Fracassos de cabeceira

Eu começaria dizendo que todos já sentiram a mão gelada, dura e fétida que nos agarra o tornozelo numa manhã qualquer e nos submete ao desejo de não sair do escuro do quarto e do peso das cobertas. Mas não há nada que valha para todos (além da morte?). Há pessoas que nunca sentiram nem sentirão esta mão que nos puxa sem força e com convicção. Felizes os que têm motivo para levantar-se todas as manhãs. Ou, ainda: felizes os que saem todas as manhãs da cama, sem o menor motivo para fazê-lo. Eu mesma já senti várias vezes esta mão. Acho até que tivemos uma amizade duradoura e simpática. O mundo, o real, o das idéias, o da ficção – danem-se todos – nenhum deles por vezes me interessa. Quem entenderia, não é mesmo?

E essa mão aparece quando quer – mas a gente sabe quando ela tem suas razões. Não nos ensinam a fracassar. Não nos ensinam a não ter a vida que almejamos. Fracassar é uma bala azeda presa na garganta. Só há uma saída: conviver com os nossos fracassos. Mas ninguém fala em fracassos. Preferem dizer que não era a hora, que os outros é que estão errados, que não souberam valorizar o nosso trabalho, se Deus fecha uma porta Ele abre uma janela, e tantas baboseiras afins. E, na verdade, a gente fracassa e pronto. Não somos tão bons assim e ponto. E de manhã a mãozinha subirá pelo canto do colchão, agarrará o teu tornozelo bem na hora que você costuma acordar e dela não há escapatória. Talvez você fique ali uns minutos rememorando porque ela apareceu – aquele instante que a fuga dos sonhos te impediu de remoer os últimos acontecimentos e, bem, abrir os olhos é sempre colocar a memória em dia.

Você pode ficar jogado na cama o dia inteiro – a despeito do lindo nascer do sol que você poderia testemunhar, a despeito do relógio das obrigações a tocar. Você pode pensar em se matar. Você pode ligar e inventar uma doença. Você pode o que você quiser. Desde que você queira algo que caiba na vida que construiu até aqui. Senão, deite mais fracassos e frustrações aí junto da coberta e tenha mais razões para ficar jogado na cama preso à mãozinha. Você pode, também, mandar tudo à merda – não adianta nada nem muda nada, mas dá um alívio passageiro. E alívio, provavelmente, é o que a gente mais precisa nessas horas. É lícito, meus amores, não querer sair da cama. Um dia ou outro, ou vários dias (seguidos, inclusive). Paremos de problematizar isso. Deixe a mãozinha amiga ficar ali. Ela te entende melhor do que muita gente por aí, eu garanto.

A mãozinha é tão compreensiva quanto os bichos. Não sei, talvez você aí leitor seja um desapegado dos amores caninos e felinos e etc.. Mas minha longa experiência me dá respaldo para dizer que os animais entendem mais os nossos sentimentos do que outros seres humanos. Eles não precisam de um termômetro para saber quando você está mal, nem que você abra o coração aos prantos sobre suas últimas decepções e fracassos. Eles sempre estarão lá. Eles aparecem na hora que você precisa. Ao contrário dos seres humanos que você pode se jogar na frente, dar bandeira, pedir ajuda e o escambau e: nada. É provável, certeza quase, que o ser humano ainda consiga piorar (e muito) as coisas. O ser humano não é compreensivo nem muito habilidoso com a empatia. Os animais são superiores nisso, enquanto o ser humano só consegue ver o mundo a partir de si mesmo – e é cada espelho quebrado que tem por aí.

As pessoas gostam de se vangloriar – até das piores merdas. As pessoas não assumem que não são tão boas assim, que perdem muito mais do que ganham, que caem e ralam feio o joelho. Às vezes caem de penhascos e demorarão muito a se reerguer. Já caí muito na vida e sei que chega uma hora as manhãs eternas na companhia da mãozinha duram menos dias. Ela aparece, claro. Sempre. Colecionar fracassos é ter o plano B na mesa de cabeceira. E, se ao final nada der certo, danou-se. É o fim mesmo, não?

O dia amanhecerá, a mãozinha querendo ou não. O sol brilhará – a não ser que você esteja em Joinville –, o vento trará nova poeira sobre a vida. Os bichos precisarão ser alimentados. Os problemas conhecem o teu endereço. A saída é seguir com o próximo plano que estiver à mão. Se não tiver nenhum, falha sua, então fique em companhia da mãozinha até encontrar algum. Você não é tão bom quanto imagina – a despeito dos elogios, do que a sua mãe pensa de você, de sucessos e conquistas. Mas, de vez em quando, livre-se de tudo – e a mim, no momento, só interessa a previsão do tempo para a semana que vem. Só não esperem que eu diga que fracassar é bom. Se tem uma coisa que sei é que insistir é burrice – e desistir é digníssimo. Ninguém me ensinou, porém.

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