A moça da história incompleta

Eu não sei bem as razões que nos levam a querer tantas explicações. Natural do ser humano, diriam. De uns tempos pra cá talvez eu tenha deixado de ser tão humana, então. Saber é um vício, ou um simples exercício, ou, ainda, problema de ególatras. Fui deixando de querer saber… Nem sei quando isso começou. Nem o “curiosidade mata” me impediu de ser uma criança que perguntava tudo, que queria saber de tudo, e que incomodava muito. Eu lia a Barsa da casa dos meus avós e a dos meus pais, por exemplo. Não tinha Google e era divertido. Lembro de me admirar “nossa, a Barsa tem tudo!”. E quem é que dá bola pra Barsa, Fahya?

Não sei porque sempre queremos saber – estaria eu, agora, querendo saber? Tivemos um colega na graduação de Filosofia, aluno mediano, envolveu-se com o mais morto que vivo centro acadêmico do curso (que, aliás, sempre me lembra de outra história – quem dera eu nem lembrasse mais), frequentava as festinhas do CFH. Não era amigo próximo, mas vez ou outra conversávamos entre a roda de amigos. Eis que um dia uma moça (não lembro se era caloura da Filosofia ou de outro curso) morreu no Campus no meio da madrugada. Digamos que foi uma história chocante na época. Nós sabíamos que os dois estavam juntos de vê-los pelos corredores (ah, se aqueles corredores falassem! – Deus queira que eu nunca os ouça) e o burburinho correu solto. Uma moça foi encontrada morta e os fatos eram nebulosos.

Lembro de ter visto na TV as imagens das câmeras. Foi depois de uma festinha no campus, um prédio novo em construção (da Química, se não me engano, atrás do estacionamento do centro de Direito e Sociais), os dois subiram as escadas – as câmeras mostraram tudo – e no alto, meio que num impulso, ela sobe o parapeito e cai – ou se joga. Além da comoção, lembro de ter ficado bem próxima da convicção de que ela havia se jogado, talvez um pouco inconsciente (sob efeito, talvez, sei lá do quê) das suas ações. Ele sumiu por algum tempo, nem sei se terminou o curso. Acho que fiquei, à época, um pouco obcecada pela história. Surgiram boatos de que eles haviam brigado e como os jornais gostam, deram o prato cheio da tragédia, não deram muita bola para as consequências e exposição dos envolvidos.

Até hoje eu não sei como terminou a história. Os amigos mais próximos dele também não tiveram muito contato, muitos de nós não queríamos julgá-lo. Ou seja, é uma história incompleta. E eu me descobri obcecada por histórias incompletas. Por isso mesmo que, esses dias, lembrei desta história e fiquei me perguntando o que teriam pensado ou sentido os pais da moça (não lembro o nome dela por nada deste mundo). Se o nosso colega, afinal, era culpado ou não. Ou, ainda, se existem culpados numa situação dessas.

Minha obsessão por histórias incompletas se vê até nos filmes e livros que abandono. Só semana passada foram uns quatro. Fiquei uns minutos imaginando como seriam os finais daquelas histórias – umas, aliás, de tão óbvias e quadradinhas, estou certa que não errei (redundante isso, não?). Quando alguém conta uma história, nós queremos ouvi-la toda. Se a pessoa interrompe a narrativa, ou se termina de contar sem ter um final, nos frustramos (ou ficamos revoltados). É essa sensação de completude sobre os fatos, os eventos e as narrativas que sacia as pessoas. E eu não sei bem quando foi que perdi isso…

O caso desta moça foi pouquíssimo tempo depois do meu irmão ter se suicidado. E foi bem naqueles dias que todo filme que eu ia assistir tinha, obviamente, um suicida. E foi quando eu não sabia mais se saber de tudo é tanto assim da natureza humana. E foram essas experiências que me fizeram mudar – apesar de ter, por algum tempo, me incomodado com histórias incompletas, se não por mim, pelos outros. Talvez as pessoas realmente precisem de explicações. Talvez elas precisem saber porquês, comos, quandos e ondes. Eu já sei que a vida é muito curta para perder tempo com filmes ruins e livros chatos. Ou com pessoas que não trazem alegrias pra tua vida – ou que você não pode fazê-las felizes.

Eu não lembro mesmo o nome da moça. Não sei se o nosso colega falou com os pais dela, quais foram as últimas palavras dela – para os pais faz diferença. Eu nunca dei meu apoio explícito a ele (ainda tenho cá guardada a convicção de que não houve culpados), mas lembro que deixei claro que não fiz julgamentos – e, naqueles (como em tantos outros) corredores, isso é raro. A história, vocês me desculpem, fica assim incompleta. (talvez um google aí os ajude, as Barsas certeza que não se atêm a essas minúcias da vida mundana – não somos nenhum Napoleão)

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