Fim de feriado

Quase cinco, saiu mais cedo do escritório na ânsia de aproveitar cada segundo do feriado no meio da semana. E as filas já na garagem da firma. No primeiro sinaleiro, quinze minutos parado. E atravessou a cidade no triplo do tempo de um dia normal. Todo mundo quis sair mais cedo. Quase chegando em casa a esposa liga pegou a mãe na rodoviária?, um palavrão e não, não tinha lembrado da sogra. Por que ela veio agora, num feriado, a velha não faz nada, está aposentada! Pra ficar mais tempo com as crianças, amor, não fala assim dela e lá foi ele, filas e filas até trazer a sogra reclamando que ficou esperando na rodoviária. Por que ela sempre viajava com um travesseiro e uma coberta, até no calor, até numa viagem de meia hora? Eram as dores, meu filho, quando chegar na minha idade! A velha era profética, ainda. Duas horas depois do horário normal de chegar em casa, a pirralhada toda feliz pelo sofá esperando a avó. A esposa cansada da faxina, imagina a mãe ver a minha casa suja! E ele deu a vez às duas no banheiro. E caiu na cama tarde e correu a mão debaixo do lençol pela perna da esposa e foi subindo e nada. Nem ele nem ela. Dormiram. Merda! Seis da manhã, despertador, que merda, esqueci de desligar! A esposa acordada, opa, volta a mão da noite anterior, rápida na bunda, vem cá! Tá louco?! A mãe está aqui do lado, imagina se eu vou fazer isso com ela aqui, deve estar acordada, sempre acordou cedo! O convincente, Amor, quando namorávamos fizemos coisa muito pior debaixo do nariz dos teus pais… A mão leva um tapa, ela pula da cama, E tu acha que eu sou o que hoje? Pronto, um bom começo. No café a algazarra, mesa cheia e ele esperou pra ser o último. Quem sabe passear? A mãe está cansada. Um filme? As crianças querem assistir TV. Almoçar fora? Não, quero fazer o prato favorito da mamãe. Ele lembrou com asco que o prato favorito da velha era língua com ervilhas. Odiava língua. Odiava, ainda mais, ervilhas. E o barulho insano que aquelas crianças produziam em grupo. Mofou no sofazinho do quarto. Depois do almoço, quem sabe, teria paz. Amor, vamos no supermercado? Ué, tua mãe não está cansada? As crianças querem que ela faça os bolinhos, precisamos dos ingredientes. O supermercado, num feriado, no meio da semana, mais lotado que as ruas da véspera. Voltaram às seis e meia, ele louco pra tomar uma cerveja e ver TV. Era a hora sagrada da novela delas. Desistiu. Sentou. A velha fez o tal bolinho, jantaram, e a esposa olhou pra ele A louça é tua, quem não cozinha, lava! Toda felizinha. Como pode alguém sujar tanta louça pra fazer um maldito bolinho sem gosto?! Quando terminou, todos haviam tomado banho, as crianças na cama, a velha deu seu boa noite. A esposa fresquinha Tô cansada, apaga tudo quando for deitar. Mais de onze da noite, tomou um banho, abriu a cerveja, sentou no sofá. A TV a cabo sem sinal. Meia hora e nada. Desistiu. Levantou. Deitou e ouviu o suspiro leve da esposa. O corpo fresquinho. A mão direto no peito, Pára, amor, que saco. Virou, verificou se o despertador estava ligado. Pensou no dia seguinte: sair de casa antes das crianças acordarem, ficar a manhã toda vendo vídeo no youtube escondido do chefe, esperar pela hora de ir ao refeitório da firma, almoçar bastante ouvindo e contando piadas com os colegas, descansar meia hora no banco do carro. Trabalhar um pouco à tarde, pra não deixar atrasar o serviço, terminar às cinco pra sair às seis em ponto. Chegar e as crianças de banho tomado cansadas demais do judô inglês ballet natação irem direto pra cama. Assistir sossegado ao jornal da TV esparramado no sofá. Desligar tudo, tomar banho e ir deitar. A mão correr pela espinha da esposa e torcer para que o cansaço e o sono dela sejam tão grandes que não consiga negar e impedir as vontades dele. Sonhou com o amanhã.

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