler e escrever). E como uma professora de Filosofia se faz entender e entende os seus alunos sem o uso correto e pertinente da Língua? Expus isso para algumas turmas e tornei-me uma professora de Português também, pois corrigia e ensinava. Uma das coisas mais tristes que já vivenciei: o aluno inteligente que sabia se expressar, mas tinha uma escrita péssima.

Um exemplo simples: assisti a um capítulo do X-Factor Brasil. A maioria esmagadora cantou em inglês (por vezes sofrível, por vezes incompreensível, todos covers de sotaques e entonações). E um ou dois falavam corretamente o Português. Acompanho o X-Factor UK e é muito raro você encontrar participante, mesmo que de recônditos do país, que fale errado. Uma amiga esses dias comentou sobre um rapaz bonitão da academia que mandou mensagem de Whatsapp pra ela (que quase o considerava o príncipe encantado): não havia uma única frase compreensível. E o cara é graduado em Engenharia (engenheiros, os eternos sonhos de consumo da mulherada), faz isso e aquilo, tem tal carro. Ela desanimou consideravelmente.

Eu sei, todo mundo comete erros. Errar é uma coisa, não dominar é outra. Estou quase terminando de lapidar a idéia de que na escola básica deveríamos aprender só Filosofia e Português. É o que basta para entender o mundo. Sem partido, obviamente, mas só no plano ideal, pois a escola é feita por seres humanos e, sim, somos incapazes de imparcialidade. Dominar Filosofia e o nosso idioma faria do mundo um lugar melhor – que mundo o que, se fizer o nosso país melhor está de bom tamanho. E o que a ficção tem a ver com isso?

Quando lemos um livro de literatura de ficção sabemos que é ficção, certo? Deixemos a discussão para o pessoal dos Estudos Literários. Mas, sim. Não precisamos comprovar a veracidade dos fatos. E, contra fatos não há argumentos. Fatos são fatos, mas nem jornalistas nem advogados conseguem ser fiéis a eles. Porque, como disse acima, são seres humanos. Esperar imparcialidade de um jornal é como esperar que eu saia para a balada, queridos. E talvez eu devesse ter começado o texto falando de como sinto falta de um crítico do nosso tempo. Alguém que pondere sobre pessoas que tiram dez selfies por dia (passo mal quando vejo a “selfie no carro”) e, sim, a publicam em redes sociais. Alguém que traga a discussão da ficção X realidade para as timelines do nosso dia a dia. Por que hoje construímos quem somos através de posts tão bem (ou nada) calculados? Por que eu preciso dizer onde estou, com quem e quando? Ou, pior, por que preciso publicar uma foto de um determinado lugar, quando não estou lá, mas para que pensem que estou? São tantos os casos… Ah, mas tem gente pensando sobre essas coisas. Tem, sim. Mas não se fazem mais filósofos como os dos séculos passados.

Os filósofos foram aquelas pessoas que pensavam o seu tempo. Quando você pega um texto atual sobre algum assunto e o cara desenterra um filósofo que se referia a um outro momento da humanidade, há alguns problemas evidentes. Muitos são os problemas, aliás. Enfim, a discussão é longa e, bem, se ainda hoje defendemos com unhas e dentes a Democracia, é sinal de que a poeira do tempo desceu sobre nossos olhos.

Na Literatura, criticam muito os Naturalistas. Como se fossem autores de “obras menores”. E não sei de onde eu gosto tanto deles – apesar de, confesso, já ter pulado ou lido distraída as eternas páginas descritivas de paisagens. Neste livro do Zola, por exemplo, eu me transportava para Paris vista da janela da protagonista – nunca pisei em Paris e tenho uma memória imagética fraca da cidade, pois além da Torre Eiffel são poucas as referências. Um dia quero ir a Paris e não fotografar a Torre. Pois bem, poucos livros de ficção que eu li alcançaram uma veracidade em sensações como A Carne, do Julio Ribeiro. (pulei algumas páginas eternas das cartas, se não me engano? Sim.) A ficção vai mudando seus padrões e convenções, coitado do escritor que hoje se debruçar a esmiuçar o vôo de uma borboleta. Ou um diretor que esculpa o tempo como Tarkovski. E todos têm suas políticas a exibir mascaradamente.

Então, entendemos que o mundo é real (Platão discordaria) e o resto é ficção. Ficção mesmo, queridos, são meus sonhos dormindo. Todo o resto pode ser bem real. Mas, a falha que há ao compreendermos o mundo (a falta da Filosofia, do domínio da Língua) nos afasta do mundo da ficção que nos faria, por sua vez, compreender melhor as relações humanas, o mundo e suas traquinagens. Eis aí o megassucesso de filmes de super-heróis e afins, inclusive (argumento em processo). Mesmo na ficção há “níveis”, pois há a ficção engajada, a que traduz visões e sensações e sentimentos, há a ficção de puro entretenimento, etc.. Passei muito tempo abraçada à certeza de que a ficção era meu “mundo paralelo”. E de fato é quando leio A Carícia do Vento ou A Máquina do Amor (sim, foi ontem que me corroí de vontade de lê-lo novamente de novo mais uma vez e RESISTI bravamente pois ocupadíssima com coisas importantes – não sei se resistirei na próxima vez). Porém, sempre cito aqui filmes e séries, por exemplo, que desencadeiam reflexões e críticas, que fazem pensar sobre nosso modo de agir e tal. Não são exclusivamente um mundo paralelo para onde fujo. Esta, aliás, minha grande briga sobre as novelas de televisão, sempre desprezadas como obra artística e social, são grandes intérpretes de sociedades e pensamentos (brigarei toda vez que alguém quiser falar mal de novela).

Julgo que a ficção nos diz muito mais do que a realidade. Pobre daquele que vive na veracidade dos fatos. O documentário que acompanhou o impeachment da Dilma nos dirá mais ou menos do que se uma farsa fosse escrita, cheia de metáforas e hipérboles? (está aí essa febre chata de memes que apoia meu argumento) Saí do convívio com os historiadores ainda mais (muito mais…) crente de que as narrativas, as imagens, os discursos ficcionais servem mais à humanidade do que o sempre incompleto cientificismo deles. Sem jamais ignorar: somos seres humanos, com visões restritas, interpretações limitadas, e não lemos todos os livros do mundo, né?

O que, afinal, eu queria dizer? Nada, necessariamente. São pensamentos incompletos de quem está imersa num mundinho paralelo de novas e deliciosas reflexões. De quem está com um filme desenho animado de animais que falam e pensam e se pergunta: por que eu vou assistir isso? (desenvolvi uma dificuldade com filmes de bichos humanizados, desculpa) De quem tem pouco tempo para fazer muita coisa, daquelas importantes para a tal vida real, mas prefere parar para pensar e escrever – e depois se torturar que tem coisas por fazer. Tenho tempo pra tudo. Talvez até para reler A Máquina do Amor. Amanhã à noite, quem sabe.

* não quero usar mais a palavra “selfie”; usei-a para otimizar a compreensão do texto.

* não citei os filmes catárticos com a Keira Knightley nem as duas séries que assisti de uma vez só e me fizeram crer que o mundo “real” nem existia – sempre uma dificuldade e inconformidade a parte voltar destes mundos. Assunto mal resolvido por aqui. (rindo muito)

* talvez, apenas talvez, na próxima eu me atenha a refletir sobre o mundo da veracidade, porque enquanto ele for essa coisa que vocês pensam que é una, que existe A verdade, e o pessoal deveria ser imparcial está difícil.

* talvez, apenas talvez, eu ainda fale dessa coisa de achar que escritor escreve o que lhe vai pelo coração, acreditar em dom e inspiração e tals; pensei nisso antes de escrever, mas ficou de fora; como eu disse, pensamentos incompletos (ainda). Era isso, aliás, que eu queria usar para justificar a mudança de blog para site. Fica para uma próxima. Apenas uma preocupação conceitual.

:)
🙂
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